Rogério Micale treinou o Paraná durante a Série A de 2018. (Geraldo Bubniak /AGB)

O técnico Rogério Micale admitiu que se arrependeu em ter deixado o Paraná Clube em 2018. Em 24 jogos entre Campeonato Paranaense e Série A do Brasileirão, o treinador teve sete vitórias, sete empates e dez derrotas.

“Eu tenho poucas coisas a mudar. Tenho uma forma de jogar, ideias claras do que tenho para a minha equipe. O que preciso é conquistar resultados rápidos. Me arrependo de ter saído do Paraná naquele momento. Se tivesse que cair, como caiu, eu teria que ter caído junto. Fui mandado embora, mas eu gerei ao presidente essa possibilidade a saída. Errei e acho que deveria ter permanecido. Quem sabe a gente poderia ter feito algo diferente”, declarou Micale.

Na primeira parte da conversa com a reportagem da Banda B, Micale ainda fala sobre as passagens como jogador pelo futebol paranaense, o início da carreira como treinador nas categorias de base da Portuguesa Londrinense e a necessidade dos clubes em conquistar resultados de forma imediata.

A segunda parte da entrevista com Rogério Micale sobre o trabalho na seleção brasileira será postada nesta sexta-feira (01).

Como foi a sua carreira como jogador, até com passagens pelo futebol paranaense, e a transição para treinador?

Eu tive uma passagem muito curta nas categorias de base do Corinthians e fui para o Londrina ainda no juvenil. Foi entre 1986 e 1992 que joguei em Londrina. Em 1992, eu resolvi parar ainda com 23 anos. Eu comecei a rodar em alguns que não estavam dando condições e achei melhor me direcionar para outra área. Até sai do futebol um pouco, mas o sangue esportivo estava correndo na veia e sempre com o sonho de realizar algo na área esportiva. Montei um negócio de grama sintética em Londrina e tive uma escolinha de futebol. Eu tive uma conversa com o Amarildo, diretor da Portuguesa Londrina, e ele me perguntou se não queria assumir o time de juniores. Falei que tinha interesse sim. Ali mudou tudo e confesso que não sabia nem o que fazer quando fui dar para o primeiro tempo. Comecei a dar treinos, mas errando muito. Sempre fiz bons torneios no Paraná pelo Londrina e pela Portuguesa. Chegamos a uma final pela Portuguesa em um estadual. Peguei o gosto e comecei a aperfeiçoar cada vez mais.

Qual a importância de passar por experiências nas categorias de base antes de treinar um time profissional?

Eu acho importantíssimo. As categorias de base permitem uma margem de erro maior e não têm uma cobrança tão forte quanto é em um time principal. Você precisar dar resultado todo final de semana e às vezes foge da característica do treinador só para manter o emprego. O treinador que passa pelas categorias de base tem muitas horas para acertar e errar. Te dá essa bagagem de levar um conteúdo maior que pode colocar em prática. O profissional muitas vezes tem que se condicionar em busca de resultado, com ideias pobres, mas que garante a manutenção de um emprego. A base te dá essa bagagem para dar um leque maior.

Falta pouco de criatividade para os dirigentes na hora de contratar um treinador?

Não é nem criatividade, mas falta às vezes coragem. Se contrata muito em função de alguma conquista que se teve em algum momento na história e pode ter sido lá atrás. A evolução do futebol é quase que igual a tecnologia, mas o dirigente é muito apegado até para dar uma justificativa e acalmar uma camada da torcida. Eu entendo isso, existe um sistema e uma pressão que envolve isso. Acredito que a maioria não tem capacidade para diferenciar quem tem ideia de jogo e conteúdo para acrescentar naquele clube. Eu vejo muito mais hoje a seleção de escolha de um profissional de base é muito mais aprimorada e detalhada que no principal. O presidente de um clube foi um grande torcedor e apaixonado. Ele começa como torcedor, se associa ao clube, vira membro da diretoria, vai para o conselho, concorre a presidência e vira presidente. A iniciação era torcedor e tem muito forte esse lado quando vira presidente. As decisões são passionais.

