Mozart é auxiliar do técnico Eduardo Barroca no Coritiba. (Divulgação/Coritiba)

Mozart trabalha no Coritiba desde 2013 e passou por diversos funções até chegar a auxiliar da casa. Em entrevista à Banda B, ele fala sobre a carreira de jogador, a expectativa de ser treinador e como está sendo o trabalho do Coxa durante a paralisação do futebol devido à pandemia do novo coronavírus.

Confira a entrevista na íntegra

Como está sendo seu trabalho no Coritiba neste momento de pandemia?

Há duas semanas, nós tivemos uma reunião por aplicativo com os jogadores de algumas posições e entramos em férias. Durante as férias, nós, da comissão técnica, estamos falando sobre possíveis adversários e já começamos a analisar o Paraná, caso o Campeonato Paranaense volte. Também já estamos analisando o Internacional, se o Brasileirão começar. A princípio, nós vamos voltar no dia 1º de maio. Existem coisas que são mais preocupantes que o futebol e talvez o futebol ajudasse de alguma forma. As pessoas estão passando necessidade e o problema é muito maior que o futebol. Espero que as pessoas voltem a trabalhar o mais rápido possível.

Em entrevista à Banda B, o Jorginho falou da sua importância para o acesso do Coritiba no ano passado. Como foi a campanha do ano passado e por que acha que teve essa importância?

Fico feliz de ouvir essas palavras do Jorginho. Eu respeito o momento de cada pessoa no clube, como aconteceu com o Umberto, Jorginho e acontece com o Barroca. Estou ali para ajudar. O Jorginho é uma grande referência para mim e talvez seja a principal no Brasil. A minha contribuição no ano passado foi como auxiliar da casa. Sempre que era pedido a minha opinião nos jogos, eu dava para auxiliar de alguma maneira. Por isso, o Jorginho acabou falando da minha importância no ano passado. Ele contribuiu muito para o acesso, junto com todo mundo da comissão, e os jogadores.

No início do ano teve um rumor muito forte que você poderia assumir o Coritiba e o Alex seria o auxiliar. Como você via essa possibilidade?

Depois que comecei em 2013, eu fiz dois cursos da Uefa para aproveitar as oportunidades. Se a oportunidade surgir, eu tenho que estar preparado, mas respeitando as pessoas no clube. O Barroca é o treinador e vou fazer tudo para ajuda-lo. Nós temos também uma relação pessoal. Eu espero que essa oportunidade surja um dia e respeitando o momento de cada profissional.

Como foi o início da sua carreira e as principais dificuldade até virar profissional no Coritiba?

Eu comecei em 1990 no antigo no Pinheiros e morava no Boqueirão. Morava muito próximo da Vila Olímpica e comecei lá. Fiz todas as categorias no Paraná e em 1996 me transferi para  França. Joguei dois anos na França e voltei para o Coritiba. A dificuldade foi de se frustrar, ouvir alguns nãos, mas nada fora do normal que outro jogador já não passou. Algumas dificuldades me ajudaram na minha formação como atleta e pessoa. O fato de ter saído cedo do país e morado dois anos sozinho na França foi valioso para mim. Eu fui embora com 16 anos e voltei com 18 anos. Isso me ajudou na forma de ver o mundo e enfrentar as dificuldades. Tive que aprender novo idioma e aprender os costumes do país.

Em 1999, você vive um grande momento no Coritiba e no ano seguinte vai para o Flamengo, consegue ser convocado para seleção e disputa a Olimpiada. Como foi essa transição do Coritiba para o Flamengo que não estava ganhando tantos títulos e tem muita pressão de torcida?

Foi tudo muito rápido para mim. Em 1998, no Coritiba, eu estava na base e subi no ano seguinte para o profissional como quinto volante. Eu tive a oportunidade em um Athletiba e não sai mais. A partir desse momento, aos poucos, eu me tornei titular quase que absoluto da posição e fui convocado para a seleção pela primeira vez. Administrar tudo nem sempre é simples, mas o fato de ter absorvido os valores dos meus pais foi importante para não deslumbrar e entender que era só o começo. Na minha primeira convocação, eu fui titular em Sidney e foi quando dei o cartão de visita. Eu disputei o Pré-Olímpico em Londrina como jogador do Coritiba. Depois do Pré-Olímpico, eu fui para o Flamengo e a grandeza era parecida com o que é hoje, mas era muito diferente em termos de organização. Eu joguei em 2000, foi um período muito bom, mas em um momento com dificuldades financeira. Fui depois para o Reggina, da Itália, e fiquei cinco anos.

