A tentativa de invasão de torcedores ao vestiário do Coritiba neste último domingo, após a derrota para o São Paulo, expõe uma realidade preocupante. Os torcedores perderam a noção do limite de sua atuação, e ao invés de serem reprimidos, são em certas situações, até apoiados pelos dirigentes dos clubes, como no caso ocorrido alguns meses atrás, na derrota para o Flamengo, no Couto Pereira, quando algum dirigente abriu o portão de acesso ao gramado e permitiu que um bando de baderneiros entrasse no campo e fosse até a porta do vestiário dos atletas. Será necessário que aconteça uma tragédia para que alguém tome uma providência séria?

Torcedor é para torcer. Na arquibancada, que é o seu lugar. Tem o direito de vaiar, xingar, extravasar, mas lá da arquibancada. Agressão física, depredação de patrimônio, intimidação, é coisa de bandido (e merece cadeia), não de torcedor. As pessoas que invadiram ontem o estacionamento onde ficam os carros dos atletas do Coritiba e tentaram derrubar a porta de acesso ao vestiário deveriam sair de lá de camburão, direto pro xadrez.

Quem tem a obrigação de cobrar os atletas pela má produção e pelos resultados ruins é a diretoria, não o torcedor. Cobrar como qualquer patrão, que insatisfeito com o baixo rendimento do seu funcionário pode até demiti-lo, jamais agredi-lo. Infelizmente, os clubes se tornam cada vez mais submissos às torcidas (organizadas?), e trocam possíveis apoios políticos por uma permissividade absurda, que causa todo o tipo de constrangimento aos profissionais que trabalham no clube.

Invasões de Centros de Treinamentos, por torcedores que exigem poder “falar” com os jogadores e membros de comissões técnica, e, pasmem, apoiadas ou até arquitetadas por dirigentes, são cada vez mais comuns. Na maioria dos casos, gera agressões, atritos ou intimidações inaceitáveis, por profissionais sérios. É uma inversão de valores explosiva, pois ao passar aos torcedores a obrigação de cobrar os profissionais por algum problema, o dirigente expõe seus funcionários a um possível conflito que pode acabar em agressão física. Ou até em morte.

Após o caso da invasão pós-Flamengo, o presidente Bacelar não se manifestou e muito menos foi divulgado quem foi o responsável pela liberação do acesso dos torcedores ao gramado e aos vestiários. Na confusão deste domingo, se faz necessária uma posição firme e esclarecedora do clube e de sua diretoria, que anda ausente e omissa nos últimos tempos. Tem que se dar um basta nisso. Já passou da hora.

Em tempo: aos torcedores que pensam que agredindo ou intimidando os atletas estão contribuindo para uma melhoria do time em campo, saibam que é totalmente o inverso. Quanto mais acuado e inseguro estiver, o profissional tenderá a render menos.