Jogadores com as crianças do projeto. (Reprodução)

ALEX SABINO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Não fosse a pandemia da Covid-19, Willian estaria em férias e de malas prontas para viajar a Angola. O vírus atrapalhou seus planos de repetir o que fez no final de 2019, quando foi conhecer, ao lado da mulher, Loisy, o projeto da ONG Baluarte, que atende a 300 crianças carentes na capital Luanda.
O atacante do Palmeiras e seu colega de elenco Raphael Veiga são os principais financiadores do projeto.
“Estar lá é impactante. Você vê pessoas que vivem em uma realidade totalmente miserável. Muitas crianças que veem seus pais se separando, moram em uma casa de lata e chão batido de terra, sem conseguir estudar, sem sistema de saúde e sem perspectivas para o futuro”, afirma Willian.
Ele começou a se envolver no projeto em 2017, quando ainda estava no Cruzeiro. Conheceu em um culto evangélico os irmãos Marcos e Jonnes Freire, criadores da ONG. Depois de conversar com Loisy, decidiu mergulhar na ideia. Pouco depois, chamou Raphael Veiga, que também abraçou a causa.
“Até o início da Baluarte, a maioria das crianças não estudava porque não tinha acesso a educação gratuita. Em Angola, as famílias precisam pagar um valor mínimo para que o filho ou a filha possam frequentar a escola. Graças ao Willian e ao Raphael, começamos a mudar isso”, afirma o cantor gospel Marcos Freire.
O pensamento inicial deles era que o projeto fosse desenvolvido na República Democrática do Congo, onde Marcos e Jonnes viveram na adolescência. Mas depois de passarem alguns meses em Angola, a trabalho, mudaram o foco.
As crianças do bairro de Capolo recebem alimentação, educação, aulas de arte, religião e praticam esportes. No começo, eram cem. O número triplicou e a meta é aumentar ainda mais em 2021.
“Há o desafio das famílias desestruturadas, muitos casos de violência sexual, de desesperança. Aos poucos, percebemos a mudança na mentalidade das crianças. E sempre foi esse o objetivo”, completa Freire.
Por dois anos, Willian colaborou financeiramente com o projeto (ele não fala em valores), mas recebeu apenas as informações de como o trabalho foi desenvolvido. Ele reconhece que viajar a Angola mudou a sua vida e a de Loisy.
“Nós saímos de lá muito mais impactados do que eles ficaram com a nossa presença. A realidade deles é tão difícil, tão sofrida, mas estão sempre sorrindo. Eu e minha esposa colocamos na cabeça que viajaríamos pelo menos uma vez por ano para lá. A Loisy falou que iria mais vezes”, afirma o atacante, que embarcou também com Raphael Veiga e a família do meia.
A mãe de Veiga, professora aposentada, chegou dias antes para conversar com os funcionários da ONG sobre modelos de ensino que poderiam ser empregados.
A pandemia não apenas impediu a viagem neste ano, mas acentuou os problemas, os casos de violência doméstica e as deficiências alimentares em Luanda. Tornou também o trabalho da Baluarte ainda mais importante. A ONG ofereceu 80 mil refeições desde o início da pandemia.
Por ter fechado as fronteiras, Angola não foi um dos países que mais sofreram com a Covid. São cerca de 17 mil casos e 399 mortes até agora, segundo dados compilados pela universidade Johns Hopkins. Mas a retração econômica em um cenário que já era de dificuldade para encontrar empregos impactou a comunidade de Capolo.
“As crianças comiam todos os dias na Baluarte, e tivemos também de oferecer cestas básicas para as famílias. Todas tiveram pessoas que perderam empregos. Temos uma equipe de 25 pessoas, entre missionários e funcionários, trabalhando em Angola. Aos poucos, as atividades estão voltando”, diz Freire.
No último 19 de novembro, dia do seu aniversário, Willian recebeu um vídeo de agradecimento feito pelas crianças atendidas pelo projeto.
“Não tem como não se emocionar com aquilo. Chorei bastante. A gente vê o carinho, a pureza deles, esse reconhecimento… Foram poucos dias que passei lá, mas foram intensos”, constata o jogador.
Por causa da Covid-19, o período que deveria ser de férias e da viagem anual a Luanda será de futebol para ele e Veiga. O Campeonato Brasileiro termina apenas em fevereiro. O Palmeiras ainda está na disputa também da Copa do Brasil e da Libertadores.
Se tudo der certo, os jogadores palmeirenses pretendem embarcar novamente para Luanda no fim de 2021. Até lá, eles esperam que a Baluarte esteja maior.
“Eu sempre imagino o que está na cabeça delas, porque crescer naquela realidade não é fácil. A gente quer mudar isso. Se os pais delas não tiveram condições de ter uma vida melhor, elas têm. Amanhã podem ser alguém na vida”, finaliza Willian.