Foi fácil a adaptação na Itália por conta da experiência passada em outro país na Europa?

Fácil não, futebolisticamente falando. Eu vivi uma geração na qual o Campeonato Italiano era o mais forte do mundo. A temporada 2002-2003 da Champions League foi Juventus e Milan. Eu enfrentei jogadores como Schevchenko, Kaká, Rui Costa, Maldini, Nesta. O primeiro ano foi difícil, principalmente pela intensidade do jogo. Foi um ano para me adaptar e depois foi tranquilo. Eu tive a oportunidade de ser capitão do Reggina por dois anos e tenho uma história muito bacana. Em 2005, eu me transferi para a Rússia, encontrei um clube extremamente organizado e com torcida fanática. Eu nem imaginava da grandeza do Spartak antes de ir para lá. Foi uma experiência de jogar a Champions League e fui o primeiro brasileiro a ser capitão lá. A experiência lá fora me moldou para ser o treinador que quero ser.

Quanto tempo demora a adaptação de um jogador após mudança de um país? Como é a importância uma nova cultura para o crescimento do atleta?

É subjetivo quanto demora porque depende de cada pessoa. Eu não tive tanta dificuldade por ter uma experiência fora do país muito cedo. Eu convivi com alguns estrangeiros na minha passagem fora do país e, normalmente, quando o atleta não se adapta é que ele quer que o país se adapte a ele. Esse é o grande erro que o atleta encontra quando joga fora do país. Falando da minha experiência na França, eu fui obrigado a amadurecer rápido e tenho esse lado mais frio por ter saído cedo de casa. Acredito que isso influenciou na minha personalidade.

Você parou cedo com 30 anos. Como foi o final da carreira?

Meus últimos dois clubes foram o Palmeiras, em 2009, onde tive apenas uma passagem e o único clube onde não me destaquei, e Livorno, em 2010, onde comecei muito bem lá. Nós terminamos o Campeonato Italiano com 25 pontos, uma pontuação muito boa para as pretensões do clube. O primeiro turno foi muito bom, mas o segundo turno foi um desastre. Eu tinha mais um ano de contrato, mas voltei mais cedo para o Brasil. Tinha algumas propostas, mas uma lesão na cartilagem me prejudicava muito desde 2007. Quando voltei do Livorno, eu recebei algumas propostas, mas decidi parar. Eu parei com quase 31 anos e é muito cedo para os dias de hoje.

Qual foi o primeiro pensamento após o final da carreira?

Eu tenho um engenho de cachaça em Morretes e tenho residência fixa lá. Fiquei dois anos cuidando da empresa e decidi voltar em 2013 para o futebol. Tive uma proposta do Jaraguá, na terceira divisão de Santa Catarina, e resolvi aceitar essa aventura para ver se gosto. Gostei de ser treinador e comecei a buscar conhecimento. Entrei no Coritiba em 2015 como auxiliar no Coritiba e estou lá até hoje.

Em algum momento da carreira você pensava em ser técnico?

Fazendo uma retrospectiva da minha carreira, os seis anos na Itália me moldaram para ser treinador hoje. Eu exercia algumas funções dentro do clube, principalmente no Reggina, que me preparam para ser treinador, mas não sabia ainda. Virei o camisa 5, na frente da defesa, e é uma posição privilegiada para quem quer ser treinador depois. Tenho essa concepção que estava me preparando para ser treinador, mas não sabia.

Você tem referências de técnico, pesquisa modelos de clubes específicos?

Gosto de assistir jogos, mas pouco do Brasil. Eu assisto aos adversários do Coritiba, mas em termos de referência não assisto tanto. Eu gosto do Klopp, tento roubar algumas ideias no bom sentido do Guardiola, mas são realidades diferentes. Tenho a minha metodologia de trabalho e quero montar a minha própria história e modelo. Não existe verdade absoluta no futebol e cada um tem a sua ideia.