O clássico Atletiba, o maior do futebol paranaense, completou 100 anos no último sábado (8). Foi num dia 8 de junho de 1924 que Coritiba e Athletico (o mando foi alviverde) se encontraram pela primeira vez. A vitória foi do Coxa por 6×3, no estádio da Graciosa, onde hoje passa a avenida João Gualberto, no Juvevê. Mas como esta história foi contada? A Banda B viajou no tempo para mostrar como a imprensa acompanhou o primeiro Atletiba.

É preciso primeiro entender que o futebol não era um assunto preferido da imprensa da época. O esporte tinha “pegado” no Brasil em 1919, quando a seleção ganhou o Campeonato Sul-Americano, mas ainda não era a paixão nacional que foi se transformando com o tempo. O rádio tinha chegado ao País dois anos antes, e a primeira emissora do Paraná, a rádio Clube Paranaense, seria inaugurada depois do primeiro Atletiba, em 27 de junho do mesmo 1924.

Então, os jornais eram a única fonte de informação para o noticiário local. À época eram vários diários e semanários, mas com poucas páginas (normalmente apenas oito) e todos os assuntos imagináveis. De um incêndio no Batel até fatos da União Soviética, tudo estava ali, espremido em colunas finas e letras miúdas. E claro que não havia uma página de esporte para colocar o Atletiba em primeiro plano.

Raro registro

A ponto de um dos principais jornais da época, O Dia, sequer ter falado no Atletiba na sua edição de 10 de junho de 1924, uma terça-feira – a maioria dos noticiosos não tinha edições de segunda-feira. Já o Commercio do Paraná, fundado em 1912, tratou do clássico na página 4 (a última) da edição publicada há exatos 100 anos. E melhor do que explicar é mostrar. Confira abaixo, na íntegra, a matéria do Commercio sobre o primeiro clássico da história. O texto está de acordo com as regras gramaticais da época.

ATHLETICO X CURYTIBA

Com uma grande assistência teve lugar domingo passado no campo do Curytiba F. B. Club o encontro entre as fortes esquadras de Athletico x Curytiba. Desde cedo a archibancada apresentava um bello e encantador aspecto, ornamentada pelo nosso distincto “bello sexo”, que mostrava anciedade em presenciar a grande pugna a se realizar. Até que às horas 13,45, a chamado do árbitro escalado, sr. Moacyr Gonçalves, penetram ao campo as esquadras secundárias iniciando a tarde sportiva.

A lucta agradou a todos quantos presenciaram e terminou com a vitória do Athletico pela contagem de 3 a 1. Poucos minutos após o término desta partida e, para o grammado, pelo árbitro sr. Elias Martins, são chamados os quadros principaes que alinham-se constituídos desta forma.
Athletico: Nato; Marrecão, Cordeiro, Franico, Maneco e Laurival; Marques, Ary, Leônidas, Motta e Mignon.
Coritiba: Jacomino; Bahu e Beatriz; Zellioto, Octaviano e Luiz; Perim, Bento, Ninho, Inglez e Staco.

Inicia a peleja

Que, desde os primeiros momentos, assume franca animação. O Curytiba organisa o seu primeiro ataque sendo repelido por Marrecão que manifesta-se firma. Atacam os rubro-negros avançando com impetuosidade, nada conseguindo. A assistência delira entusiasticamente, aplaudindo ora esse, ora aquelle. O quinteto puxado por Ninho, leva a efeito uma carregada, quando Nato é obrigado a interceptar para salvar seu posto. O jogo é equilibrado sendo os ataques recíprocos. Aos seis minutos, Raul de posse do “couro” entrega-o a Motta que o envia à direita. Ary perde excellente oportunidade de vazar a meta atirando fora de diminuta distância.

Um furo de Bahu que nada resulta. Beatriz joga com firmeza enquanto seu companheiro de “zaga” está fraco. Atacam os curytibanos pela esquerda e Staco centra – Bugiu defende com precisão. A seguir duas consecutivas defesas de Marrecão que é applaudido constantemente, Aos dezoito minutos de contenda, Leônidas passando o couro a Motta este o envia a Marques que centra atrazado. A pelota vem ter aos pés de Mignon que a quarenta jardas, com bem accertado e violento “pelotaço” vaza a méta adversária, conquistando o primeiro ponto do Athletico.

De baixo de uma longa salva de palmas

Animados com o feito de seu companheiro, os rubros-negros levam a efeito outro ataque, que Beatriz defende com maestria. A assistencia applaude. Na archibancada, o “torcimento” e os “ais” das senhoritas, animam grandemente os denodados players, que batem-se como tigres. O Curytiba, na ancia de tirar a vantagem que sobre si leva seu adversário, ataca repetidas vezes, verificando-se seguidos off-sides de Ninho.

Atacam novamente os do Athletico, obrigando Bahu a uma falta que Motta bate por cima da trave. Franico e Laurival jogam firmes, Maneco auxilia a linha dianteira que precipita-se muito nos arremates finaes. Octaviano e Luiz, principalmente o último que defende bem e auxilia o ataque, secundados por Beatriz, Bahu e Zellioto, formam barreira. Do outro lado, Marrecão, Cordeiro e os médios de ala, actuam magnificamente.

