René Simões. (Geraldo Bubniak/AGB)

Na semana passada, a equipe da Banda B elegeu os cinco melhores técnicos da história do Coritiba. Renê Simões, que trabalhou no Coxa em duas oportunidades, entrou na lista por conta do trabalho em 2007 que terminou com a conquista da Série B do Campeonato Brasileiro. Na ocasião, o Coxa marcou o gol do título apenas aos 47 minutos do segundo tempo, com o atacante Henrique Dias.

Em entrevista à Banda B, o ex-treinador relembra as passagens pelo Coritiba com muito carinho e também fala sobre os trabalhos memoráveis com a Jamaica e a seleção brasileira feminina e como está após se recuperar da Covid-19, a doença causada pelo coronavírus.

Você foi escolhido como um dos melhores técnicos do Coritiba por conta de seu trabalho em 2007. Como que foi aquele ano para você?

Primeiro, estar em uma lista dos cinco melhores técnicos de um clube da grandeza do Coritiba é extremamente significativo para mim. Depois, estar em um grupo seleto com Ênio Andrade, que era meu ídolo e foi um dos grandes treinadores do Brasil, me deixou muito feliz.

A passagem [pelo Coritiba em 2007] foi em um momento que era o caos. A torcida não podia ver os jogadores, não queria saber dos dirigentes, os dirigentes tinham problemas com os jogadores. Eu tive que fazer algo impactante, escrevi para a torcida uma carta que foi forte. Fiz algo diferente com os jogadores também. Não cheguei dizendo que eram os melhores do mundo, disse que o que estavam fazendo era muito pouco para ficar no Coritiba e modificamos tudo. Também pedi para que ninguém falasse em política até o final do campeonato e foi respeitado.

Todo jogo era um show, a torcida lotava o estádio e quando acaba o jogo era aquele grito de ‘vem Coritiba’. Esses dias falaram que o Jorge Jesus está inovando aqui, levando a torcida para o meio do campo, mas a gente já fazia isso no Coritiba em 2007. Foi uma passagem gratificante.

O ano de 2007 terminou com aquela vitória por 3 a 2 sobre o Santa Cruz. Como foi aquele jogo?

Foi muito doido. Eu tinha informações, em cada lugar eu tinha um espião e ele me passou muitas coisas sobre o Santa Cruz. Ele estava rebaixado, mas com suporte grande de outras equipes que se interessavam pela derrota do Coritiba. Fizemos 1 a 0, eles empatam o jogo e depois nós temos dois jogadores expulso. O final do jogo foi um negócio emocionante. O Keirrison empata aos 43 minutos e o Henrique Dias faz o outro gol aos 46. Nós merecíamos pela campanha que fizemos ano todo. O ponto maior de tudo foi o retorno para Curitiba. Nós subimos em um trio elétrico, não vi nada igual e nem na Jamaica vi uma festa parecida.

O que passou na sua cabeça na hora do gol de Henrique Dias?

Não dá para pensar. É só começar a pular e celebrar. Não tem muito o que pensar e só vai pensar depois quando a adrenalina sai do corpo. Naquele momento só tem que concentrar e colocar todo mundo para atrás da linha da bola porque estávamos com nove jogadores. Pensar só depois por tudo que você fez, no momento que pegou o clube e no esforço de todo mundo. Teve um jogo que perdemos por 3 a 1 para o Criciúma e saímos aplaudidos pelos torcedores que estavam lá. Eu disse para os jogadores ‘como as coisas estão mudando pela dedicação de vocês em campo’.

Você fala a todo momento sobre o apoio dos torcedores. Qual a sua relação com a torcida coxa-branca?

Não dá nem para falar muito e só tenho que definir de uma forma: eu me tornei torcedor do Coritiba. Para ver como eu me apaixonei por essa torcida, como foi bonito aquele ano, a dedicação. Foi espetacular.

Já a segunda passagem teve uma boa campanha na Copa do Brasil, com a queda apenas na semifinal para o Internacional, mas não teve o mesmo aproveitamento. Como foi o segundo trabalho no Coritiba em 2009?

