Iniciada a quarentena ocasionada pela pandemia do novo coronavírus, uma onda de transmissões ao vivo tomou conta da internet. Com a obrigatoriedade do distanciamento social, a promessa original da rede mundial de computadores, de conectar pessoas e negócios a qualquer hora e de qualquer lugar, ficou mais evidente. Movidos à solidariedade e também por um tino comercial apurado, gravadoras e artistas partiram para as chamadas “lives”.

Impedidos de se apresentarem, artistas das mais variadas categorias na música nacional se engajaram em espetáculos interativos transmitidos ao vivo, em que arrecadavam fundos para pessoas desalentadas na pandemia e também para os trabalhadores que movimentam a indústria do entretenimento no país. Conhecidos como “o pessoal da graxa”, esses profissionais ficaram sem renda com a parada dos shows.

Mas não foram apenas as equipes de apoio que receberam ajuda direta das lives que tomaram conta da internet brasileira. Muitos artistas viram seus números dispararem nas plataformas de streaming mais populares no Brasil. Spotify, Apple Music, Youtube Music, Deezer e Tidal são as principais atuando por aqui.

A plataforma de origem francesa Deezer divulgou números que ilustram bem esse boom causado pelas lives e pelo isolamento. Artistas como Gusttavo Lima, pioneiro das lives na pandemia, tiveram crescimento na audiência de seus trabalhos superior a 40%. O próprio cantor goiano atingiu esta marca, seguido por seu companheiro de gênero Michel Teló.

Outros artistas alcançaram números ainda mais expressivos. Foi o caso da cantora Sandy, que viu a procura por suas músicas nas plataformas de streaming crescer 46% após a transmissão da sua primeira live. A dupla Jorge e Mateus chegou a 55,7% de crescimento pelo mesmo motivo. Mas a grande campeã da onda de lives da pandemia foi Marília Mendonça. Além de ter registrado audiências históricas da sua apresentação à distância, com 3,2 milhões de acessos simultâneos no Youtube, a cantora e compositora teve um crescimento de 111% nas buscas de suas músicas.

Empresas e outros segmentos do entretenimento também decidiram investir

Não demorou para que grandes empresas e outros segmentos do entretenimento no país percebessem o poder de engajamento das lives naquela altura do isolamento social. O interesse por ações patrocinadas durante esses eventos disparou rapidamente, e algumas das maiores empresas atuando no Brasil decidiram investir.

A Ambev, maior empresa do mundo no ramo de bebidas, foi destaque, marcando presença com seus rótulos, sobretudo de cerveja, nas apresentações dos artistas mais consagrados da música popular brasileira. Em menores níveis, outras empresas também aderiram.

Além disso, o mundo corporativo e até mesmo o mundo das apostas se inspiraram no sucesso das lives. Montadoras do ramo automotivo decidiram realizar seus lançamentos programados para o ano em lives superproduzidas. No agronegócio, a Fendt foi a primeira marca presente no país a lançar um trator de alta tecnologia numa live, com muito sucesso.

No ramo do entretenimento as pessoas também passaram a jogar cassino ao vivo com maior frequência durante a pandemia. Diversas plataformas de apostas disponibilizaram uma modalidade em que é possível desafiar jogadores para duelos à distância em partidas de poker, blackjack e outros. No Brasil, onde os cassinos ainda são proibidos de funcionarem, a medida chamou ainda mais atenção de quem gosta de apostar.

Empresas especializadas despontam no mercado

Embora mais simples do que a produção de um show presencial, a realização de lives requer uma infraestrutura específica e equipe especializada, para que tudo saia dentro dos conformes. Diante deste cenário, empresas especializadas na realização desses eventos ganharam importância.

Um exemplo é a Red Streaming, que promete cuidar de todos os detalhes de uma live: desde a técnica até a locação do espaço de transmissão para todos os tipos de evento. Até mesmo casamentos já foram realizados à distância com a empresa. Embora o número de lives de grandes artistas já tenha diminuído consideravelmente nos últimos meses, as perspectivas de negócios para essas empresas seguem positivas.

A imunização da população deve levar alguns meses, mesmo com a acelerada corrida por uma vacina. Além disso, haverá um período extenso de adaptação. Enquanto isso, grandes aglomerações como as que acontecem em shows e em convenções empresariais seguirão restritas, o que deve manter em alta a mão de obra especializada em lives.