O jogo toma aspecto assombroso e o Curytiba não consegue desfazer a vantagem de seu adversário que joga com efficiencia, até que, quatro minutos antes do primeiro “half-time”, o juiz pune uma falta de Franco junto à área penal. Staco bate-a e Nato abandona seu posto – a pelota bate em Ninho e vae ter aos pés de Bento que, arremessa-a à rede, conseguindo o ponto que empatava a partida, no que é coroado por uma estrondosa salva de palmas. Poucos ataques mais e soa o apito do árbitro que dá por findo o primeiro tempo.

Reiniciada a peleja

O Athletico ataca fortemente sem produzir effeito. A linha curytibana passa então a atacar, fazendo forte pressão à defesa inimiga, onde se pode salientar Marrecão, Franico e Laurival. Às 16,32, Bento atira fortemente, Nato descolloca-se e Ninho envia fraco ponta-pé fazendo a bola aninhar-se pela segunda vez nas redes adversárias. Estava marcado o 2º ponto curytibano. Os curytibanos animados com esse feito passam a atacar incessantemente. A linha atacante do “Rubro-Negro” joga desorientada.

O árbitro deixa passar faltas visíveis contra o Curytiba. Às 16,38 Raul de posse do couro passa a Motta que atira violentamente. Marques carregando atira na meta occasionando uma encrenca à porta do goal. Depois de muitos ponta-pés, é novamente a partida empatada por Motta que consegue o segundo goal do Athletico. Reanimados os athleticos tornam a atacar não surtindo, porém, efeito. Carrega novamente a linha curytibana e Bento desempata novamente a partida conseguindo o 3º ponto do Curytiba.

Dada nova sahida

Pelo Athletico, perdem logo a bola para o adversário, que carrega, tendo Ninho conseguido em bello estylo o 4º ponto da tarde. Nota-se visivelmente a desorientação do quinteto atacante do Athletico e muito também de Nato que joga sem firmeza. A linha curytibana não dá descanço à defesa inimiga que com excepção do centro médio que demonstra estar “pregueado” e Bugiu que começa a actuar descollocado, cava “rouxamente” e em cuja apparecem muito Franico, Laurival e Marrecão.

Octaviano joga firme distribuindo bem. Zillioto bem. Luiz óptimo. Seis minutos após a conquista do 4º ponto e Ninho mais uma vez saccode a rede adversária, pois conquista o 5º ponto curytibano. Sahe novamente o Athletico, cujo trio atacante, composto de Motta, Marrequinho e Ary, muito procura fazer, sendo entretanto os seus esforços inutilisados pela defesa antagonista que actua efficientemente.

3º e último ponto do Athletico

Motta desfere violento ponta-pé que Jacomino prende. Marques escapando a duas jardas atira também violentamente dando o “couro” contra o arqueiro que não podendo segural-o e Ary comete hands que o árbitro pune. Apesar de sempre serem desorientados, diversos ataques eram levados a efeito pelo Athletico. Motta atira e o árbitro pune uma penalidade máxima. Ary, incumbido de batel-a, o faz com forte pelotaço que se reverte no 3º e último ponto do Athletico.

Sahem os curytibanos que levam a pelota até as proximidades arco sob a guarda de Neto e Marrecão é obrigado a escanteiar. Bate o escanteio Bugio rebate o couro que vae ter aos pés de Luiz que entrega a Staco. Este centra e Inglez consegue de cabeça o 6º e último ponto da tarde. E assim, com este score, minutos após terminava a grande partida de domingo que pelas suas phases emocionantes, mormente no primeiro tempo, a todos agradou.

A actuação do árbitro

O sr. Elias Martin, árbitro da partida de domingo, actuou regularmente. Deixou de punir faltas prejudiciaes a ambos os lados. Enfim fez coisas que todos os referees deixam passar.

Isto é que não dá…

Domingo passado após terminada a peleja entre o Curytiba e o Athletico, fomos suprehendidos ao ver um gesto “pouco” louvável dos torcedores do vencedor da pugna. Munidos d’uma grande quantidade de foguetes queimavam-n’os, festejando assim a victoria conquistada. E isto, reconhecido como é, com o apoio de bem poucos contou e contará. Oxalá que este exemplo contestável não venha a auferir sérios incomodos aos dirigentes da A.S.P. (nota: Associação Sportiva Paranaense, a federação da época) e mesmo das nossas autoridades.

Sabemos que cada qual tem a inteira liberdade de festejar como melhor lhe convier uma victoria “honrosa”, como foi a de domingo. Porém, tememos unicamente que isto venha ser reproduzido em outros campos de foot-ball, e o que infallivelmente virá concorrer a desviar d’uma tarde sportiva o brilhantismo que ella haja obtido. Soubemos de fonte certa que o Curytiba Foot Ball Club censurará severamente o gesto de seus torcedores e como elles, nós o fazemos com mira em simplesmente deter para sempre os “fecha-tempos” de nossos campos. Que nos ouçam.

Parque da Graciosa, local do primeiro Atletiba.
Estádio da Graciosa, no Juvevê, onde foi o primeiro Atletiba. Agora a área é ocupada pela avenida João Gualberto. Foto: Divulgação/CFC

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Atletiba 100 anos: primeiro clássico teve virada, árbitro criticado e confusão no final

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