(Geraldo Bubniak/AGB)
O calendário do futebol brasileiro em 2020 terá de ser disputado também diante de planilhas, exames, dados de GPS, logística de viagens e até da contagem das horas de descanso. Com a agenda de jogos bastante apertada por causa dos efeitos da pandemia do novo coronavírus, as equipes raramente terão dias de folga e por isso as comissões técnicas começaram a se aprimorar para controlar melhor o desgaste dos atletas. Muito em breve é possível que um time seja escalado de acordo com quem está mais inteiro e não apenas por critérios técnicos.

Os clubes terão até fevereiro de 2021 para conciliar as disputas do Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Copa Libertadores e Copa Sul-Americana. Serão praticamente dois jogos por semana. Para conseguir encaixar tantos compromissos em um calendário espremido pela paralisação, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) até fechou um acordo com a Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol (Fenapaf) para reduzir o tempo mínimo de descanso entre um jogo e outro do Brasileirão. Em vez de 66 horas de intervalo, agora está permitido voltar a campo em 48 horas.

As equipes estão cientes desse desafio e já começaram a se organizar para dar conta da maratona. O Palmeiras, por exemplo, adquiriu neste mês um novo equipamento para acompanhar o batimento cardíaco dos jogadores. Uma cinta fixada na altura do peito monitora informações sobre exercício, estresse e nível de recuperação. “Nosso enfoque é a performance e a prevenção de lesões. A pandemia e os quatro meses de paralisação do futebol devem impactar em um aumento no número de lesões e precisamos intervir para reduzir esses casos”, disse o coordenador científico do clube, Daniel Gonçalves.

O treinador do time campeão paulista também admite dificuldade para trabalhar pelos próximos meses. Vanderlei Luxemburgo explicou que entre uma partida e outra será preciso mais descansar do que treinar. “Não vai ter muito jeito. Será como um ‘treino de pijama’. Vamos ter mais que aliviar a carga de treinos do que pensar em colocar o time no campo”, disse. Para minimizar o cansaço, os times estão autorizados a fazer cinco alterações por partida.

No Internacional, uma das preocupações é com a logística. O time gaúcho aprimorou o planejamento de viagens, em especial quando precisa embarcar para compromissos no Nordeste. A dificuldade em encontrar voos diretos em horários adequados obriga a comissão técnica a pensar em soluções. O clube tem preferido dormir uma noite a mais fora de casa a ter de encarar uma viagem durante a madrugada ou de manhã cedo.

“É um investimento que precisa ser feito. Vale a pena ficar uma noite a mais no hotel para descansar. Se você entra em uma sequência de perda de noite de sono, má alimentação e muitas horas de espera em conexões, a somatória disso lá na frente terá um impacto ainda maior”, explicou ao Estadão o coordenador de preparação física Cristiano Nunes. Mesmo quando estão em casa, os jogadores são orientados a respeitar as horas de sono e de descanso.

Os times têm se empenhado em uma série de testes para controlar o desgaste dos jogadores. Antes de cada treino existe um ritual de pesagem, questionário sobre dores ou cansaço, coletas de sangue para verificar a presença de enzimas indicativas de pequenas lesões e até exames de termografia. Nele, uma câmera especial capta as alterações de temperatura nos músculos e busca avaliar quais as áreas mais afetadas.

“Não há dúvidas que o cansaço aumenta a incidência de lesão. O maior problema é o acúmulo de jogos a longo prazo. Em partidas com intervalo de somente 48 horas, o jogador não consegue se recuperar a tempo da partida anterior e vai entrar em campo com um pequeno déficit”, explicou o médico e professor de Fisiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Paulo Zogaib. “As primeiras horas após um jogo são fundamentais para dar descanso e repor a alimentação”, comentou.

Portanto, o calendário de 2020 só será cumprido com sucesso por quem souber fazer um bom trabalho na parte física e tiver sabedoria na hora de escalar. “A sequência de jogos e o tempo que ficaram sem treinar pesa. O pouco tempo de descanso de um jogo para o outro pesa. Quem tem um elenco que consegue mesclar mais os jogadores e escalar os mais descansados vai sofrer menos”, disse o técnico Alberto Valentim.