Erich Beting. (Reprodução/Site Máquina do Esporte)

A pandemia da Covid-19, doença causada pelo coronavírus, atingiu em cheio o futebol brasileiro. Com os jogos suspensos desde o dia 15 de março, os clubes procuram alternativas para não perder sócios, e o marketing é a solução para manter o torcedor próximo.

Em entrevista à Banda B, o jornalista e especialista em jornalismo de negócios do esporte, Erich Beting, explicou que os clubes podem explorar diversas situações para manter a ligação com os torcedores durante a suspensão do futebol e ainda falou como os esportes americanos estão lidando de uma maneira diferente com a mesma situação.

Confira a entrevista na íntegra

Como os clubes do futebol brasileiro podem utilizar o marketing para manter o sócio ativo e trazer a torcida para perto em um momento sem jogos?

Ou a gente usa o marketing ou esquece. A gente tem que entender que ou faz o uso da conexão com o torcedor, que ele possa participar e tenha interesse em fazer parte, ou não vai ter motivo para ele participar. O clube tinha a facilidade de todo o meio de semana e fim de semana ter um motivo para o contato do torcedor, mas agora isso não é possível. Você tem que fazer o uso do marketing para ativar esse torcedor e fazer com que ele veja sentido em continuar fazendo parte daquilo. Isso era um problema de sócio-torcedor que tinha como um principal atrativo explicitamente a troca de dinheiro por ingresso. Eu ficava sócio e tinha benefício para comprar ingresso, ter acesso [aos jogos]. Se não tem ingresso para vender porque não tem jogo, precisa achar um motivo para o torcedor ficar próximo e aí o marketing precisa ‘entrar em campo’.

Quais as ideias os clubes podem oferecer para os sócios neste momento?

A gente já tem visto um monte de iniciativas desde que campeonato de videogame para sócio torcedor, com prêmios melhores conforme a performance, participação de encontros virtuais com atletas, gravação de mensagem para atleta. A Roma, da Itália, distribuiu kits para os torcedores idosos. É hora de pegar toda a base de dados, entender quem é o torcedor e o que o clube pode levar para ele. Aqui no Brasil, a gente vê o Bahia fazer uma ou outra iniciativa e o Ceará também. Tem que ter cada vez mais interesse em fazer. O torcedor precisa ser lembrado a todo instante que o clube continua lá. Precisa lançar ideias e pensar no que gostaria de fazer agora. Ah, é um treino específico? Então, vamos pegar o preparador físico para ele passar uma planilha de treinos para os sócios. São coisas que neste momento não precisa gerar mais receita para os clubes, mas mais engajamento. Eu preciso fazer com que o associado queira estar próximo. Tem uma diferença neste sentido porque a relação fica passional e é baseada no amor que o cara tem pelo time.

Em diversos países, inclusive no Brasil, a tendência é que os jogos retornem com portões fechados e o torcedor, consequentemente, não terá acesso aos estádios. Como o clube pode trazer o torcedor para próximo dos jogadores em dias de jogos e até para não perde-lo?

Vai ter que fazer se os portões fechados ou abertos com número reduzido de pessoas, e aí o sócio-torcedor pode ser uma vantagem. Tem que pensar em alternativas. Por exemplo, vou produzir um pré-jogo como ninguém nunca fez e essa propriedade que pode fazer. Onde vai ver? Só o sócio-torcedor vai ver e pode até ter o jogador conversando com o atleta. A própria experiência do atleta em jogar a partida vai ser diferente. Ele sempre vai para o jogo esperando torcida, pressão e ambiente pulsante, e isso não vai existir. A concentração do atleta pode ser a conversa com o sócio-torcedor. Vai passar muito por dar entradas que não existiriam e não precisam ter a presença física. Terminou o jogo e o torcedor pode fazer cinco perguntas para o jogador após o jogo. São coisas que não substituem óbvio a entrada no jogo, mas são coisas que já poderiam estar fazendo e é uma solução mais efetiva para funcionar com o torcedor.

Já tem como dimensionar o tamanho do prejuízo dos clubes com essa paralisação?

