Foto: Arquivo Pessoal

Uma foto do ex-jogador de basquete Marcel de Souza, 63, com EPIs (equipamentos de proteção individual), publicada na sexta-feira (1) pelo antigo companheiro de seleção brasileira Oscar Schimidt, viralizou. A publicação foi uma homenagem do velho parceiro de quadra no Dia do Trabalho ao hoje médico Marcel, que tem usado as redes sociais para tirar dúvidas sobre a Covid-19.

Marcel, que disputou quatro olimpíadas (de Moscou, em 1980 a Barcelona, em 1992) e marcou quase 5.300 pontos com a camisa 11 da seleção brasileira, conta ter visto a publicação de uma amiga obstetra se oferecendo para tirar dúvidas sobre o novo coronavírus em março, quando a doença começava a provocar as primeiras mortes no Brasil.

“Vi aquele anúncio, copiei e colei. Só que tenho mais penetração nas mídias do que ela”, afirma o ex-jogador, atualmente ultrassonografista, que usa seu pouco tempo livre, já que trabalha de segunda a sábado em cinco clínicas populares em Jundiaí (58 km de SP) e em cidades da região, para esclarecer questões sobre a doença nas redes sociais ou pelo WhatsApp.

O médico, que fez parte do lendário time de basquete campeão pan-americano de 1987 em Indianápolis (EUA), com vitória na final sobre os Estados Unidos, afirma que, no início, chegava a tirar mais de dez dúvidas por dia e acredita que o número vai voltar a subir após a homenagem de Oscar.

“Há casos de filho preocupado com o pai idoso com febre, mas que não tem coragem de levá-lo ao hospital com medo de contágio, por exemplo, que vem me procurar”, afirma. “De repente, as pessoas pararam de ir a hospitais. As pediatrias ficaram vazias e os pais passaram a ligar para o médico”, diz Marcel, casado com uma pediatra. “Hoje [sábado, 2] mesmo estava tirando a dúvida de uma pessoa sobre um medicamento.”

O médico, que jogou cinco anos na Itália, afirma que já recebeu dúvidas de italianos sobre a doença que já matou mais de 28 mil pessoas no país europeu.

Pela carga de trabalho, que o impede de fazer uma quarentena rígida, e pela idade, Marcel se considera no grupo de risco. Por isso, o uso de equipamento de proteção completo, com máscara, óculos, protetor facial, avental e luvas durante os exames de ultrassonografia, como na foto publicada por Oscar. “E também sou porta de entrada da doença. Posso atender um paciente assintomático numa clínica e transmitir na outra.”

Por causa da doença, Marcel diz ter aumentado seu nível de concentração e tem checado se todos estão com máscaras ou se têm sintomas de Covid-19, inclusive os acompanhantes dos pacientes que vão às clínicas onde trabalha.

Aliás, a explosão no número de mortes nos últimos dias no país, tem mudado o comportamento de quem chega às clínicas para realizar exames, segundo ele. “Nesta semana não vi nenhum paciente sem máscara, por exemplo”, afirma ele, que defende o isolamento social como forma de se conter o avanço da doença. “As pessoas estão com mais medo, hoje o coronavírus não mata apenas idosos. Crianças e quem tem 20 ou 30 anos também morrem.”

Marcel afirma não usar máscara quando sai de casa apenas ao dirigir. E que utiliza o equipamento de segurança, inclusive, quando vai ao supermercado, uma das poucas atividades que tem realizado durante a pandemia, além da medicina.

Das mudanças de comportamento, Marcel parou de receber amigos em seu apartamento, vê a neta de 2 anos apenas de longe e tem somente encontros rápidos com a mãe, de 88 anos.

DAS QUADRAS PARA HOSPITAIS E CLÍNICAS
Marcel estudou na Faculdade de Medicina de Jundiaí entre 1977 e 1982, período em que confessa ter relaxado com o basquete por causa dos estudos, o que não o impediu de ser eleito um dos cinco melhores jogadores do mundo ou de ter arremessado quase do meio da quadra nos segundos finais para garantir o terceiro lugar para o Brasil na disputa contra a Itália, no Mundial de 1978, nas Filipinas.

Entre feitos, vestiu a camisa da seleção brasileira 392 vezes. Marcou 5.297 pontos e, além das quatro olimpíadas, disputou cinco mundiais e cinco Jogos Pan-Americanos.

À carreira de médico passou a dedicar apenas quando deixou as quadras, em 1994. Já com especialização em radiologia, no início conciliou a carreira de médico com a de técnico de basquete. Hoje, é exclusivamente ultrassonografista. E tem buscado fazer um trabalho extra contra o novo coronavírus, ao conversar com pacientes que atende com suspeita da doença, nos pedidos para que as pessoas fiquem em casa nas entrevistas que dá, e no tira-dúvidas pelas redes sociais.