Brigar na rua é proibido. Se terminar, não tem volta. Eu te amo é obrigatório. Deixar o parceiro confortável é essencial. Ir dormir brigado está fora de cogitação. Lavar a louça é tarefa única e exclusivamente dele.

Essas são algumas normas incluídas em acordos firmados por casais para regular o namoro. O assunto ganhou destaque após o jogador Endrick, 17, contar no podcast PodDelas que firmou um contrato com a namorada e influenciadora Gabriely Miranda, 21.

As cláusulas estabelecem que eles são obrigados a dizer “eu te amo” em qualquer situação e andar sempre de mãos dadas. Está vedado sob pena de multa discutir ou brigar na frente dos outros, mudanças drásticas de comportamento e ir dormir ou sair de casa enquanto estiverem brigados. Quem quebrar alguma das regras tem que pagar uma multa no fim do mês.

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Foto: Reprodução

O acordo não passa, é claro, de uma brincadeira do casal e não tem validade jurídica. A advogada de família Amanda Gimenes afirma que acordos legítimos entre namorados ocorrem em situações diferentes e quando envolvem proteção de patrimônios.

No contrato do namoro oficial, a intenção é firmar um documento que deixe claro que aquela relação é um namoro, não uma união estável. “O namoro tem um compromisso, mas não as mesmas obrigações do casamento, como assistência, fidelidade e coabitação”, diz ela.

O documento é recomendado por advogados no Brasil, já que a Justiça não estipula um período para que a união estável seja reconhecida. Segundo a lei, basta comprovar convivência pública, contínua e duradoura, estabelecida com o objetivo de constituição de família.

Hoje, Gimenes calcula que mais clientes a procuram para fazer um contrato de namoro do que de união estável, sendo a grande maioria mulheres. “Elas não querem confusão patrimonial, já vieram de outros relacionamentos e têm filhos.”

O advogado Conrado Paulino da Rosa diz que é comum que pessoas que estão nos primeiros relacionamentos se apaixonem e sintam que não precisam de respaldo jurídico. “Acham que são o alecrim dourado, que com elas vai ser diferente”, afirma. Por isso, ele defende a importância dos contratos. “Precisamos ser racionais nestes momentos.”

Apesar da orientação de procurar um advogado, a maioria dos casais estabelece tratos na informalidade para manter uma relação mais harmoniosa.

A advogada Jessica de Almeida, 30, e o engenheiro mecânico Renan Oliveira, 28, estão juntos há quatro anos e desde o início estabeleceram acordos para evitar os mesmos problemas que tiveram em relações passadas.

Entre eles, estão a impossibilidade de reatar a relação caso se separem –não existe a possibilidade de dar um tempo no relacionamento. “A gente não fala ‘não quero mais’ em briga. Se não, acabou. Vai comprometer todo o relacionamento”, afirma ela.

Eles podem frequentar qualquer lugar sozinhos com seus amigos, exceto baladas. “É um local para conhecer pessoas novas. Não é o ambiente que queremos estar”, diz Jessica, que cita ainda que eles têm a senha um do outro do celular, mas não vasculham o aparelho.

Para ela, o acordo com o namorado traz uma segurança para a relação. “Respeitamos o limite um do outro, quando uma briga está muito agitada, o outro já recua. Por isso, quase nunca brigamos.”

Jessica classifica os combinados como “acordo livre”. “Podemos sair dele, porém cientes que se tiver a quebra do acordo, a confiança que criamos vai inexistir.”

O único acordo da advogada Gabriela Marques, 28, e do programador Edson Buenos, 29, não partiu de traumas passados e nem foi realizado no intuito de solidificar a relação do casal. Partiu de uma aposta.

Quando eles se conheceram, ela afirmou que eles se casariam até setembro do ano seguinte. O então paquera negou. Ela respondeu: “Se estivermos casados, eu nunca mais lavo a louça”.

Ela nunca mais lavou nenhuma louça. Em 40 dias, eles estavam noivos e em setembro do ano passado se casaram. “Não é negociável. A louça pode estar transbordando que eu não vou lavar.” O acordo marcou tanto o casal que Gabriela lembrou dele nos votos do casamento: “Eu tenho uma certeza na vida é que nunca mais vou lavar louça.”

No caso de Marina Rotty e Márcio Wolf, casados há 25 anos, os acordos intensificaram depois que eles decidiram abrir o relacionamento. “Percebemos que os contratos não são claros na monogamia. Você casa, se relaciona e sabe que é o que tem que fazer”, diz ela.

O marido afirma que diante deste novo formato regras e acordos foram necessários. “No relacionamento monogâmico tem a fidelidade e não tem o que explorar. No aberto, tem muitas coisas envolvidas. É bom deixar claro os limites.”

As regras podem mudar ao longo do tempo, mas mentira não funciona. Por isso, tudo é compartilhado. “A Marina sabe quando estou interessado em alguém e vice-versa.” Apesar da liberdade, o casal tem que estar acima de qualquer aventura. “Nosso relacionamento é o mais importante.”

Para além da relação aberta, eles afirmam que também travaram combinados em relação à educação dos filhos e famílias. “O que é assunto da família dele, ele resolve. O que é assunto da minha, eu resolvo”, diz ela, que mantém junto ao marido o podcast Ponto Z, em que conversam sobre sexualidade e diversidade de relacionamentos.

Na avaliação do psicólogo Alexander Bez, contratos e acordos podem respaldar um casal com uma espécie de medida protetiva emocional. “Emocionalmente, isso pode ser uma garantia, mas há quem fale em desconfiança.”

De acordo com o Bez, o que deve prevalecer é a importância para o casal e se aquele tipo de acordo faz sentido. “A quebra pode significar que a relação está à deriva, uma fraqueza no sentimento ou na relação.”

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Caso Endrick: casais fazem acordo para regular namoro que inclui até regra para lavar a louça

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