(Fórmula 1)

JULIANNE CERASOLI
SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) – A Fórmula 1 tentou aproveitar todas as mudanças provocadas pelo novo coronavírus para colocar em votação novamente uma ideia que vem sendo discutida há meses na categoria: inverter posições no grid para tentar gerar corridas menos previsíveis.

A proposta desta vez era para testar o formato nos GPs que fossem realizados em um mesmo circuito, mas a ideia não foi para a frente, rejeitada pela Mercedes. Para se fazer mudanças em uma temporada que está em curso ou prestes a começar, é necessário ter unanimidade.

Isso não quer dizer que a ideia do grid invertido será esquecida. Ela tem boas chances de ser aprovada para o ano que vem, já que não haveria a necessidade de todas as equipes concordarem.

Isso porque uma das medidas para enfrentar o coronavírus é diminuir gastos das equipes praticamente congelando o desenvolvimento dos carros nesta e na próxima temporada, antes que entrem em vigor outras medidas mais radicais, como o teto orçamentário, um novo regulamento técnico e o escalonamento de desenvolvimento aerodinâmico. Estas três medidas têm grande potencial para mudar a relação de forças no grid e aumentar a competitividade. Mas o efeito delas só vai ser sentido em 2022.

É por isso que há certa preocupação em relação ao campeonato do ano que vem, e também por isso que a F-1 vê uma boa oportunidade de testar formatos diferentes, que são usados, com algumas variações, em outras categorias do automobilismo.

A primeira ideia dos dirigentes da F1 era simplesmente eliminar a sessão de classificação e inverter a classificação do campeonato para definir o grid. Ou seja, o líder da tabela largaria em último, o segundo em penúltimo, e assim sucessivamente. As equipes julgaram que o método era aleatório demais, e aí começaram a ser pensadas variações.

A proposta que foi votada e vetada pela Mercedes para as corridas realizadas em sequência em um mesmo circuito –algo que vai acontecer pela primeira vez em 70 anos de história da F-1 nesta temporada devido às dificuldades geradas pelo coronavírus– era uma destas variações: o grid seria definido em uma mini-corrida no sábado, e o grid desta mini-corrida seria a inversão da posição do campeonato. Ou seja, o líder largaria em último nesta mini-corrida, e sua posição de largada na prova principal seria definida pela sua posição de chegada nesta prova do sábado.

A avaliação que levou essas ideias a serem estudadas é de que o formato atual de classificação é bom e gera emoção, mas não garante que as corridas sejam movimentadas. A partir daí, a equipe comandada pelo diretor-técnico da F-1, Ross Brawn, conduziu uma série de experimentos em simuladores para buscar uma solução. E as equipes também usaram suas ferramentas e, em grande parte, deram um feedback positivo aos dirigentes.

“Entendo que os puristas podem se preocupar, mas não temos de temer experimentar, caso contrário não será possível progredir. Não queremos mudar por mudar; queremos melhorar nosso esporte, caso contrário, assim como os carros se desenvolvem, corremos o risco de ficar para trás”, defendeu Brawn quando a ideia surgiu, no ano passado.

Na época, a proposta era que o grid invertido fosse usado apenas em algumas pistas, que costumam gerar corridas menos movimentadas, como Mônaco, Paul Ricard na França e Sochi na Rússia.

Os pilotos não entram na mesa de negociações para decidir as regras, mas já deixaram claro que não gostam da ideia em sua maioria. Recordista em poles positions na história, Lewis Hamilton disse ano passado que a proposta “é só uma desculpa por não terem conseguido tomar decisões melhores [em relação ao regulamento]”.

Seu companheiro de Mercedes, Valtteri Bottas, disse recentemente que gosta “de disputas justas e que vença o melhor. Sinto-me confortável com o formato que temos agora”.

Seu chefe, Toto Wolff, justificou o veto da Mercedes dizendo acreditar que a base da F-1 “é a meritocracia” e destacou que as equipes poderiam usar o formato a seu favor. “Imagine que seu piloto não está muito bem na primeira corrida e a decisão seja de abandonar. Aí ele larga em primeiro na próxima.”

Daniel Ricciardo foi outro que se opôs à nova tentativa de mudar o formato: “Entendo que alguns fãs vão pensar ‘que legal ter os caras mais rápidos tentando escalar o pelotão’. Entendo esse ponto de vista. Mas posso ver muitos cenários em que não funcionaria e só bagunçaria as coisas”.

Mesmo pilotos que poderiam se beneficiar com o formato se dizem contra, como Romain Grosjean, da Haas: “Nosso ponto de vista, e isso vem de 100% dos pilotos, é que o problema não é o formato do final de semana, mas algo maior. Não queremos que as coisas sejam resolvidas com uma pequena colher enquanto uma panela velha faria o serviço. Os problemas são os pneus serem muito sensíveis, a diferença entre os carros, a distribuição de dinheiro, o peso dos carros, o que tem relação com a questão dos pneus, e a questão da aerodinâmica. Resolvendo estas questões, não tem porque ficar fazendo truques no formato”.

Todas estas questões apontadas por Grosjean estão previstas no pacote que acabou ficando para 2022 devido ao coronavírus, ou seja, tudo isso deve continuar sendo um problema em 2020 e 2021, e é por isso que Brawn já afirmou que vai continuar forçando para que o grid invertido saia do papel ano que vem.