Nos últimos 14 meses, o Coritiba fez contratações esdrúxulas, teve quatro treinadores, gastou dinheiro. E caiu para a Série B (e por ora é o oitavo colocado da Segundona), foi eliminado na primeira fase da Copa do Brasil e não chegou à final do Campeonato Paranaense. Vários diretores, técnicos e jogadores passaram pelo Alto da Glória. Mas neste período de 14 meses, apenas uma pessoa ficou todo o tempo – Carlos Amodeo, demitido nesta terça-feira (2) pela Treecorp, dona da SAF alviverde.

Mas apesar dos resultados terríveis, não foi por nada disso – e nem por ter atacado a torcida em entrevista à RPC – que Amodeo caiu. Foi porque perdeu a queda de braço com o diretor técnico Paulo Autuori. Um racha que vem desde a chegada do ex-treinador, recebendo carta branca da Treecorp. E que teve um desfecho com o caso Alef Manga, a última tentativa do ex-CEO de “limpar o nome” e voltar a ganhar poder no Coritiba.

Até maio, Carlos Amodeo “mandava prender e mandava soltar” no Coritiba. Mesmo com executivos de futebol, Artur Moraes e o falecido Júnior Chávare, era o CEO que tinha a última palavra no futebol. Este protagonismo era acentuado pela divulgação de seu nome em todos as contratações. Foi o agora ex-dirigente quem deu diversas entrevistas à imprensa nacional sobre Jesé Rodríguez, Samaris e Slimani. Foi ele quem fechou o acordo de compra de David da Hora. E foi ele quem fechou o empréstimo de Yago e Johnny, as últimas contratações do Coxa.

Autuori no Coritiba

Quando foi contratado em maio, Paulo Autuori pediu – e a Treecorp topou – ter autonomia total sobre o futebol. Isto fechava a porta para o agora ex-CEO. Foi nessa garantia da dona da SAF que Autuori começou a fazer discretos ajustes no futebol do Coritiba. Por ele, James Freitas continuaria como técnico principal, mas o auxiliar (agora no Grêmio) não teria aceitado. E a contratação de Fábio Matias teve a última palavra do diretor técnico. E, diferente de outros momentos, a apresentação do treinador foi comandada pelo executivo William Thomas.

Foi quando Amodeo começou a se complicar. Dias após a chegada de Autuori ele deu uma entrevista para a RPC criticando a torcida do Coritiba. “O título do torcedor do Coritiba, nesta dinâmica de comportamento com a diretoria do clube, é quando consegue fazer valer a sua vontade“, disse ele. A reação foi tão grande que ele precisou pedir desculpas dias mais tarde. A resposta foi a união de 21 grupos no chamado Coletivo Coritibano, que tinha como ponto principal das cobranças à Treecorp a demissão do CEO.

Manga usado?

Mesmo ainda aparecendo na mídia, Amodeo não tinha mais o poder decisório no futebol. E viu que Paulo Autuori e William Thomas não pretendiam manter Alef Manga no clube após o final da punição por participar de um esquema de manipulação de jogos. Cobrado, com faixas pedindo sua saída no Couto Pereira (as primeiras foram retiradas com truculência pelos seguranças), o CEO do Coritiba vislumbrou na permanência do atacante – apoiada pela maioria da torcida – uma chance de recuperar a moral. E, principalmente, voltar a ter influência no futebol.

Coincidência ou não, foi o advogado de Alef Manga, Jeffrey Chiquini, o porta-voz que acabou detonando a crise. A estratégia foi de centrar fogo sobre William Thomas. Mas quem respondeu em vídeo oficial do Coritiba foi Paulo Autuori. Era o racha escancarado. Houve uma tentativa de mudança de discurso, em que o advogado, em postagens e entrevistas, passou a também criticar Amodeo e poupar Autuori.

Desfecho

Desde o sábado a Treecorp já demonstrara o desejo de resolver a situação. Passado o jogo com o Vila Nova e a folga do domingo, foi marcada uma reunião para esta terça-feira. Durante o dia, já surgia a notícia de que estava sendo tentada uma ‘reconciliação geral’. Mas às 16h45 o Coritiba divulgou nota oficial confirmando a saída de Carlos Amodeo. Paulo Autuori seguia com a carta branca que recebera em maio.

E Alef Manga, pivô da história? A tendência é, sim, que ele seja negociado (por empréstimo ou em definitivo). Mas o futebol é dinâmico, e nada será surpreendente. O certo é que Autuori e William Thomas ganham mais liberdade, mas aumenta e muito a pressão por uma janela eficiente, fortalecendo o elenco do Coritiba. A Treecorp já foi alvo de protesto do Coletivo Coritibano na noite de terça, com torcedores indo até o escritório da empresa, a cerca de dois quilômetros do Couto Pereira. Para a crise ser totalmente debelada, ainda tem muita coisa a acontecer no Coxa.

Paulo Autuori e William Thomas, os responsáveis pelo futebol do Coritiba.
Ao tentar atacar William Thomas, o advogado de Alef Manga arrumou confusão com Paulo Autuori. E precipitou a crise. Foto: Reprodução/TV Coxa

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Os bastidores da saída de Carlos Amodeo do Coritiba

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