Assim que começou a ser veiculada, a campanha de Dia dos Pais de O Boticário deste ano passou a ser alvo de comentários racistas. Isso porque a família protagonista é negra. Apesar dessas reações, a ação foi bem-sucedida e bastante elogiada – no YouTube oficial da marca, o vídeo, que já tem mais de 10,6 milhões de visualizações, contabiliza até agora 127 mil likes ante a 18 mil dislikes. No entanto, o número significativo de dislikes e os comentários queixosos de alguns internautas causaram estranheza, informa o Blog ‘Família Plural, do Estadão.

Família negra protagonista da campanha de Dia dos Pais da marca. Foto: O Boticário

Afinal, o que incomodou tanto esse público?

Segundo Alexandre Bouza, diretor de Marketing de O Boticário, a marca sempre trabalhou com campanhas que atingem “um público muito amplo e algumas campanhas são mais bem-sucedidas do que outras em relação à reação das pessoas”.

“Aqui, particularmente, vimos uma reação muito forte sobre um tema que já não é mais novidade em nossos filmes. E isso nos surpreendeu. Olhando para os comentários espontâneos dos consumidores e de algumas personalidades nas redes sociais, percebemos que o centro das discussões estava em três fatores, basicamente – retratar uma família formada apenas por integrantes negros, que expressa momentos felizes e que é materialmente bem-sucedida. Mas, na verdade, nossa intenção foi retratar um contexto absolutamente normal, com pessoas vivendo e se divertindo – uma família que podia ser a de qualquer um de nós”, continua ele.

E por que uma família branca em campanha não causa polêmica?

“É inevitável recebermos críticas e elogios em todas elas, especialmente porque temos uma rede que conta com mais de 14 milhões de fãs no Facebook e quase 5 milhões de seguidores no Instagram. Queremos manter sempre esses canais abertos para receber o feedback dos consumidores, mas esperamos chegar o dia em que o fato de termos pessoas brancas ou negras, ou de qualquer gênero, raça ou crença não seja mais motivo para polêmica”, responde Bouza.

Sobre o posicionamento da marca diante dessas manifestações contrárias à campanha, Bouza afirma que O Boticário seguirá aberto “ao diálogo construtivo e a todas as opiniões. Temos ainda muito trabalho a fazer e vamos continuar a abraçar a diversidade em nossas campanhas, porque isso faz parte dos nossos valores e do nosso respeito às pessoas. Esperamos que, em breve, essas questões não precisem ser mais motivo de discórdia na nossa sociedade”.

Bouza conta que o objetivo da campanha era exaltar, com bom humor, algumas situações cotidianas na relação entre pais e filhos. “Usamos uma linguagem irreverente para mostrar a importância da figura paterna, por meio de tentativas divertidas que os pais fazem para acertar na criação dos filhos. Ou seja, queríamos uma família com a qual as famílias brasileiras pudessem se identificar.”

Representatividade

Para Adriana Barbosa, fundadora da Feira Preta, maior evento de cultura negra da América Latina, é fundamental “ter famílias negras representadas em campanhas de comunicação, sobretudo famílias negras de pele escura”. “Além de sermos mais de 50% da população brasileira, historicamente, temos uma estrutura de famílias sendo lideradas apenas por mulheres negras e solteiras, chefes de família”, ressalta ela. “Quando vemos na TV, mídia de maior alcance do País, uma família inteira composta por mãe, pai e filhos negros, além da representação, ressignificamos as subjetividades ligadas ao imaginário das estruturas familiares possíveis, no que diz respeito à questão racial.”

Em relação aos comentários racistas que surgiram após o comercial ir ao ar, Adriana avalia que, à medida que a população negra ascende nos espaços, mais o racismo aparece. “O Brasil ainda não está preparado para a nossa ascensão”, afirma. “O que mais eu ouço quando falo da Feira Preta para não negros é que a Feira é um modelo racista, que é só para negros e que excluem os brancos, quando na verdade é o contrário. Queremos mostrar toda a riqueza da cultura negra como parte da identidade cultural do País e essa riqueza é para negros, brancos, indígenas, entre outros.”

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Assista ao vídeo: