Coritiba projeta venda como clube-empresa em plano de reestruturação
Diretoria do Coritiba anunciou planos de reestruturação e venda. Foto: Reprodução/YouTube TV Coxa

A diretoria do Coritiba anunciou na noite desta segunda-feira (14), em entrevista coletiva virtual, um projeto de reestruturação do clube, com um pedido de recuperação judicial e o avanço da formação de uma Sociedade Anônima de Futebol (SAF) alviverde, o que permitirá a venda do clube-empresa por um valor ainda não determinado.

A entrevista contou com as presenças do presidente do Coritiba, Juarez Moraes e Silva; o 1º Vice-Presidente, Glenn Stenger; o 2º Vice-Presidente, Osíris Klamas; o presidente do Conselho Deliberativo, Jamil Tawil Filho; o sócio da Divisão de Esportes da XP Investimentos, Guilherme Ávila; o diretor da Alvarez & Marsal, Fred Luz; e o sócio da Lollato Lopes Rangel Ribeiro Advogados Associados, Aguinaldo Ribeiro Jr.

Ao longo da coletiva, os cartolas alviverdes insistiram que não se trata somente do investimento em si, mas sim de uma ampla parceria em favor dos objetivos do Coxa pelas próximas décadas.

“Esse é o modelo que o Coritiba quer adotar: primeiro tratar a dívida, até para valorizar mais o próprio negócio. E depois buscar um investidor, mas um que não venha apenas pelo cheque, mas também pela questão estratégica”, disse o presidente Juarez Moraes e Silva. A questão da dívida explica o pedido de recuperação judicial.

R$ 114.219.308,39

Ao longo das 23 páginas do documento enviado à Justiça, os advogados do clube abordam o período de dificuldades vivido pelo Verdão desde 2017, quando a equipe sofreu com dois rebaixamentos para a Série B nacional, resultando em fortes perdas financeiras. As cotas de televisão e a pandemia da Covid-19 também são mencionadas como dificuldades para o clube.

“O prejuízo com a queda para a segunda divisão – para além de desportivo – representa em enorme desfalque de caixa a um clube de futebol, uma vez que a diferença de receita entre as duas principais divisões nacionais é de, no mínimo, R$ 32 milhões/ano”, diz o documento, que solicita, além da recuperação judicial, a suspensão das execuções já ajuizadas, e a nomeação de um administrador judicial.

Ao final do pedido, o Coritiba e seus representantes estimam que a solicitação envolve o montante de R$ 114.219.308,39.

Quanto vale o negócio Coritiba?

Questionados em várias oportunidades sobre o valor que o Alviverde considera justo para a venda da sua SAF, os dirigentes procuraram deixar em aberta a questão, já que caberá à empresa XP Investimentos e à Alvarez & Marsal trabalhar na prospecção tanto de valores quanto de investidores.

“O valor ainda não está determinado. Pelo contrário, o Coritiba não espera apenas um cheque em mãos. Mas também um parceiro estratégico para fazer o clube alcançar os objetivos que o clube imagina. O cheque pelo cheque não será aceito”, declarou o vice-presidente Glenn Stenger.

Já Guilherme Ávila, da XP Investimentos, afirmou que o foco inicial é ter um projeto bem-estruturado antes de se pensar em valores, e que o Coritiba está trabalhando justamente neste sentido. De acordo com ele, a empresa vem sendo constantemente procurada por investidores globais interessadas no mercado de SAFs brasileiro.

“A gente acredita muito no trabalho da gestão atual do clube. Em relação ao perfil do investidor, a gente acha que projetos bem estruturados serão críticos para perenidade do projeto de SAFs no Brasil, e que só terão prosperidade a partir de bons investidores. Muitos investidores globais procuram a XP por projetos bem-estruturados de SAF e nós trabalhamos em conjunto com os clubes em busca do melhor projeto”, avaliou ele.

O presidente coxa-branca ainda revelou que a modernização do Estádio Couto Pereira e do CT da Graciosa, além da construção de um novo CT em Campina Grande do Sul, na região metropolitana de Curitiba, integram a negociação da SAF alviverde.

“A revolução está em marcha”, concluiu Juarez Moraes e Silva.

Área do novo CT em Campina Grande do Sul tem 450 mil m² e foi comprada em 2011. Foto: Divulgação/Coritiba
Área do novo CT em Campina Grande do Sul tem 450 mil m² e foi comprada em 2011. Foto: Divulgação/Coritiba

O que é a SAF

A adesão e/ou criação de SAFs no mundo do futebol ganhou um impulso no Brasil com a lei 14.193, de 6 de agosto de 2021. Por ela, a SAF pode ser constituída “pela transformação do clube ou pessoa jurídica original em Sociedade Anônima do Futebol; pela cisão do departamento de futebol do clube ou pessoa jurídica original e transferência do seu patrimônio relacionado à atividade futebol; e pela iniciativa de pessoa natural ou jurídica ou de fundo de investimento”.

Foi por meio dela que o ex-jogador Ronaldo adquiriu a maior fatia do controle do Cruzeiro, e o empresário americano John Textor, dono do clube inglês Crystal Palace, fechou um acordo para a compra do Botafogo. Outras equipes brasileiras já indicaram a intenção de avançar para o formato de SAFs.

A adesão de Cruzeiro e Botafogo como precursores da SAF dentre os grandes do futebol brasileiro não se dá ao acaso. Ambos os clubes possuem dívidas na marca de R$ 1 bilhão, somando as áreas cível e trabalhista. Pela lei sobre o clube-empresa, cada clube que aderir ao SAF tem até 10 anos (seis prorrogáveis por mais quatro) para quitar todos os seus débitos.

Ou seja, uma vez formada e aprovada, a SAF nasce sem dívidas, as quais seguem com o clube. Contudo, o clube precisa definir o chamado Regime Centralizado de Execução, para arcar com os seus débitos (a SAF recebe o montante devido a credores apenas se a quitação não for feita em dez anos). Durante esse trâmite de pagamentos, a SAF deve repassar 20% de sua receita ao clube justamente para esse fim – a margem cai para 15% ou se mantém em 20% nos quatro anos finais do regime.

Ronaldo vai pagar R$ 400 milhões ao longo de dez anos pela SAF do Cruzeiro. Foto: Divulgação/Cruzeiro

No aspecto tributário, uma tributação específica permite que, nos primeiros cinco anos, a SAF pagará 5% sobre a sua receita total em um único imposto, que substitui Imposto de Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ), Contribuição Sobre Lucro Líquido (CSLL), PIS/Pasep e Cofins. Transferências de atletas também ficam isentas de impostos. Isso só muda a partir do 6º ano, com o pagamento de 4% sobre receitas, mais o pagamento por transferências de jogadores.

Vale lembrar que os clubes que aderem ao modelo SAF podem se tornar empresa ou podem seguir no modelo associativo. A meta da lei e do formato é permitir que os clubes se profissionalizem, possam pagar as suas dívidas e se viabilizarem. Uma vez vigente, a SAF fica responsável por salários, contratações e demais acordos no âmbito do futebol, sem risco de penhoras. Acordos comerciais já vigentes também passam para a SAF.

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