Rogério Micale foi o técnico no ouro dos Jogos Olímpicos de 2016. (Ricardo Stuckert/CBF)

O técnico Rogério Micale está marcado na história da seleção brasileira com a conquista da medalha de ouro nos Jogos Olímpicos em 2016. Em entrevista à Banda B, o treinador relembrou do momento histórico no Rio de Janeiro e falou também das notícias que surgiram na época sobre uma possível interferência de Tite na escalação.

Como recebeu a notícia que seria o técnico da seleção brasileira nos Jogos Olímpicos?

Foi um momento ímpar. Quando me deram a notícia da confirmação, deu aquele frio na barriga pela responsabilidade daquele momento. Era um momento difícil para o nosso futebol e tinha muitas críticas por tudo que tínhamos passado. Estaria mentido se não falasse que não fiquei receoso de mais um resultado ruim em casa. Eu não saberia quando teria uma oportunidade em casa. Isso era um receio que eu tinha, mas ficou o sentimento de uma felicidade imensa por participar e tentar conquistar o ouro que não tinha ainda.

Você pega uma seleção jovem, mas muito bem preparada. Como foi a escolha dos jogadores dos três jogadores acima dos 23 anos?

Houve algumas mudanças na seleção da lista inicial. A dificuldade para convocar a seleção olímpica é muito grande e as equipes, principalmente fora do Brasil, não queriam liberar os jogadores. Eu iria fazer o meio-campo com Fred, Thiago Maia e Rafinha. Comecei a Olimpíada com Thiago Maia, Renato Augusto e Felipe Anderson. Tentei convocar com Éderson, goleiro, Fabinho, lateral e hoje no meio do Liverpool. Quando eu perdi o Fernando Prass, uma referência em questão de maturidade e com boa presença de vestiário, tive a oportunidade de Weverton e voltei com a realidade técnica. Weverton é um goleiro que gosto de jogar, com bloco alto, cobertura dos zagueiros e pegador de pênaltis. Quando eu perdi o Fernando, o Renato Augusto preencheu essa lacuna de ser um treinador dentro de campo e um cara experiente no vestiário. Teve muitos jogadores que não conseguimos convocar. Muita gente falava que a Alemanha estava muito desfalcada, mas também estávamos.

Durante a Olimpíada, você sofreu com muita pressão pelo ouro olímpico e teve a notícia da interferência do técnico Tite. Como foi essa situação? Você guarda mágoa?

Hoje não guardo mais mágoa, mas pensei muito por um período porque foi levantada uma situação como essa. Depois eu entendi o que aconteceu. Não houve nenhuma interferência do Tite, eu estava comandado e se perdesse, o culpado seria eu. A interferência não veio de ninguém. Quando se perde, a gente já sabe onde vai estourar o negócio. Eu já sabia onde iria estourar se perdesse a Olimpíada. O Tite foi com a gente nos treinamentos iniciais, participou de toda a preparação inicial na seleção e não era para acontecer só no momento bom. As pessoas dividem de acordo com os interesses. Quando houve os dois empates, muita gente pegou muito pesado com a seleção e jogou a toalha. Muitas vezes, depois que ganha, como ficam essas pessoas depois com o seu público. Eles têm que direcionar essa mudança de conduta a algum fato que aconteceu. Muita gente no Brasil dá conselho para Deus. Aconteceu esse fato do Tite e uma mentira falada muitas vezes se torna verdade no nosso país. Todas as mudanças que fiz na equipe eram treinadas nos últimos 15 minutos dos treinos. Nada foi casual. Eu me preparei para jogar com quatro atacantes durante a preparação. Pergunte para qualquer jogador se teve alguma palestra do Tite. Não houve absolutamente nada.

Você sentiu essa vontade de desabafar após a conquista do ouro?

Eu estava muito blindado. Não lia jornal, me precavi em não ser influenciado pela opinião de ninguém. Via os meninos cabisbaixos após o segundo empate e a gente falava para não entrar em redes sociais. Só falava para tomar cuidado pela expectativa criada pelas pessoas e não podia se influenciar pelo que acontecia no lado de fora. Quando acabou, eu não sabia tudo aquilo que estava acontecendo em volta. Depois eu vi tudo que tinham falado, a reação dos meninos. Foi muito pesado. Quando terminou, eu não me senti propenso a desabafar porque estava muito concentrado no que tinha que fazer.