Medalhista de prata no Rio-2016, a curitibana Ágatha Bednarczuk Rippel garantiu a vaga nos Jogos Olímpicos de 2020 e sonha com novo pódio. Em entrevista ao podcast do Mundo dos Esportes, a atleta de vôlei de praia falou da parceria de sucesso com a jovem Duda Lisboa, o que podemos esperar da dupla em Tóquio-2020 e ainda relembrou a medalha na Olimpíada passada.

Ágatha busca a segunda medalha em Jogos Olímpicos. (Roberto Castro/ME)

Leia a entrevista na íntegra

Você e a Duda tiveram recentemente a confirmação da vaga olímpica para Tóquio-2020. Como recebeu essa notícia?

A conquista veio antecipada, o anúncio seria oficialmente só em fevereiro do ano que vem. Como as etapas do começo do ano não vão acontecer, vão acontecer etapas que têm uma pontuação inferior e não mudariam na contagem no ranking, a classificação saiu pouco antecipada. Nosso time já tinha uma expectativa em relação a isso, já sabia que estava classificada quando saiu o calendário e esperou a confederação anunciar. Legal que eles anunciaram mesmo e não esperaram até fevereiro. Fica muito melhor finalizar no ano sabendo que conquistou a vaga e pode se preparar melhor. Temos um período de descanso agora no final do ano e já podemos começar o ano focadas em Tóquio. A gente recebeu com muito carinho esse anúncio.

Por que teve essa mudança no calendário?

Não é que houve uma mudança. A contagem do ranking olímpico e a soma de todas as etapas iriam acontecer até fevereiro de 2020. Só que chegou agora em Outubro e o nosso time e o segundo time, da Ana Patrícia e Rebecca, já tinham uma pontuação elevada. Quando saiu o calendário de 2020, que apareceram as etapas de janeiro e fevereiro, se viu que a pontuação das etapas não iria influenciar mais. Por isso que o anúncio foi antecipado. Mesmo que os outros times tivessem uma pontuação alta, não alcançariam os dois times classificados.

A parceria entre você e a Duda começou em janeiro de 2017. Conversamos pouco antes da dupla começar e você estava na expectativa para o início da dupla. Três anos depois, a gente já vê os resultados, com classificação para os Jogos Olímpicos e diversas conquistas. Como está a dupla no momento?

A gente começou sem ter noção do que ia viver juntas. A Duda já tinha um início no Circuito Mundial, não era uma atleta crua, apesar da pouca idade. Ela estava com 18 anos, mas já tinha jogado com a Elise no Circuito Mundial. Quando a gente começou a nossa parceria, começou sem saber como seria, mas consciente do objetivo que o time tinha. A gente começou falando em conquistar a vaga para Tóquio e o time foi formado pensando na Olimpíada. Nos três anos, o time evoluiu bastante, mas teve altos e baixos juntas, como todo mundo. Aprendemos bastante nos períodos de baixa e isso faz parte. Esses períodos são importantes.

Se for ver de uma maneira geral, o time foi muito estável. Os resultados foram muito bons desde o primeiro ano. Tivemos um primeiro ano com bastante pódios nos Circuitos Brasileiro e Mundial, no segundo ano a gente conquistou o Circuito Mundial, a Duda foi considerada a melhor jogadora e eu fui considerada inspiração. Ganhamos prêmios muito legais da Federação Internacional. Neste ano o objetivo era conquistar a vaga para Tóquio e a gente conseguiu. Foram anos de muito aprendizado, crescimento pessoal e profissional.

Ágatha e Duda. (Divulgação/FIVB)

O foco agora em 2020 é a disputa dos Jogos Olímpicos. Como vai ser a preparação até Tóquio?

A preparação começa a partir de janeiro. Temos muitas competições até a Olimpíada e muita gente acha que só vamos jogar em Tóquio. Chuto que vamos jogar mais de 10 torneios antes de Tóquio. A preparação está com foco em julho, mas tendo que jogar esses outros torneios pelo caminho. Vamos usar esses torneios como preparação tanto tática, quanto psicológica. O planejamento vai ser de várias formas, do lado psicológico, tático e sabendo como lidar com cada time. Os times, que vamos encontrar em Tóquio, são os mesmos que jogamos no Circuito Mundial. Da parte técnica, vamos criar novas jogadas e melhorar o que não temos tão de bom. A gente dá um gás muito grande no início do ano, faz uma pré-temporada muito grande para sustentar o ano inteiro e mais próximo dos Jogos, devemos ter um microciclo de treinamento.

Você citou que as atletas do Circuito Mundial serão as mesmas dos Jogos Olímpicos. Quais as principais concorrentes?

Hoje não existe uma unanimidade de time. Antigamente, Brasil e Estados Unidos eram superiores aos outros países. Hoje em dia, nós não vemos mais isso nos pódios e temos uma mescla. Tem os times brasileiros, americanos, também coloco o time do Canadá, outro da Austrália e mais uma da Alemanha, que pode surpreender. Esses países têm chances de estarem nas semifinais.

