Cláudio Tencati. (Gustavo Oliveira/Londrina/Divulgação)

O técnico Cláudio Tencati é um dos mais vitoriosos do futebol paranaense na década de 2010. Em sete anos no Londrina, ele conquistou o título da segunda divisão do Campeonato Paranaense em 2011, da elite do estadual em 2014 e da Primeira Liga em 2017. Além disso, o treinador quase levou o Tubarão para a Série A do Campeonato Brasileiro.

Em entrevista à Banda B, Tencati relembrou a passagem de sucesso pelo Londrina e ainda diversas histórias do trabalho como técnico.

Como que surgiu a oportunidade de iniciar a carreira como treinador?

Minha carreira teve início no Cianorte. Eu fui atleta até as categorias de base, mas não consegui ser atleta profissional. Tive em mente de seguir primeiramente como preparador físico, fiz o curso de educação física e iniciei a carreira no Cianorte ainda com 21 anos. Na sequência, eu adquiri o gosto para a parte técnica, me identifiquei. Em 2002, eu falei para o presidente do Cianorte que seria até técnico do mirim, mas queria ser treinador. Peguei as categorias de base do Cianorte em 2002 e fiquei até 2006. Tive a oportunidade de trabalhar com Caio Júnior, Gilson Kleina e Agenor Piccinin. A primeira experiência com futebol profissional foi em 2007 no Cianorte, em 2009 no Paranavaí. Teve na sequência no Iraty, no Londrina e seguiu a trajetória.

Durante o seu trabalho no Cianorte, teve aquele confronto histórico para o clube contra o Corinthians na Copa do Brasil de 2005. Como que foi aquele momento?

Eu era técnico do sub-20 do Cianorte e um dos auxiliares. O Caio Júnior era o técnico e o Serginho Prestes era o auxiliar direto do Caio. Foi bacana porque eles me integraram direto com a comissão. Eu viajava para observar os adversários e trazia os relatórios. A gente trazia isso para o planejamento de trabalho. Foi um trabalho gostoso e aprendi muito com o Serginho e com o Caio. Um ano antes do Caio era o Agenor Piccinin e participei da campanha do acesso no Campeonato Paranaense.

Como que foi aquele confronto com o Corinthians?

Um momento único. A gente era um time que há dois anos tinha subido da Série B para a Série A do Campeonato Paranaense. O Cianorte ressurgiu para o cenário nacional e estadual e foi impressionante. O Corinthians tinha um time mágico em virtude da qualidade dos seus jogadores e do seu treinador internacional. O 3 a 0 em Maringá foi espetacular. Conversava com o Serginho e o momento era de curtir. A gente sabia que era difícil por ser o Corinthians, mas por isso que o futebol é mágico. O pequeno pode surpreender o grande.

Ficou um gosto amargo após a eliminação até pela vitória maiúscula no jogo da ida?

Entrou uma questão nossa de planejamento para enfrentar o Corinthians em São Paulo. Pesou o fator da experiência de enfrentar um clube grande dentro da sua casa. Cometemos alguns erros de planejamento que custou muito caro para nós e até talvez a classificação inédita que seria uma coisa que ia marcar pelos profissionais que faziam parte daquele elenco. Foi um aprendizado e ficou um gosto que dava. Naquele período foi a segunda maior manifestação de torcedores do Corinthians e uma pressão violenta. O Cianorte mandava os jogos com 2.000, 2.500 torcedores e só tinha pouco mais nos jogos contra Athletico, Coritiba e Paraná.

Alguns anos depois você iniciou um trabalho histórico no Londrina, com título do Campeonato Paranaense, da Primeira Liga e o quase acesso para a Série A do Brasileirão. Como foi aquele período?

Foi um trabalho fantástico. Eu até dou um passo atrás, quando sai do Paranavaí em 2009, fiquei sete meses desempregado e não tinha o nome consolidado no mercado. Neste momento surgiu o convite para a base do Iraty, que fazia frente aos três times da capital. O Gilberto Pereira me convidou, eu até relutei porque não queria voltar para a base, mas tive que voltar pela falta de oportunidade. Em 2010, quando cheguei de Iraty, nós fomos campeões sub-20 e sub-19. Surgiu uma parceria muito rápida de sucesso com o Sérgio Malucelli. Quando o Gilberto saiu do Iraty, o Sérgio me fez o convite e até relutei porque tinha uma proposta do Coritiba e do Athletico para o sub-20. Era uma ideia minha ir para a base de um time grande para fazer a ‘escadinha’. Só que o Sérgio me deu a segurança e falou se desse errado no profissional, voltaria para o sub-20 e não perderia o emprego. Em um primeiro momento fui muito questionado. Isso foi tendo que ser conquistado ao longo dos tempos.

