Artur Moraes joga atualmente na Chapecoense. (Divulgação/Chapecoense)

Com passagens por diversos clubes do Brasil e da Europa, o goleiro Artur Moraes vive uma experiência nova na carreira de participar da reenconstrução da Chapecoense após a tragédia de novembro do ano passado. O avião que levava a equipe para Medellín, na Colômbia, matou 71 pessoas e deixou apenas seis sobreviventes.

Em entrevista à Banda B, o experiente goleiro de 37 anos contou sobre como está sendo a passagem pela Chapecoense e também relembrou a experiência de todos os clubes, entre eles o Coritiba. Confira a entrevista completa:

Como surgiu o contato para jogar na Chapecoense? A cidade estava como depois da tragédia com o elenco no ano passado?

Depois de 10 anos, poder voltar ao meu país e ficar perto da minha família e amigos é especial. Foi uma decisão mais humana do que profissional. No momento que estava na Turquia e recebi o convite da Chapecoense, nem quis saber do meu contrato e peguei o avião dois dias depois. Só nós sabemos, em janeiro, como estava a cidade estava sofrendo pela perda daquele que se foram. Conseguimos trazer a alegria de futebol dentro da cidade e conseguimos o feito de conquistar o título do estadual, fizemos uma boa Libertadores e seguimos na luta para permanecer na Série A.

É uma cidade muito boa para se viver, não teria um lugar para melhor para se viver depois de 10 anos fora do Brasil do que Chapecó. A cidade não vive os problemas que o Brasil tem de violência, nós estamos felizes e foi legal no lado profissional e pessoal. As pessoas não tem noção do que foi chegar em Chapecó e ver as pessoas chorando. O amistoso do Palmeiras teve muitas pessoas chorando nas arquibancadas e também as familías no gramado.

Você pretende jogar até que idade?

Enquanto eu tiver mentalmente forte e me sentindo competitivo, eu vou jogar. Estou com 36 anos hoje, consigo treinar normalmente todos os dias e nós, goleiros, nos desgastamos menos do que nos anos anteriores. Com o passar do tempo, conhece mais o jogo e toma decisões melhores em campo.

A sua estreia como profissional foi no Etti Jundiaí, no começo da década de 2000, mas quando foi que caiu a ficha que você realizou o sonho de ser jogador profissional?

Quando faço a minha estreia no Paulista, durante a Copa João Havelange, em 2000, até em um jogo com o Malutrom, em Curitiba. Em 2001, entrei em campo com o estádio lotado e faz um bom jogo, cai a ficha que era um jogador profissional. Hoje posso dizer que suportei a pressão e fiz um jogo importante naquela ocasião. Foi a reta final da segunda divisão do Campeonato Paulista e colocamos a equipe na elite após 17 anos.

Depois do Paulista [Etti Jundíai], você foi para o Cruzeiro e participou daquela campanha histórica da tríplice coroa em 2003.

Isso. Tive o prazer de participar daquela campanha inédita da tríplice coroa e até conheci a minha esposa no período em que morei em Belo Horizonte. Fiquei quatro anos no Cruzeiro, ganhei maturidade e a oportunidade de jogar em um grande clube do Brasil. Era o meu sonho.

E foi justamente do Cruzeiro, surgiu a oportunidade também de jogar no Coritiba. Quais são as suas lembranças no Coxa?

Como estava no Cruzeiro há três anos, queria jogar em um grande clube e foi assim no Coritiba. Adorei, foi uma experiência fantástica e fiz grandes amigos em Curitiba. Jogar em um clube onde meu compadre, Alex, sempre estava no estádio, quando não estava na Turquia. Quando você veste a camisa coxa-branca, sente que está em um grande clube. Foi uma pena não ter continuado e aquilo que tentei demonstrar aqui, foi muito legal.

Seguindo na sua carreira, teve a oportunidade de jogar no futebol italiano.

Consegui três meses antes de jogar na Itália, o passaporte italiano, em processo que durou cinco anos. Tive a oportunidade de jogar no Siena e acabei não jogando lá. O treinador, que me contratou, foi demitido dois meses depois e fui emprestado para o Cesena. Disseram-me que era importante eu ir para me adaptar ao futebol italiano. Fiz uma boa Série B pelo Cesena e fui para a Roma dois anos depois.

A minha ida para a Roma foi um aprendizado porque quando fui contratado para ser o reserva do Doni. Quando entra no vestiário e entra jogadores campeões mundiais como Totti, De Rossi, Méxes, Pizarro, entre outros, que só via pela televisão, dá um orgulho muito grande. Comecei a viver um sonho na Roma e aprendi a mentalidade vencedora.

Como foi sua passagem pelo futebol português?

Quando acaba meu contrato com a Roma, tive a oportunidade de jogar a Champions League pelo Braga. Eles precisavam de um goleiro experiente, abracei a oportunidade e foi uma guinada na minha carreira. Ficamos em quarto lugar logo no primeiro ano e chegamos a final da Liga Europa. Chegar à final com um clube menor foi algo especial para todos.

Depois, fiquei quatro anos no Benfica. Lá foi onde eu atingi o ápice da minha carreira, fiz quase 150 jogos e também ganhei a tríplice coroa em Portugal. Fiz outras duas finais com a Liga Europa.

Após sua passagem pelo Benfica, você jogou um ano e meio no Osmanlispor, da Turquia, e neste período viveu uma tentativa de golpe militar. Como foi aquele dia?

Foi muito assustador. Um sábado à noite no verão, tinha saído com um amigo no centro de Ankara e começou uns aviões a darem rasante na cidade. Como não falava turco e não tinha muita comunicação, perguntei ao garçom o que estava acontecendo e também não sabia. Quando fui para outro restaurante, me falaram que era problema militar. Teve toque de recolher, liguei a TV e vi que estava tudo tomado. Minha casa até tremeu com o barulho e foi uma experiência assustadora. Depois de uma semana, 10 dias, tudo se normalizou.

Quem foi o responsável por te levar para o futebol?

Meu pai sempre procurou dar todo o apoio junto com a minha mãe. As coisas começaram a acontecer com 8, 9 anos em um torneio interno entre clubes na cidade de Campinas. Fui campeão desse torneio, ganhei o troféu de goleiro menos vazado e a partir de então os convites começaram a aparecer. Quando você acorda, a proporção já se tornou muito grande e não tem como voltar para trás.

Qual a sua inspiração no mundo do futebol?

Eu tenho como lembrança o Taffarel que foi um exemplo e ícone para nós. Foi o primeiro que abriu a porta para os goleiros na Europa. Eu lembro da Olimpíada, da Copa de 1990 e 1994 e quando menino gritava que era o Taffarel. O futebol deu a oportunidade de me tornar amigo pessoal dele.