Vocês pensam em alguma estratégia para os Jogos Olímpicos?

Nosso time pensa em objetivo grande e vai se preparar para conquistar o máximo. Como vai ser esse caminho não tem hipótese alguma como traçar. O que podemos nos preparar é pensar no dia a dia, viver o presente, cada torneio e cada jogo. Podemos aprender a cada jogo e como jogar contra cada time. Isso se torna bastante bagagem para chegar em um momento como os Jogos Olímpicos e poder utilizar. Mas não adianta pensar lá na frente, em estratégia desse nível, porque nem sabemos com quem vamos jogar. É acumular muita experiência até os Jogos.

Falando em experiência, você é a única das quatro brasileiras classificadas para Tóquio que já disputou uma edição da Olimpíada. Como a sua experiência pode ser importante a Duda e como pode passar a sua experiência para ela para que vocês possam chegar longe nos Jogos Olímpicos?

A experiência é passada tanto dentro de quadra, quanto fora. Não fico do lado da Duda para fazer isso ou aquilo e é uma postura meio chata. Ela aprende comigo nas atitudes do dia a dia, como eu faço as coisas, quais são as prioridades, e a experiência é no dia a dia. Dentro de quadra, a gente precisa trocar muito, primeiro troca com nosso técnico e depois só nós duas na quadra. Na quadra, muitas vezes, eu acabo fazendo esse papel do técnico, trocando com ela essa parte tática, porque nosso técnico não pode entrar em quadra no Circuito Mundial e nos Jogos Olímpicos. Essa troca de experiência é no dia a dia dentro de quadra e fora também nas atitudes e nas prioridades.

O Comitê Olímpico Internacional (COI) já mudou as provas da maratona e da marcha atlética para Sapporo, no norte do Japão, onde as temperaturas são mais amenas. Como está questão no vôlei de praia, uma modalidade que também é disputada outdoor?

A competição de Tóquio vai acontecer em um parque, onde já tivemos a oportunidade de conhecer em uma etapa do Circuito Mundial. Todas as modalidades fazem algum torneio um ano antes e o vôlei de praia teve esse ano. Nós tivemos uma noção da temperatura e vai estar muito quente. É um lugar muito úmido, não vai mudar e vai ser mesmo em Tóquio. Vai ser uma questão dos times se preparem para isso, cuidarem da hidratação e é um ponto importante e se o time errar, pode colocar tudo a perder.

Recentemente, no Mundial de Atletismo, no Catar, as provas da maratona e da marcha atlética foram disputadas quase de madrugada. Existe essa mesma possibilidade para o vôlei de praia na Olimpíada?

Não. Os jogos vão acontecer até o início da noite, mas seguindo um cronograma normal. Vão ter jogos pela manhã, no período da tarde e no começo da noite.

Não poderia deixar de perguntar em relação à medalha de prata dos Jogos Olímpicos de 2016. Você e a Bárbara Seixas perderam na final para a dupla alemã Ludwig e Walkenhorst, mas tiveram uma grande campanha e até derrotaram na semifinal a dupla americana Ross e Walsh. Gostaria que você lembrasse dessa campanha que tenho a certeza que está na sua memória até hoje.

Foi muito especial participar de uma Olimpíada em casa, com uma torcida linda e lotando em casa. A gente teve a fase de grupos, começamos com a República Tcheca e vencemos, assim como com a Argentina, e perdemos para a Espanha. Saímos em segundo na chave e fomos para o mata-mata. Nas oitavas de final, cruzamos com a China, e depois, tivemos a Rússia. Esse jogo [das quartas] foi tenso, iniciamos perdendo de 19 a 13, conseguimos virar o set para 22 a 20 e ganhamos o segundo com mais tranquilidade.

Na semifinal, a gente encontrou um time super difícil que era a Walsh e a Ross. A Walsh estava na quarta olimpíada e não tinha perdido um jogo na vida dela. O nosso time não se prendeu a nenhum favoritismo porque as favoritas eram as americanas por todo histórico da Walsh e até da Ross. Nós vencemos o jogo por 2 a 0 e foi um jogo super emocionante.

A final contra as alemãs não foi nenhuma surpresa porque do final de 2015 até os Jogos de 2016 foi um time muito constante e chegou forte. Infelizmente, a gente perdeu, acho que não jogou o nosso melhor e faltou um pouco a mais da nossa parte. A gente ficou com a prata e sou muito realizada por ter essa medalha. Ser uma atleta olímpica é muito difícil e é para poucos. E ter ainda uma medalha é para pouquíssimos. Sou super feliz com a conquista, mas sempre fica aquele gostinho de quero mais. Tenho uma nova oportunidade no ano que vem.