Sem jogar desde março, os clubes da Série A do Campeonato Brasileiro traçam alternativas para superar a perda de receitas. Pauta recorrente em 2019, os Projetos de Lei nº 5.082/16, já aprovado na Câmara dos Deputados e nº 5516/19, em discussão no Senado, que abordam a transformação da gestão associativa para o molde de clube-empresa se esfriaram em decorrência da propagação do novo coronavírus. Contudo, a decisão dos clubes não mudou e a maioria deles continua enxergando os projetos da mesma forma que os viam antes da pandemia.

O Estadão entrou em contato com as 20 equipes da Série A do Campeonato Brasileiro e todas que responderam afirmaram ser favoráveis aos projetos. Contudo, a adesão aos moldes empresariais está longe de ser um consenso. Apenas Botafogo e Atlético-GO mostraram-se adeptos à migração de suas gestões, enquanto há clubes que ainda não discutiram essa pauta e outros que já discutiram e não se enxergam aptos a essa transformação.

A maioria dos clubes ainda não debateu a transição, embora sejam favoráveis aos projetos. Dentre os grandes paulistas, a reportagem apurou que o Santos é o único que já avaliou a transformação. São Paulo, Palmeiras e Corinthians aguardam a tramitação das propostas para discutirem a transformação em seus conselhos.

O São Paulo entende que essa “mudança pode trazer inúmeros benefícios”. Já o Palmeiras diz que a “”discussão deve se concentrar na forma de tributação dos clubes”. O presidente Andrés Sanchez, do Corinthians, por sua vez, é favorável à aprovação, contanto que não ela não seja obrigatória.

No Sul, o Coritiba afirmou que os projetos foram “amplamente discutidos pela diretoria e conselhos” e enxerga a transformação de forma bastante positiva. Já o Athletico-PR apenas disse à reportagem que é favorável, sem dar mais detalhes. Grêmio e Internacional se opõem à gestão empresarial devido aos seus históricos democráticos e não se enxergam neste modelo, embora sejam favoráveis à adequação para clube-empresa.

No Nordeste, Fortaleza e Sport ainda não realizaram a discussão em seus conselhos. O clube de Recife afirmou que a adesão à gestão empresarial depende “de uma série de uma série de questionamentos”, mas que não deixaria de avaliar propostas. Já o Fortaleza é mais reticente à ideia. O presidente Marcelo Paz afirmou ver com bons olhos a aprovação do projeto, contanto que sua adesão “não seja obrigatória”. O Ceará, por sua vez, já discutiu as propostas e afirma que a transformação poderia gerar “passivos desnecessários”.

Em 2019, parte dos clubes que disputavam a Série A do Campeonato Brasileiro uniram esforços para a elaboração de um manifesto, assinado em conjunto, que externava a posição dos participantes sobre a regulamentação da gestão empresarial.

Dentre os clubes que disputam o atual Brasileirão, assinaram o documento: Ceará, Vasco da Gama, Atlético-MG, Flamengo, Bahia, Fluminense, Fortaleza, Goiás, Grêmio, Santos, São Paulo, Palmeiras, Corinthians e Internacional.

Vasco, Atlético-MG e Fluminense mantém o posicionamento externado no manifesto: “Não se opõem ao debate do chamado ‘clube-empresa’, demonstrando uma vez mais ao Poder Legislativo e à sociedade brasileira seu compromisso com o desenvolvimento do futebol, desde que os Clubes que se mantiverem sob a forma de associação não percam nenhum direito ou benefício, presente ou futuro”.

Marcos Egídio, diretor administrativo do Atlético-GO, afirmou que o anúncio de transição para o modelo empresarial de gestão, realizado em maio, em meio à pandemia, nada tem a ver com os reveses econômicos acarretados pelo vírus. Segundo Egídio, isso “já era um planejamento do clube”, que acredita ser “lgo inevitável e necessário” ao futebol brasileiro.

Comprado pela empresa austríaca de energéticos Red Bull, em 2019, o Red Bull Bragantino atingiu sua meta e chegou à Série A do Campeonato Brasileiro em 2020. O clube avalia que o equilíbrio financeiro amenizou os impactos econômicos da pandemia, já que não depende de forma decisiva das rendas que foram paralisadas, como o dinheiro oriundo da bilheteria e de planos sócio torcedor, que a equipe ainda não possui. Procurado pela reportagem, o Bahia não quis se posicionar. Flamengo e Goiás não responderam.

Na análise do professor Paulo Feldmann, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) “quem opta pelo modelo associativo, não está interessado na profissionalização do clube e acredita que vai perder o controle dele, principalmente, das questões financeiras que o envolvem”.

“O clube, ao virar uma empresa, passa a ter uma gestão séria e previsível. Aos olhos de bancos e investidores isso é muito bom e, assim, é possível angariar mais recursos. Por ser uma empresa, há maior racionalidade e profissionalismo. Hoje, os dirigentes em clubes associativos são escolhidos pelo grau de amizade ou confiança que os conselheiros têm da pessoa. No clube empresa, os dirigentes e todos empregados são escolhidos pela competência profissional se não corresponderem, serão demitidos. No clube associativo é muito difícil demitir alguém, porque se pode esbarrar em questões políticas internas”, completa Feldmann.