
O dia 10 de agosto de 2021 celebra uma marca histórica na carreira do goleiro Santos, do Athletico. Nesta data, o jogador completa dez anos de sua primeira partida como profissional pelo Furacão. De lá para cá, muita coisa mudou: a Arena não é mais a mesma, o time tem um escudo novo, o nome é diferente e o momento é completamente o oposto daquela época. A única coisa que se assemelha é Aderbar Melo dos Santos defendendo a meta rubro-negra.
A partida, em questão, foi contra o Flamengo, no Engenhão, pela primeira fase da Copa Sul-Americana. Naquele ano, a competição foi deixada de lado pelo Furacão, que brigava contra o rebaixamento. Anos depois, Santos foi campeão do torneio, além também de ter conquistado a Copa do Brasil e uma medalha de ouro olímpica.
Mas até chegar nos dias de glória, a trajetória foi de muita paciência. O goleiro teve que passar seis anos de sua carreira na reserva do Furacão, até que a oportunidade de ser titular aparecesse em 2010 e ele agarrasse de vez, somando 221 jogos com a camisa athleticana. Seu contrato tem validade até o final de 2022.
“É fruto do trabalho era feito durante esse período que eu não jogava. Muitas vezes, alguns só vê o momento, a medalha no peito, mas não viu esse período de ter que esperar um bom tempo, de ter que continuar trabalhando, esperar a oportunidade”, destacou Santos à Banda B, em sua chegada após a conquista da medalha de ouro na Olimpíada de Tóquio.
A chegada no Athletico
Natural de Campina Grande, Santos chegou no Athletico em março de 2008, vindo do Porto de Caruaru. De início, passou a defender o time Sub-20 do Furacão. Um dos seus primeiros colegas de equipe foi o zagueiro Bruno Costa, que foi seu companheiro de quarto nos primeiros anos de Furacão.
“Eu conheci o Santos no começo de 2008, quando ele chegou no Athletico. Eu já estava no clube fazia quatro anos e a gente dividiu quarto neste primeiro instante. Depois, quando subimos para o profissional, dividíamos muro, eram quartos diferentes, mas vizinhos de porta. Eu sempre estava com ele, sempre foi um cara muito sereno, muito tranquilo, tanto dentro como fora de campo. Ele já era assim com a gente, mesmo com tanta liberdade”, recorda o zagueiro.
Desde os seus primeiros anos, Santos já se destacava com sua habilidade, principalmente em cobranças de pênalti. No ano em que chegou no clube, o goleiro foi o herói em duas competições internacionais de base que o Furacão disputou na Europa, como recorda Bruno.
“Fizemos uma viagem para Europa, dois torneios internacionais, um na Alemanha e um na Holanda. Enfrentamos grandes clubes da Europa, Bayern, Manchester United, e fomos campeões dos dois. Eram torneios curtos, rápidos, com 25 minutos cada lado, primeiro e segundo tempo, e jogos de manhã e à tarde. Então, a tendência, por ser muito rápido o jogo, era de empatar e as partidas irem para os pênaltis. E eu lembro que o Santos nos deu os dois títulos na disputa por pênaltis”, relata o zagueiro.
A primeira grande aparição de Santos para a torcida do Athletico foi na Copa São Paulo de Futebol Juniores, em 2009. Naquele ano, o Furacão chegou ate a final da competição pela primeira vez, mas acabou sendo derrotado para o Corinthians. Antes disso, o goleiro foi essencial na classificação contra o Fortaleza, nas oitavas de final, onde defendeu três pênaltis na decisão após os 90 minutos, além de uma grande atuação na semifinal contra o São Paulo, como destaca o treinador daquele time, Marquinhos Santos.
“O Henrique Almeida sofreu pênalti, nós estávamos vencendo pelo placar por 2 a 1. O Oscar foi bater aos 44 minutos do segundo tempo e ele acabou defendendo. Extremamente frio, extremamente preparado desde cedo, é uma das suas virtudes. Já demonstrava a sua qualidade em relação, em especial, as penalidades”, enfatiza o treinador.
