Rhaue já conquistou 40 medalhas em dois anos e lidera o ranking mundial da IBJJF (Guilherme Coimbra/Banda B)

O esporte é uma ferramenta importante para transformar vidas. E o curitibano Rhaue Scuzziato é uma prova viva desse poder de dar a volta por cima através da prática esportiva. Depois de se envolver com drogas e ver a morte de perto, há dois anos ele conheceu o Jiu-Jitsu, levou a sua história de superação para os tatames e hoje é o primeiro colocado no ranking mundial.

“Conheci as artes marciais com 14 anos, através do Muay Thai. Era uma época que me envolvia com coisas erradas e minha primeira luta foi cancelada depois que sofri um acidente de moto. Depois disso não voltei a praticar e me evolvi ainda mais com as drogas. Tive overdose aos 18 anos e fiquei um mês internado numa clínica de reabilitação. Depois disso, encontrei meu refúgio na igreja e no Jiu-Jitsu. Faz quase dois anos e meio que comecei e já tenho quase 40 títulos. Conquistei o Sul-Americano, Sul-brasileiro, o paranaense duas vezes e fiquei em terceiro lugar no Campeonato Europeu, em janeiro, um dos mais difíceis do mundo”, contou o lutador em entrevista à Banda B.

Para chegar à disputa do Europeu em Portugal, Rhaue teve que demonstrar mais uma vez o seu poder de superação. Sem patrocínios, o lutador teve que se virar como motorista de aplicativo e até mesmo vender balas no sinaleiro para juntar o dinheiro necessário para viabilizar a sua ida ao Velho Continente e disputar a sua primeira competição internacional.

“É difícil participar de tudo, pois infelizmente não temos apoio. Os atletas têm dificuldades. Tive que vender bala de goma no sinaleiro e açaí na faculdade. Fiz rifas na academia e camisetas para vender também. Toda essa correria valeu a pena. Não é fácil, mas todo esforço é recompensado. Venho me destacando, consegui a liderança do ranking mundial da IBJJF [International Brazilian Jiu-Jitsu Federation] e também da Confederação Brasileira (CBJJ). Agora estou mudando de nível para a faixa azul”, disse Rhaue.

Rhaue contou com ajuda de colega para vender balas e arrecadar dinheiro para disputar o Campeonato Europeu (Arquivo Pessoal)

A trajetória vencedora dentro do esporte chegou também com o total apoio da família, que não só abraçou a causa em incentivá-lo, mas também começou a praticar junto o Jiu-Jitsu. “Eles me apoiaram no início. Mesmo sem a overdose ter sido recente, o esporte teve uma grande importância na minha recuperação. Meu pai sempre me apoiou e acompanha em todas as lutas que ele consegue. Com o passar do tempo e as conquistas, aos poucos meus irmãos e minha mãe passaram a me acompanhar. Já trouxe meu pai, minha irmã e meu irmão para treinar. Só minha mãe que ainda não, mas ainda vou conseguir”, explica.

Prestes a mudar de graduação no Jiu-Jitsu, Rhaue Scuzziato espera levar consigo o sucesso dos primeiros anos, quando conquistou uma média de quase dois títulos por mês, desempenho que o levou a liderar o ranking mundial. “Às vezes ainda não acredito quando falam que sou o melhor do mundo. Participei de todos os campeonatos que pude, tive uma bagagem muito grande de campeonatos e consegui controlar minhas emoções. São dois anos com títulos consideráveis. Sem dúvidas, estarei passando da faixa branca para a azul com muita confiança de que vou manter para me manter na liderança do ranking mundial também em 2020”, projeta.

Usando a própria história para transformar vidas

Lutador auxilia em projeto social (Arquivo Pessoal)

Depois de vencer as drogas e se firmar como um atleta promissor, Rhaue agora leva a sua trajetória para inspirar mais pessoas a se apoiar no esporte para transformar suas vidas. Ele divide a sua rotina pessoal e de atleta com a de auxiliar em um projeto social num colégio localizado no Bairro Alto. “Sendo instrutor, tenho percebido a relevância do professor na vida dos alunos. Muitos jovens se envolvem com drogas desde cedo, muitas vezes por falta de estrutura familiar. Como já tive uma grande experiência nesse mundo, consigo estar impedindo que isso aconteça, trazendo as crianças do projeto para o esporte e fazendo a diferença na vida delas. Acredito que tenho feito a diferença”, conclui.