Qual foi o grande momento para você nos sete anos de Londrina?

Claro que o estadual de 2014 teve um sabor diferente porque o Londrina não conquistava o título estadual há 22 anos e a gente teve esse êxito de novo em uma final do interior. Foi um título especial em função disso. Já a Primeira Liga foi um título para consolidar o nome no mercado nacional não só para mim, mas para os jogadores e para o Londrina. Mas não posso descartar o título da segunda divisão de 2011. Se não conquistasse o título e não subisse o Londrina, não teria acontecido todo o processo de sete anos.

Durante os sete anos no Londrina, você teve altos e baixos, mas o Sérgio Malucelli não cogitou tira-lo do cargo. O que se deve toda essa confiança?

A gente tinha uma parceria muito interessante. Além do processo de resultado, que o Sérgio cobrava e a imprensa também, a gente sabia que tinha que ter o processo de resultado de construção de atletas e fazer atletas para o mercado. Tinha essa parceria, e o Sérgio entendia. Todo ano a gente lançava jogador da base para o profissional. Ele conseguia vender o jogador e fazer fluxo de caixa. Por mais que o resultado não acontecesse, ele bancava. Essa parceria foi bem construída por isso e foi rompida porque houve uma necessidade. Era uma hora que ia para a primeira divisão ou começaria a ser questionado. O desgaste que tinha com o Sérgio já estava maior porque o clube vislumbrava esse lugar na primeira divisão. A parceria que tinha foi diminuindo e começou um desgaste. Eu também precisava me lançar no mercado.

Você retornou para o Londrina no ano passado, mas foi bem diferente da primeira passagem. Foram apenas nove jogos e oito derrotas. O que aconteceu?

Foi uma série de fatores. Quando peguei o clube, já estava em um declínio. Isso afetou muito o elenco e percebi que era um grupo jovem naquele momento. O trabalho estava sendo bem feito pelo Alemão, mas o time saiu do G4, foi para o 9º lugar e o grupo não conseguiu absorver essa cobrança por ter saído e ter que retornar. A Série B é muito difícil por esse contexto. O time teve uma queda brusca, a gente tentou fazer modificações, mas teve muitas lesões, algo que atrapalhou. O Dagoberto, que era a grande esperança do Londrina, não conseguiu jogar mais e anunciou a aposentadoria no período do nosso comando.

Eu peguei o Londrina na virada de turno. Se tem que contratar naquele momento, tem que contratar jogadores pontuais e para jogar. O Londrina não teve essa condição e ainda vendeu alguns jogadores. Não consegui fazer os resultados necessários e peguei um Londrina completamente diferente que peguei no passado. O elo que falei anteriormente estava desconstruído e o ambiente estava hostil. Falei até que o Londrina não brigava para subir, mas para cair.

Como você vê a atual situação do Londrina?

É um desafio grande para a diretoria do Londrina. Eu convivi durante sete anos com o Sérgio Malucelli e para gerir um clube do porte do Londrina, precisa ser um empresário com uma boa visão e busque parcerias. Clube de futebol sem dinheiro não se faz. Isso é quase que impossível. Uma coisa que a gente não pode negar do Sérgio é isso. Não pagava muito, mas pagava em dia. O Londrina vai ter que construir parceiros com a condição do Sérgio, se ele sair. Na minha opinião, seria bom para o Londrina que ele permanecesse. O Londrina poderia voltar em um ano ou dois para a Série B. Se ele acabar saindo, o Londrina vai ter um desafio grande para buscar o parceiro. Só com a diretoria e o empresariado de Londrina não sei se vai conseguir tocar a equipe.

Depois da saída do Londrina, você teve algum convite para trabalhar?

A gente teve vários no momento, mas não achei viável. Eu tinha as licenças da CBF para encerrar, uma licença internacional para trabalhar fora do país, um projeto que já tinha. O Marcelo Lipatin, que é responsável por me colocar no mercado, já tinha aberto as portas em alguns lugares fora do país. A gente estava com uma expectativa para o início de 2020. Houve muitos contatos com clubes da Série C e Série D, mas a gente acabou não esperando para isso. Aí veio a pandemia e pegou todo mundo despreparado. Quem estava para se empregar, como eu, e até quem estava empregado. O planejamento era para ir para fora do país ou para clubes da Série B.