O jogo de estreia
Após o destaque na competição de base, Santos foi promovido ao time principal do Athletico. Somente em 2011 conseguiu ter um espaço maior, quando era terceiro goleiro da equipe, ficando na reserva de Renan Rocha e Márcio.
O Furacão não vivia um bom momento na temporada, brigando diretamente contra o rebaixamento. Para o duelo contra o Flamengo, pela primeira fase da Copa Sul-Americana, o treinador Renato Gaúcho optou por deixar a competição em segundo plano e levar uma equipe alternativa para o Rio de Janeiro.
O certo era Márcio substituir Renan Rocha na meta athleticana. Porém, o goleiro sentiu uma lesão. Santos, aos 21 anos, acabou tendo a oportunidade e estreou na noite daquela quarta-feira, 10 de agosto, de 2011, no Engenhão.
Na partida, Santos teve boas defesas em finalizações de Thiago Neves, Renato Abreu e Jael, mas cometeu um pênalti no atacante flamenguista. Na cobrança, o goleiro acertou o lado, mas não conseguiu defender a batida de Ronaldinho Gaúcho, que fez o gol da vitória do time carioca.
Perguntado pela Banda B, Santos disse que lembra da partida e lamenta que o resultado tenha sido negativo. “Lembro do jogo, não lembrava só da data. Realmente fica marcado por ser a estreia, fica guardado, apesar de não ter saído como a gente esperava. Muito feliz por saber desta marca, espero continuar fazendo um excelente trabalho, aumentando essas marcas dentro do clube”, destacou o goleiro.
Reserva e paciência
Santos seguiu na reserva da equipe. O Athletico acabou disputando a Série B do Campeonato Brasileiro, com ele sendo o terceiro goleiro. Em 2013, teve sua primeira sequência de jogos no Furacão, defendendo a meta do time de aspirantes, que era a grande novidade do Paranaense daquela ano.
Após aquela competição, Santos passou a ocupar reserva imediata da meta athleticana. O titular era Weverton, que começava a escrever uma história gigante dentro do clube. Então, começou a aparecer uma outra grande característica do goleiro paraibano: a paciência, como destaca o preparador de goleiros, Thiago Mehl, que trabalhou com o atleta no Furacão em 2013.
“Ele tem um perfil de ser muito paciente, de saber a hora certa. Em nenhum momento, quando ele era reserva, eu o via treinando insatisfeito pela reserva ou querendo uma vaga no time titular a todo custo. Eu sempre soube esperar o tempo dele”, pontuou Mehl.
Quem também vivenciou esse período do goleiro na reserva foi o atacante Marcelo Cirino, que era companheiro de Santos desde as categorias de base. O jogador recorda de outros nomes que passaram pelo gol athleticano e, também, de conversas que teve com Santos durante as concentrações.
“No início, ele pegou uma geração muito boa de goleiros, como Renan Rocha, Neto, Vinicius, João Carlos e, consequentemente, o Weverton, goleiros de muita qualidade, mas o Santos sempre teve a cabeça no lugar, sempre trabalhou. Eu, que concentrei com ele por muitos anos, sempre estava conversando com ele, falando que a hora dele ia chegar, porque eu sabia da qualidade, sabia de onde ele podia chegar”, ressalta o atacante.
Mesmo na reserva, Santos conseguiu ter alguns destaques, principalmente quando Weverton estava na Seleção. Em uma dessas oportunidades, foi essencial na partida contra o Fluminense, na reta final do Brasileirão de 2016, quando defendeu um pênalti nos minutos finais da partida no Maracanã e garantiu uma vitória que foi crucial na classificação do Furacão para a Libertadores do ano seguinte.
Enfim, a titularidade
Foram pelo menos cinco temporadas em que a paciência foi o lema de Santos. Mas, finalmente, em 2018, ele teria sua grande oportunidade. Com a saída de Weverton para o Palmeiras, o goleiro foi cotado para assumir a meta athleticana dali para frente.
Apesar de todo histórico dentro do clube, a titularidade não estava garantida, já que Santos disputava a posição com Léo e o recém-chegado Felipe Alves, que foi um dos pedidos do então treinador Fernando Diniz.