Eu tenho falado sempre sobre isso. Tem a história no Botafogo, que fomos vice-campeões e depois no Campeonato Brasileiro falei que com elenco pequeno se dá mal em uma se querer enfrentar duas competições. Foi a mesma com o Coritiba. Nós fomos bem na Copa do Brasil e não conseguimos ir bem no campeonato. Sem um elenco, é difícil competir em duas frente, com jogos simultâneos, desgastes e competições. Nós tínhamos que optar e a opção na época foi na Copa do Brasil pelo tempo que tínhamos no Campeonato Brasileiro. Caímos na semifinal naquele jogo épico, no qual ganhamos do Internacional por 1 a 0 e poderíamos ter ganho de mais. Depois poderíamos ter levantado o time que estava cambaleando e optaram pela saída. Tem que pensar muito para não querer ir muito longe em duas competições e acaba indo mal em uma delas ou até nas duas.

Gostaria que você relembrasse dois momentos históricos na sua carreira: a classificação da Jamaica para a Copa do Mundo de 1998 e a medalha de prata com a seleção feminina nos Jogos Olímpicos de Atenas em 2004.

A Jamaica está muito viva, porque estou aproveitando a quarentena e escrevendo o livro sobre essa façanha. Eles me pediram e já estou no quinto capítulo. Cheguei lá em 1994 e já estou entrando em 1997 no livro. Foi um ano de transformação também e a pista que todos os campeões deixam para a gente é, como falava Mohammed Ali, que o forte não é aquele que sabe bater, mas aquele que sabe resistir a pancada e ficar de pé. Essa foi a história da Jamaica, uma história de superação, sacrifício e saber apanhar. A diferença lá era que derrota nunca geraram crises.

A seleção olímpica de futebol feminino não foi nada diferente. Existia um problema muito sério entre as meninas, a CBF e o COB. Eu chamei as meninas e disse que não consigo mudar a cabeça da CBF e do COB e posso mudar vocês se quiserem. Elas toparam, mudaram, e a CBF e o COB também mudaram com elas. Foi uma conquista muito relevante.

Ficou aquele gosto amargo não apenas pela derrota para os Estados Unidos por 2 a 1, mas também pelo fato do Brasil ter jogado melhor?

Eu costumo dizer que é uma prata dourada. Teve um pênalti que uma menina defendeu com as duas mãos e seria o 2 a 1 para a gente. Teve duas bolas na trave também, embora isso seja imprecisão. Aquela foi uma Olimpíada muito bonita. Escutei a Juliana Cabral dando uma entrevista da alegria que tinha em jogar naquele time.

Você vê uma importância daquela medalha de prata para o crescimento do futebol feminino?

Eu acho que sim, porque elas se profissionalizaram e a CBF entendeu que tem que lidar com elas como profissionais. Elas começaram a entender que podem ser profissionais e acabar com isso de que as meninas ganharem um menor salário que os homens em qualquer setor da vida. No futebol não vai dar para ganhar ainda, porque o futebol delas não geram tanta receita como os homens. Olhar elas como profissionais tem que ser ponto primordial para a melhora do futebol.

Você testou positivo para o novo coronavírus no mês passado. Como está a sua saúde após a recuperação?

Estou muito bem. Tive os 15 dias que precisava ficar [em isolamento], aprender a sofrer um pouquinho e ter um trabalho mental forte. Já fiz o teste do IgG, estou com a imunidade legal e agora é vida que segue para frente. O que tenho dito sempre é que a gente precisa conviver com esse vírus. Todos sabem que esse vírus está sendo politizado, colocando um pânico na população toda, mas temos Curitiba que essa maravilha toda. Epidemiologia são duas ciências: sociais e biológicas. Como epidemiologista só trabalha na parte biológica, ele é um péssimo profissional por não ver a parte social. Colocar as pessoas dentro de casa quebra a parte psicológica e social. Parabéns para o que Curitiba está fazendo.