Eu acho muito difícil. A gente pode fazer algo baseado no que foi a temporada no ano anterior e ter uma estimativa de que o clube, por exemplo, ganhava R$ 2 milhões. Ele vai ficar três meses parado e vai perder R$ 6 milhões? Tem o efeito cascata, quantos sócios já deixaram os clubes e quanto tempo vai levar para retomar? Às vezes não é só o clube que precisa fazer um esforço para retomar isso, mas a pessoa ter o dinheiro para investir. A gente está vivendo uma crise que atinge toda a sociedade de todas as formas. Tem uma situação que é muito difícil e vai ter muitas pessoas querendo até fazer parte, mas não vão poder. O Palmeiras lançou um modelo de negócio e até achei interessante. Ele está dando o que o torcedor está pagando agora como crédito para trocar por ingresso quando voltar a ter jogo com público. O cara colocou dois meses de mensalidade e vai ter isso como crédito para quando abrir uma venda de ingresso, ele comprar ingressos extras. É uma forma do clube reduzir a perda de arrecadação e o torcedor ter um benefício. É difícil codificar porque não sabe quando volta e em que condições.

A gente vai parar de ter jogo com portão aberto. Então tá. Qual o custo de fazer um jogo na Arena da Baixada? Vamos dizer que é R$ 200 mil. Então, vamos mudar esse jogo para o CT do Caju, que custa mil reais. Isso que vai ter uma mudança porque a gente vai parar e pensar no menor custo para fazer um jogo. Tem uma perda significativa, mas não dá para quantificar um valor.

Como você vê as ações de Athletico e Coritiba, os dois representantes da cidade na Série A, durante essa paralisação?

Está se tentando fazer alguma coisa. Foi uma situação muito inusitada, a gente teve uma pausa total e precisou de uma primeira medida tomada pelos clubes foi a preocupação em relação ao direito a férias dos atletas. A gente teve um primeiro movimento que esse mês de abril, quando todo mundo está de férias, é para o futebol estar em atividade em dezembro. É completamente maluco isso. A primeira medida foi jurídica e isso paralisou como um todo qualquer ação efetiva dos clubes. Agora que está tendo uma medida mais forte e o que eles foram buscar em um primeiro momento foi a solidariedade. Eles abriram as portas para a Secretária de Saúde, foram atrás de inciativas que pudessem ser usadas em benefício da população. Naturalmente, a primeira reação é a solidariedade e agora vejo que começam a ter ações para ativação de marca, em ajuste e ajuda aos patrocinadores e aos parceiros de transmissão de eventos. A partir de maio nós vamos ver mais iniciativas.

Em relação aos clubes internacionais e até clubes de outros esportes, por exemplo, na NBA, a estratégia utilizada por eles durante a paralisação é a mesma? Se não for, o que eles estão fazendo de diferente?

A cabeça do americano é completamente diferente. Ficou muito claro que o futebol pensa primeiro no jogo. A nossa preocupação era garantir que o jogo fosse acontecer mais para frente e foi atrás da medida jurídica. Esse era o caminho lógico da nossa realidade. No mercado americano, o primeiro pensamento é em atender o torcedor. As ligas, rapidamente, foram atrás de soluções para manter o torcedor engajado com as competições. Eles fizeram isso com produção de conteúdo, transformação de evento para o digital e foram através de videogame, e não fizeram com o torcedor perdesse a conexão com o time rapidamente. Eles sabem que não podem perder o torcedor, então, a continuação, o problema jurídico vai ser visto mais para frente. É uma outra maneira de pensar e digo isso do esporte americano porque o conceito.

Se a gente for ver, a Premier League ainda não se acertou. Na Inglaterra, eles não começaram a falar rapidamente com o torcedor e foram atrás de outras soluções. A La Liga também. O ideal seria pensar como americano. A Nascar, por exemplo, já fez uma etapa de um campeonato de videogame ao vivo quatro dias depois da NBA anunciar o cancelamento. Ela já tinha esse projeto, mas transformou em um produto maior. É uma resposta muito rápida para o torcedor. Se for fazer alguma coisa, olha o que a NBA está fazendo. A NBA juntou todos os clubes e atletas e falou o que pode fazer para conseguir receita para ajudar os funcionários freelancers dentro de um jogo, as entidades de saúde e os hospitais públicos. Lá existe uma noção grande que o primeiro a ser atendido é o torcedor e logo depois, as pontas mais frágeis deste sistema que são os trabalhos temporários de jogo, os ambulantes que trabalham ao redor dos estádios. É uma coisa muito pensada e focada no torcedor. Surgem algumas iniciativas porque a gente vai pensando com a cabeça de torcedor. Essa é a falta de pensamento que temos no mercado torcedor. A gente pensa primeiro no jogo, mas não tem como ter jogo. Tem que pensar em quem consome o jogo, então, tem que pensar no torcedor.