Para se fixar na posição, Santos teve que atuar novamente pela equipe de aspirantes do Furacão no Campeonato Paranaense. O goleiro foi muito bem, conquistou a taça e começou a sua trajetória como camisa 1.
Naquela temporada, teve que aprimorar o trabalho com os pés, por conta do comando de Diniz. Depois, viria a conquistar a Copa Sul-Americana, em que foi determinante no duelo contra o Bahia, nas quartas de final, defendendo a primeira cobrança do Tricolor Baiano nas penalidades, e ajudou o Furacão a seguir na competição.
No ano seguinte, foram dois troféus inéditos na meta athleticana. O primeiro, a J.League YBC Levain Cup/Conmebol Sul-Americana Championship, no Japão. Depois, foi a vez da inesquecível Copa do Brasil, quando, na semifinal, defendeu a cobrança de Pepê, do Grêmio, e colocou o Furacão na grande decisão do torneio nacional.
Dias após a conquista, veio a primeira convocação para a Seleção Brasileira, para os amistosos contra Senegal e Nigéria. Até aqui, o goleiro já foi chamado três vezes para o time de Tite e, recentemente, foi o titular na conquista da medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Tóquio.
O treinador de goleiros da Seleção Brasileira, Cláudio Taffarel, afirmou que considera Santos um goleiro para o time principal brasileiro e acha que o camisa 1 tem potencial para atuar no futebol europeu.
“Hoje, ele é um goleiro de Seleção Brasileira principal. Teve essa grande oportunidade no time olímpico pela confiança que ele nos passa quando está lá com a gente. Acho que ele tem muito para crescer, sempre falo para ele não ficar acomodado, pode jogar em qualquer time da Europa”, destacou o herói da Copa de 94.
Frieza e pegador de pênaltis
Nos anos de titularidade do Athletico, um dos grandes destaques de Santos foi a frieza em todos os momentos, sempre apresentando um semblante que mistura calma e tranquilidade. Quem confirma isso é Marquinho Santos, que já notava isso na base.
“O Santos sempre foi um goleiro extremamente frio. Dentro das partidas, nos momentos difíceis, apresentava a frieza com uma qualidade a seu favor e a favor do time”, ressaltou o treinador.
Marcelo Cirino é outro que destaca a importância da frieza do goleiro a equipe, que dá tranquilidade para o time poder até arriscar mais no ataque, por conta dessa segurança que o arqueiro transmite na defesa.
“A gente não gosta de correr risco dentro do jogo, mas, quando a gente tem um grande goleiro lá atrás, sabemos que podemos correr um certo perigo porque estamos em boas mãos. E com o Santos sempre foi assim. A gente tinha alguns jogos que poderíamos sofrer, mas sabíamos que tínhamos um bom goleiro que a bola poderia chegar”, pontuou o atacante.
Outra característica, já destacada anteriormente, é qualidade de Santos em cobranças de pênalti. Thiago Mehl vê que o goleiro tem uma ótima leitura contra os cobradores, somada de qualidades técnicas e físicas.
“O Santos consegue fazer uma boa leitura do cobrador do pênalti, mesmo quando não havia muita análise de desempenho do adversário. Ele consegue usar algo que é dele, que é a potência e a envergadura, o braço dele é muito comprido. Então acho que ele consegue usar isso com muita qualidade”, explica o preparador.
Quem completa a explicação de Mehl é Taffarel, que ressalta o físico do goleiro como um dos motivos para o destaque nas penalidades.
“É um pegador de pênaltis, justamente por ele ter esse físico muito leve, uma boa estatura e ser muito ágil, muito rápido. Então, isso facilita muito nesses momentos dos pênaltis. Já ajudou o Brasil neste fundamento contra o México, na semifinal, e vai quando for necessário”, concluiu Taffarel, recordando o duelo válido pelas Olimpíadas.
Até aqui, são três títulos Paranaenses, uma Copa do Brasil, uma Copa Sul-Americana, uma Levain Cup, além da medalha olímpica com a Seleção. Resta agora aguardar quais são as novas páginas que o destino tem para um dos goleiros mais vencedores da história do Furacão.