(Divulgação/AFA)

Alejandro Sabella, no momento mais dolorido da sua carreira, mostrou sua classe. Minutos após a Argentina ter perdido para a Alemanha a final da Copa do Mundo de 2014 no Maracanã, um humorista brasileiro lhe pediu para “decirme que se siente” (me diga como se sente), na entrevista do treinador após a decisão.

Era uma piada com a música “Brasil, decime que se siente”, que foi o hit da seleção naquele mundial.

O técnico poderia ter explodido de raiva. Poderia ter se levantado e ido embora. Havia a possibilidade de responder com outra piada, mas em alusão aos 7 a 1 sofrido pelo Brasil na semifinal. Em vez disso, ele apenas olhou para o autor da pergunta e respondeu de maneira educada, como se nada tivesse acontecido.

Sabella morreu nesta terça (8), aos 66 anos. Ele havia sido internado na madrugada do último dia 26, no Instituto Cardiovascular de Buenos Aires, depois de sentir mal estar horas após ter sido informado sobre a morte de Diego Maradona. Não está claro se há relação entre os sintomas e a notícia que recebeu.

Com histórico de problemas cardíacos e recuperado de câncer na garganta, a internação foi considerada pelos médicos uma medida de precaução. Mas com o passar dos dias, o quadro se agravou.

A última partida da carreira de Sabella como técnico aconteceu em 2014, na final do Mundial. Ele deixou a seleção argentina em seguida. Esteve próximo de dirigir o São Paulo no ano seguinte, mas a negociação não foi finalizada. Pouco depois, o treinador começou a ter problemas de saúde.

A sua carreira como treinador foi curta. Isso porque passou 18 anos como auxiliar de Daniel Passarella.

Um dos clubes em que trabalhou neste cargo foi o Corinhtians em 2005. De temperamento difícil, o zagueiro campeão mundial de 1978 era considerado inacessível pelos jogadores e funcionários do clube de Parque São Jorge. A pessoa mais maleável da comissão e com quem era possível ter diálogo era Sabella.

Como assistente, passou também pelo Parma (ITA), Monterrey (MEX), River Plate (ARG) e pelas seleções da Argentina e Uruguai.

Apenas em 2009 aceitou o primeiro voo solo como treinador. Foi contratado pelo Estudiantes e em seu primeiro ano, conquistou o título da Libertadores contra o Cruzeiro, no Mineirão. O time esteve a três minutos de derrotar o Barcelona (ESP) na final do Mundial, mas levou o empate e perdeu na prorrogação. Foi campeão argentino em 2010.

Este trabalho o credenciou a assumir a seleção após fracasso na Copa América de 2011. Seu estilo tranquilo e de ouvir os atletas fez com que Lionel Messi considerasse que com Sabella teve seu melhor período com a camisa nacional. A sua saída em 2014 marcou também o início de um período de caos no time que, nos seis anos seguintes teve quatro técnicos.

Ser campeão mundial foi a conquista que lhe escapou em toda sua vida no futebol. Era cotado para ser reserva de Maradona na Copa de 1986, no México, que seria vencida pela Argentina. Na última convocação, Carlos Bilardo preferiu chamar Carlos Tápia.

Meia de estilo clássico, foi um dos primeiros atletas do país a atuar no futebol inglês. Destacou-se especialmente no Sheffield United entre 1978 e 1979. Na cidade, há uma banda de rock chamada Sabella para homenageá-lo. Foi negociado com o Leeds United em 1980.

Entre 1986 e 1987 esteve no Brasil e atuou pelo Grêmio. Foi comandado por Valdir Espinosa (morto em fevereiro de deste ano), que elogiou a qualidade técnica do argentino e seu esforço para aprender a falar português. Seu melhor período como atleta, tal qual como treinador, também aconteceu no Estudiantes.

Após deixar a seleção, Sabella ficou por cerca de três anos sem aparecer em público porque não queria ser visto com aspecto debilitado. Aos poucos, a partir de 2019, começou a aparecer em eventos na cidade de La Plata, principalmente os organizados pela equipe de La Plata, onde conquistou os maiores títulos de sua carreira.