Como estariam Fátima (Fernanda Torres) e Sueli (Andrea Beltrão), as divertidas e atrapalhadas protagonistas de “Tapas e Beijos” em 2020, em plena pandemia do novo coronavírus? Na fila da Caixa, buscando o auxílio emergencial do governo, diz Cláudio Paiva, autor da série. E claro, acrescenta ele, “tocando o rebu” como era a característica peculiar das personagens.

Armane (Vladimir Brichta) também estaria lá, “tentando ajudar e obviamente levar a parte dele”. Já Djalma não aguentaria a pressão do aluguel, fecharia a Djalma Noivas, palco de grande parte das aventuras das vendedoras, e enlouqueceria de vez. “Ele iria para cracolândia”, diz o seu intérprete, Otávio Müller.

Fátima e Sueli – Tapas e Beijos

Fernanda de Freitas, que faz a mulher do comerciante, logo interrompe o seu “Tuf tuf”: “Não, a Flavinha não ia deixar [ele ir para a cracolândia].” Já Fabio Assunção afirma acreditar que Jorge seguiria com a boate La Conga, com todos de máscara.

“Daria uma boa história, gostaria de escrever”, afirma Paiva. Alguma chance de um episódio especial ou filme baseado na série, que fez sucesso na Globo entre 2011 e 2015? Se depender do elenco, existe, sim, disposição para um reencontro.

Na época em que “Tapas e Beijos” acabou já existia uma ideia de se lançar um longa. Para Fernanda Torres, porém, a iniciativa naquele momento não a agradava muito, porque eles já estavam há cinco anos envolvidos com os personagens. Mas, agora, cinco anos depois, ela afirma que seria interessante ver que rumo tomou a vida de Fátima e Sueli e de seus amores e amigos.

“Hoje seria bacana fazer um filme ou um especial, porque o Brasil mudou muito, a situação é outra, tipo a pandemia, o que aconteceria com aquelas pessoas”, indaga a atriz. Mauricio Farias, diretor do programa, lembra que desde o início da concepção do seriado, a proposta era que ele tivesse uma vida curta, de dois, três anos, já que muitos dos envolvidos no projeto vinham de um outro programa longo: “A Grande Família”, que ficou mais de dez anos no ar.

Por causa do seu sucesso, “Tapas e Beijos” teve cinco temporadas. “E a decisão de parar o programa foi desse grupo aqui [elenco, autores e direção], não foi da empresa, não foi de ninguém. A gente quis parar, e parou…E uma das coisas mais bonitas que eu ouvi no momento dessa parada, foi chegarem para a gente e dizer o seguinte: ‘Vocês voltam a hora que vocês quiserem”, conta Farias.

“Mas não estou falando pensando nisso [em um retorno]”, pondera o diretor. “Mas eu estou”, complementa Fernanda Freitas. “Fazer um especial ou alguns episódios, eu acho super válido, faria com prazer”, diz a atriz. “Eu só tenho que caber na sainha da Fátima”, diverte-se Torres.

REENCONTRO VIRTUAL

Enquanto um filme ou novos episódios da série são ainda apenas um sonho, o público poderá rever, a partir desta terça-feira (4), na Globo, os melhores episódios de “Tapas e Beijos”. Foi para celebrar esse retorno que grande parte do elenco, além de Cláudio Paiva e do diretor Mauricio Farias, se reencontraram virtualmente, na quarta passada (29), em entrevista coletiva.

Em pouco mais de duas horas de conversa, os artistas relembraram histórias e deram muitas risadas dando uma pista do clima que existia nos bastidores das gravações e que é apontado como um dos fatores para o sucesso do programa. Eles também se emocionaram ao falar de Flávio Migliaccio, que fez o seu Chalita na trama, e morreu em maio deste ano.

Para Kiko Mascarenhas, que interpretou dois personagens na série (Santo Antônio e o advogado Tavares), esse ambiente de prazer e companheirismo que existia entre o elenco ficava nítido para o público. “A gente sempre se deu muito bem, não lembro até hoje de nenhuma briga em cinco anos”, afirma.

Vladimir Brichta, então, brinca: “O motivo do sucesso é que os tapas eram de verdade”. Mascarenhas, que levou tapas de todos os personagens e, portanto, tem propriedade para falar do assunto, diz que Andrea Beltrão é a que tem a mão mais leve. Já Fernanda Torres, segundo ele, “tem no lugar da mão um ferro de passar roupa”.

Brichta discorda sobre Beltrão: “Cada tapa que ela dava na gente era prova cabal que ela nada”, comenta sobre o hábito de a atriz de praticar natação no mar de Copacabana.

COMÉDIA E TEMAS ESPINHOSOS

Para o autor Claudio Paiva, ter a volta de um programa que faz rir e, ao mesmo tempo, aborda temas difíceis e polêmicos, é ideal para a situação atual do país, em que as pessoas estão vivendo sob o medo e a angústia constantes de morrer ou perder alguém querido. “Tempos bicudos exigem comédia […] O público gosta e precisa disso agora mais do que nunca.”

Natália Lage, que faz a dançarina Lucilene, destaca que o retorno de “Tapas e Beijos” é importante também nesse momento em que há um “encaretamento” do mundo e do país, já que a série tem um olhar mais progressista, com destaque para as personagens femininas corajosas e livres, como Fátima e Sueli e como a própria Lucilene.

“Você ver na televisão esses exemplos, dessas mulheres fortes, corajosas, que vivem as suas vidas da maneira que acreditam, que são o oposto da ‘bela, recata e do lar’, que são o oposto do ‘meninas vestem rosa, e meninos vestem azul’. Pesno que, sobretudo nesse momento, é muito legal esse programa ser reprisado”, afirma.

Andrea Beltrão lembra que a série também mostrava, de forma muito natural e sem questionamentos por parte dos outros personagens, o relacionamento entre Tijolo (Orã Figueiredo) e a travesti Lorraine/ Stephanie (Rafael Primot).

Mauricio Farias complementa que, certa vez, ele e Claudio Paiva acompanharam grupos de pesquisa com os telespectadores sobre como “Tapas e Beijos” era vista, e nunca houve qualquer rejeição à história dos dois ou a qualquer outro tema tabu abordados no programa.

“A gente saiu de lá satisfeitíssimos. É impressionante como o público está muito além”, diz Farias. Para Fernanda Torres, a forma como os assuntos são abordados na história, de uma forma que não é panfletária ou imposta, contribui para essa leitura. “‘Tapas e Beijos’ ganhava o público pelas relações afetivas.”