Entrevista com Pelé, campeão nas Copas do Mundo de 1958, 1962 e 1970, no museu que leva seu nome, em Santos. (Foto: Bruno Santos/Folhapress)

Edinho fez uma ligação de vídeo para o pai durante encontro com Rogério Caboclo, presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), no último dia 6. O dirigente da entidade perguntou a Pelé como ele estava.
“Estou bem. Só não vai dar para jogar nesta semana”, brincou o ex-atacante, ao citar o jogo de estreia da seleção brasileira nas Eliminatórias para a Copa de 2022, disputada três dias depois.
Prestes a completar 80 anos na próxima sexta (23), Pelé afirma a familiares e amigos que seu futuro será conciliar o futebol com mais tempo dedicado à família. Também continuará a ser o que sempre foi desde que pendurou as chuteiras, em 1977: um dos mais valorizados e procurados garotos-propaganda do mundo.
O Rei do Futebol não cogita a aposentadoria nessa área e já disse mais de uma vez que parar não é uma opção.
“Ele quer passar mais tempo com os filhos, com os netos, com a família. Acho que precisa disso”, afirma Edinho, 50, fruto do primeiro casamento do jogador, com Rosemeire Cholby. Da relação entre eles, também nasceram Kelly Cristina, 53, e Jennifer, 42.
Pelé é pai dos gêmeos Joshua e Celeste, 24, nascidos do relacionamento com a cantora gospel Assíria Lemos. Flávia Christina, 52, e Sandra Regina, morta em 2006, foram reconhecidas por ele como filhas mais tarde, esta última após uma batalha judicial e comprovação da paternidade.
Para colocar em prática seus planos para o futuro, ele usa a tecnologia. É pelo celular que conversa com os filhos quase todos os dias, algo pouco comum nos tempos em que estava mais dentro de aviões do que em casa. Será cada vez mais virtualmente que ele administrará seus compromissos publicitários.
A celebração dos 80 anos começa como exemplo disso. Ao longo da semana, haverá uma série de postagens, depoimentos de famosos e jogadores e estratégias de marketing não só para o cidadão Edson Arantes do Nascimento, mas para a marca Pelé.
Segundo o americano Joe Fraga, seu empresário, foram mais de 200 pedidos de entrevistas no mundo todo.
“O principal foco agora é a mídia social. Nós tínhamos shows programados [para celebrar a data], mas já no início do ano percebemos que não poderíamos fazer. Ninguém sabia que a Covid-19 afetaria tanto a vida das pessoas. Mas tomamos a decisão de que o Pelé precisa de uma celebração, precisa ser honrado”, diz Fraga, que planeja eventos digitais sobre a vida e o legado do jogador eleito pela revista France Football em 1981 como o Atleta do Século.
O americano entrou em contato com representantes de Maradona, que fará 60 anos no fim do mês, e pediu um depoimento do argentino. Fraga disse não poder confirmar nem desmentir a possibilidade de um rival histórico de Pelé gravar um vídeo em homenagem ao brasileiro.
Compromissos digitais poderiam ser estranhos para um senhor quase octogenário. Em 2018, em entrevista à Folha, Pelé disse ainda estar se acostumando ao “bichinho sem fio”, como definiu o telefone celular. “Esquece. Ele já sabe mexer em tudo”, constata o filho Edinho.
Isso vai facilitar as ações atuais e futuras planejadas com seus patrocinadores, por exemplo Hublot e EA Sports. A parceria com a desenvolvedora de jogos permitiu a ele estar presente no game Fifa, ao lado das estrelas do futebol atual. É o que aproxima o mito dos mais jovens, que não o viram jogar, mas podem curtir o seu talento no game.
Para mostrar que Pelé, aposentado do futebol há 43 anos, continua popular, Fraga cita que nas primeiras 36 horas de conteúdos programados para celebrar o aniversariante, suas redes sociais (Facebook e Instagram) registraram 8,9 milhões de impressões (número de vezes que as postagens apareceram para os usuários dessas redes) e 5,6 milhões de curtidas.
A questão tecnológica se torna cada vez mais relevante com Pelé seletivo nas viagens. Os convites para deslocamentos muitas vezes são para locais distantes, como China e Qatar. Ele mesmo reconhece isso a amigos ouvidos pela reportagem, embora Fraga assegure que, se tivesse um jato particular, o ex-jogador estaria nos quatro cantos do mundo todas as semanas.
Uma das maiores cobranças de familiares, amigos e pessoas que trabalham próximas a Pelé é para que ele se aplique mais nas sessões de fisioterapia. O Rei do Futebol ainda tem sequelas de três cirurgias nos últimos anos, uma para colocação de prótese no quadril e outras duas para corrigi-la. Também tem problemas no joelho direito.
Em aparente contradição, ao mesmo tempo em que se mostra rebelde quanto à fisioterapia, tem planos de continuar ativo em viagens, compromissos profissionais e jogos de futebol importantes.
A Copa de 2018, na Rússia, foi a primeira que Pelé não acompanhou ao vivo como jogador, comentarista ou garoto-propaganda desde 1954, quando tinha 13 anos.
Mas ele já faz planos para estar no Qatar em 2022. Há negociações em andamento para que viaje ao país a convite do comitê organizador. O tricampeão mundial com a seleção disse que será sua última, e vislumbra viajar como espectador, um turista.
Quem o conhece, reage com desconfiança. Acreditam que, enquanto puder, Pelé estará sempre no Mundial, não importa a idade. E é impossível que seja um cidadão comum. A ida ao torneio vai depender também dos desdobramentos da pandemia do coronavírus.
“Ele pode querer ir para a Copa do Mundo como um fã normal, mas isso nunca vai acontecer. Pelé sempre vai estar no centro das atenções, as pessoas vão sempre querer falar com ele. Sem a pandemia, o plano é ir ao Qatar e estar lá, ser parte do evento. Ele teria que aceitar que não conseguiria ser uma pessoa normal assistindo à Copa do Mundo”, diz Fraga.
Seus amigos acreditam que o futuro de Pelé será manter-se ativo, viajando o quanto for possível e em contato com pessoas.
“Para ele, é difícil ficar muito tempo dentro de casa. Ele nunca foi assim, embora tenha sido obrigado a se acostumar”, afirma Edinho.
Não se trata apenas de questão comercial, mas de ser mais feliz e se sentir idolatrado, algo com o que se habituou desde que era adolescente. O humor de Pelé tem altos e baixos, e ele não superou ainda a morte do irmão Zoca, em março, aos 77 anos, que era sua companhia para ver futebol na TV nos últimos tempos.
Edinho chegou a dizer em fevereiro que o pai estava deprimido. Foi desmentido por Pelé dias depois, em nota oficial. O tema se tornou delicado.
É como se o cidadão Edson precisasse voltar a ser Pelé, seguindo a diferenciação do sujeito comum do astro do futebol que ele próprio cultivou.
“Depois do aniversário, faremos muita coisa com a Fundação Pelé. Vamos relançar algumas iniciativas. Temos uma ligação muito boa com Mbappé. Neymar provavelmente quebrará o recorde de gols pela seleção. É uma boa oportunidade para eles estarem conectados”, finaliza Fraga, que virou o maior guardião da imagem do mito Pelé.
Quando ele não está presente, a função é de Pepito Fornos, amigo e assessor de longa data do ex-jogador.
O futuro de Pelé só não lhe permitiu tornar realidade a promessa que fez em 2010, quando chegou aos 70 anos. Na ocasião, ele garantiu que, quando atingisse os 80, faria um gol no Maracanã.
“Aos 90, ele vai fazer”, finaliza Pepito.