Em entrevista ao jornalista Paulo Vinícius Coelho, do Sportv, o diretor de futebol Rui Costa disse que o futebol vai precisar de um choque de realidade quando voltar. Você acha que pode ser um ponto de início na mudança de mentalidade?

A gente não pode trabalhar com a realidade no Brasil e parece que agride. Quando entra em um clube e você fala que vai brigar para não cair, acabou o mundo. Falam que já entrou derrotado, dizendo que vai ser rebaixado. Ao contrário também de quando fala que a equipe não vai ser campeã e vai brigar pela Libertadores. O dirigente tem que entender onde se enquadra e qual a realidade dele. Tem que trabalhar com a realidade do que a gente pode oferecer para o nosso torcedor e pode oferecer. Por exemplo, clubes entram para brigar para não cair, iniciam a competição com resultados interessantes e acumulam uma gordura. Essa gordura é para o objetivo maior que foi proposto e o dirigente disse que já estamos aqui e muda o discurso. Quando o resultado entra numa normalidade, ele interrompe o trabalho e dispensa o profissional. A gente vai continuar sempre patinando e trabalhar em cima do que é realidade. A realidade é hoje que temos uns três times para brigar pela ponta e um deles é o Flamengo, que tem poderio financeiro enorme. Vai poder ter outro campeão, mas a tendência é o Flamengo ganhar.

Ano passado foi importante para o futebol brasileiro com a chegada do Jorge Jesus no Flamengo. Como ele ganhou, parece que esse ano todo mundo vai querer propor o jogo. Fazendo um paralelo com o Paraná de 2018, que tentava sempre atacar, mas esbarra na qualidade, facilita o trabalho quando todos os times estão tentando ter mais esse processo de propor o jogo?

Quem comanda os clubes geralmente vai com o vento. Essa forma de jogar do Jorge Jesus, Jorge Sampaoli e até posso dizer do Tiago Nunes, que formaram equipes vencedoras e trouxeram essa tendência, até já existia no Brasil. O meu momento no Paraná, que tentava fazer esse tipo de jogo e até conseguia em vários momentos, era em um momento de futebol reativo. O time da moda no momento era o Corinthians. O futebol brasileiro viveu um tempo muito grande jogando de forma reativa, para ter a manutenção de trabalho. A tendência inverteu e todos os clubes querem um treinador que faça a equipe jogar. Nós vivemos de momentos. Tem time que não vai conseguir jogar igual ao Jesus e ao Sampaoli, mas vai esbarrar muitas vezes na qualidade do atleta. Se o clube tem como característica isso e quer fazer, tem que fazer e formar jogadores de acordo com a característica do que o clube quer. Eu espero que essa nova tendência se perpetue mais e todo mundo quer ver um bom jogo. Alguns clubes vão ter dificuldades, mas tem formas de jogar mesmo com limitações.

Você acha que esse imediatismo é também uma falha na educação desde o início?

O futebol não é uma ilha e não é feito de uma forma isolada da sociedade. Ele reflete a sociedade. A gente para se prevenir de algo, vai se prevenir faltando uma semana, um mês para a coisa acontecer. Eu falava na seleção brasileira que a gente queria os seis meses finais da Alemanha, mas não queria passar pelo processo de 12 anos para ser campeão mundial. Nós, brasileiros, somos imediatistas. Falava no Paraná que era como fazer uma casa. Você faz a casa e quando chega no alto do acabamento, não é bem isso que quero e derruba tudo. Vai demorar muito para construir essa casa da forma que quer, se ficar mudando toda hora seus desejos por situações da vida e do momento. O clube é a mesma coisa. Não tem uma ideia definida para que tenha um processo de trabalho e é muito superficial.

Quais clubes que você costuma procurar e os treinadores que costuma ver até para ver o que é feito na Europa, a base da evolução do futebol?

Tem muitos treinadores e muitos desconhecidos da grande maioria. Eu não tenho um específico, vou bebendo da água de cada um. Bebi muito da água do Pep Guardiola, tive a oportunidade de participar de um congresso com o mentor dele e foi muito útil trocar essas ideias. As ideias do Jurgen Klopp também são interessantes. Tem muitos treinadores que me influenciam, mas não sou preso a uma ideia específica. Busco informações dentro daquilo que acredito para o futebol.