Alexandre Cossenza conversou com Alex durante o Future de Curitiba. (Nelson Toledo/Fotojump)

O mundo do tênis teve uma temporada de 2018 com diversas novidades após a mudança drástica no formato da Copa Davis, o principal torneio entre os países, e criação de uma Copa do Mundo a partir de 2020. Para falar desse assunto, o jornalista Alexandre Cossenza, do Blog Saque e Voleio, participou da última edição do Mundo dos Esportes.

Confira abaixo o bate-papo com um dos poucos jornalistas no Brasil que trabalham exclusivamente com o tênis.

Como é a rotina de um jornalista especializado em tênis?

É uma rotina diferente. Está acostumado a falar muito de futebol no país e a rotina é o cara vai no clube, vê treino e coletiva. Eu trabalho de casa, vejo jogos e leio muita coisa por dia. No final do dia, tento organizar as ideias, ver qual assunto é legal e o que tenho para acrescentar. Se tiver algo diferente, eu junto minhas ideias e monto o meu texto. É basicamente o que eu faço no meu dia a dia.

Quando eu vou para um torneio é um pouco diferente. É mais ver as partidas, procurar jogadores e histórias. Por exemplo, o torneio aqui [em Curitiba] é masculino, mas a Teliana [Pereira] apareceu. Fiz também uma entrevista com o Alex, que é de Curitiba. Combinei com ele via Twitter e é um papo interessante sobre ser pai de tenista. Ele dá uma ideia bacana do que é, sobre os desafios e com quem ele conversou sobre o assunto.

Jornalista Alexandre Cossenza já cobriu diversos torneios no Brasil. (Reprodução)

Nas últimas semanas, você está acompanhando os torneios no Brasil. Essa é a importância dos torneios aqui no Brasil? Você encontra histórias que não vemos no dia a dia do tênis.

Até é uma coisa que o Alex comentou comigo. O acesso que temos de tênis é na TV a cabo e de torneios grandes. Todo mundo acostuma ver Federer, Nadal e Djokovic e acha que todo mundo joga naquele nível. Na verdade, não é. O meu papel nesses torneios é mostrar como é a vida dos torneios, as diferenças de pontos e ranking. Fiz uma entrevista com o Romboli, em Campinas, que está jogando apenas o circuito de duplas. Como é jogar Challenger só de duplas? Também o que cara busca em um torneio future? Qual a motivação de um cara como o Feijão para jogar um torneio menor? Ou um cara de 20 anos, como o Felipe Meligeni, que está subindo no ranking. Ano que vem tem o ranking de transição e todo mundo quer fazer ponto em Challenger, nem tanto em Future. É esse tipo de história que tênis não é essa mordomia toda dos ATPs e Grand Slams.

Como você vê o cenário do tênis brasileiro hoje?

Já teve mais torneios, mas isso tem muito a ver com a crise econômica no país. Não é todo mundo que tem dinheiro para colocar em um torneio, mesmo que com a Lei de Incentivo. A Lei é bem intencionada, mas acaba sendo um complicador. Para organizar um torneio no Brasil, precisa ter um projeto com um ano de antecedência, aprovar e depois buscar um patrocínio. Dá mais trabalho do que antes. Isso também diminui o número de torneios no país porque o patrocinador não quer fazer o torneio sem a Lei de Incentivo.

Fora isso, o Brasil tem um problema crônico de base, principalmente no feminino. Tem pouca atleta, pouco torneio e pouco apoio. Até conversei com a Teliana sobre isso e ninguém sabe se tem uma solução. Não estou culpando a CBT de hoje, mas é algo da história do tênis brasileiro. O que precisa fazer para ter uma menina jogando. Não sei mesmo. Tem pouca menina praticando esporte no Brasil, e muitas vão para basquete ou vôlei. Aí tem uma série de fatores porque os clubes bancam os gastos e o tênis é individual. É individual também para o bolso do pai. Complica também não ter um top 100.

Em relação aos jogadores, o Brasil não tem nenhum top 100…

No feminino poderia ter a Teliana que vem de lesão e tirou um ano praticamente quase sabático para descansar a cabeça e a Bia [Haddad Maia] que tem um problema na hérnia e despencou no ranking. Não vejo nenhum grande drama. As duas foram exceções. No masculino tem um problema de renovação. O Thomaz tem 30 anos, o Rogerinho, 35. O Thiago [Monteiro] é o mais jovem deles, está brigando para voltar ao top 100 e vive um momento bom. O Feijão caiu e não tem mais ninguém. Depois tem o Orlandinho e o Felipe [Meligeni] que não estão nem entre os 300 [melhores do mundo] e precisa ter um pouco mais de paciência.

Eu tenho muita esperança que o Thiago Wild vai ser um grande tenista. Precisa ter paciência e torcer para alguém que apareça. Dessa turma aí, acho que não tem ninguém que vá fazer milagre e ser um tenista espetacular de top 30 para cima.

Queria saber a sua opinião sobre a mudança na Copa Davis?

Sou contra porque muda o espírito da coisa. Pode ser uma competição legal, mas não é a Copa Davis. Tem uma competição de três dias, melhor de cinco sets, com jogos fora e casa e durante um ano. Quando se transforma esse ano todo em uma competição de uma semana, com três jogos, em melhor de três sets também. Você enxuga muita coisa e tira até parte da torcida. Vai ser Madrid e é claro que, por exemplo, vai ter argentino. Porém, não será a mesma que coisa se fosse na Argentina. Perde muita expectativa quando se tem um duelo de três dias e vai mudando de um dia para o outro. Por ser melhor de cinco sets tem aquele elemento de colocar um cara para jogar cinco sets, depois joga dupla e ele de repente não vai estar bom no terceiro dia. Quando é tudo melhor de três você pode colocar o cara nos dois dias. Tira também o efeito de equipe também.

O que esperar do confronto do Brasil contra a Bélgica na Copa Davis? Dá para ganhar?

Dá até se o Goffin vier. O Goffin costuma jogar a Copa Davis e até levou a Bélgica para duas finais. Tem que ganhar o jogo do tenista número 2 e a dupla. Ainda não sei quem é o tenista número 2 da Bélgica e também em que momento estará os nossos tenistas. O Rogerinho não vem jogando, o Thomaz está em uma fase muito ruim. Olhando com alguns meses de antecipação tem o Thiago Monteiro como número 1 e quem será o número 2? Eu gosto do Rogerinho, mas ele já disse que não é uma prioridade no calendário dele. O Thomaz é um ótimo jogador de Copa Davis, mas no momento dele talvez seja uma escolha não jogar para não prejudicar a equipe. Quem sobra? Sobra o Guilherme Clezar ou talvez promover o Thiago Wild para jogar a Copa Davis como titular. Pode ser muito cedo para ele ou pode ser muito bom. É um mistério da Copa Davis.

Qual sua opinião sobre a nova Copa do Mundo de Tênis? Pode tirar o prestígio da Copa Davis?

Eu acho que vai acontecer isso. Essa Copa do Mundo da ATP foi uma iniciativa dos tenistas para dar uma resposta para a ITF, organizadora da Copa Davis, que não ouviu alguns dos pedidos dos tenistas da ATP. Eles organizaram uma torneio próprio. O Federer já não vai jogar a Copa Davis, o Djokovic indicou que não, o Zverev não. E aí? Eu acredito que esse povo todo vai jogar a Copa do Mundo até pelo prêmio bom em dinheiro e isso pesa. Esse período de novembro de 2019 até janeiro de 2020 vai ser decisivo para o futuro da Copa Davis e para essa relação entre ATP e ITF.