Emily Lima. (Reprodução/Twitter)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Emily Lima, 39, já nem assiste mais à televisão. A técnica da seleção feminina de futebol do Equador, no cargo desde dezembro do ano passado, tem procurado evitar o noticiário, que basicamente repete todos os dias o drama vivido pelos equatorianos na luta contra a pandemia do coronavírus.

Nesta segunda-feira (20), as autoridades de saúde do país informaram que a Covid-19 superou a marca de 10.100 casos no território nacional. Do total de registros, mais de 6.900 estão concentrados na província de Guayas (68%), cuja capital é Guayaquil, cidade mais populosa do Equador, com cerca de 2,7 milhões de habitantes.

As imagens de corpos deixados nas calçadas e casas à espera do serviço funerário correram o mundo e preocuparam familiares e pessoas próximas da treinadora, que recebeu uma enxurrada de mensagens perguntando sobre sua situação.

Emily tratou de tranquilizar todos, já que o quadro onde vive, na cidade de Cumbayá (distrito rural de Quito), é bem mais otimista.

Apesar de ser a segunda região mais afetada, a província de Pichincha, onde fica a capital do país, soma pouco mais de 800 casos.

“O problema maior está sendo em Guayaquil. Eu acredito que as pessoas não levaram muito a sério as medidas que foram adotadas. Aí foi onde se agravou muito a situação do coronavírus. Nas outras cidades está tranquilo, as pessoas estão se cuidando bem mais. Nós, eu e a comissão, estamos em Quito e aqui estamos bem”, diz a técnica em entrevista.

O país registra oficialmente 507 mortes de pessoas que testaram positivo para a doença. Outros 826 mortos foram contabilizados com suspeita de contágio.

Com a escalada de casos, especialmente em Guayaquil e arredores, o governo equatoriano aumentou as restrições à população. O uso de máscaras nas ruas tornou-se obrigatório e é necessária uma autorização para poder sair de casa.
Emily conta que tem feito suas compras essenciais com a ajuda de aplicativos de entrega. Quando precisa ir à rua, fica atenta ao toque de recolher, que vai das 14h às 5h.

“Eu saí uma vez para ir ao mercado, porque os aplicativos estavam todos lotados. Na semana em que eu saí, foi decretado que era proibido sair na rua sem a máscara. E eu saí sem, não sabia. Quando eu cheguei ao mercado, as pessoas começaram a me olhar estranho, a perguntar por que eu estava sem máscara. Peguei minhas coisas, paguei a conta e fui embora rápido. Senão poderia pagar multa, ir presa”, relata.

Há cinco meses no comando da equipe feminina do Equador, a ex-treinadora da seleção brasileira ainda está tentando conhecer suas atletas, um processo que ficou mais complicado em razão da pandemia.

No mês passado, Emily e sua comissão técnica estavam na Argentina com o time sub-20 quando a organização do Sul-Americano da categoria suspendeu o torneio, que estava em andamento. Em abril, disputariam o sub-17 continental, adiado para o fim de agosto.

De seu apartamento, cedido pela federação equatoriana, a técnica mantém contato com seus auxiliares por Whatsapp e Skype. O assistente técnico Filipe Souza, o prepador físico Alexsander Dickinson e a analista de desempenho Camila Aveiro, que viviam no centro de treinamento da entidade até a eclosão da pandemia, foram transferidos para um hotel.

A equipe faz reuniões remotas todas as sextas-feiras para analisar os jogos da seleção sob o comando de Emily e também para um balanço da situação física das jogadoras, um monitoramento realizado junto aos clubes que as atletas defendem.

“O trabalho, de alguma forma, não pode parar. Precisamos manter o ‘feeling’ de comissão. Já tínhamos feito toda a programação de treinos da sub-17, semanalmente. Agora estamos revisando os jogos do Sul-Americano sub-20, que tinha muitas atletas com idade sub-17. É uma mudança de cronograma muito grande”, afirma Camila Aveiro, analista de desempenho.

A federação tem mantido o pagamento dos salários aos brasileiros, mas Emily acredita que em algum momento a entidade poderá oferecer algum tipo de acordo para reduzir os valores. “E nós entendemos essa situação”, diz.

No contrato fechado no fim do ano passado, também estava prevista para o meio do ano a transferência de toda a comissão técnica de Quito, onde fica o centro de treinamento, para Guayaquil, sede da federação. A situação difícil na cidade da província de Guayas, porém, deverá adiar a mudança.

Sem previsão de retorno às atividades ou de relaxamento das medidas de isolamento social, Emily trabalha com a possibilidade de estar em campo com a seleção equatoriana nas datas Fifa de junho, o que será sua primeira experiência de fato com a equipe principal. Enquanto isso, ela mantém o trabalho remoto com os auxiliares e tenta se distrair em casa com leituras e séries.

“Nossa senhora, sinto falta demais [do campo]. Mas você começa a ler, a estudar e o tempo passa. Mais para o fim da tarde ligo meu Netflix e assim está sendo a vida por aqui. Uma rotina bem diferente. Não é fácil, mas a gente acorda todos os dias pensando que pode melhorar”, completa.