No dia 18 de setembro de 1950, a TV Tupi era inaugurada em São Paulo e se estabelecia como a primeira emissora de televisão da América Latina. Para a estreia daquela novidade tecnológica, um programa de variedades reuniu estrelas conhecidas, até então, pela voz que saía dos rádios, como Hebe Camargo, Lolita Rodrigues e Lima Duarte.

Sete décadas mais tarde, a sobrevivência da TV como a conhecemos provoca debates acalorados no mundo inteiro, principalmente por causa da popularização do streaming. No Brasil, no entanto, a televisão fechada pode até estar intimidada frente à nova concorrência, mas a aberta segue forte, em especial por causa dos telejornais, que viram sua audiência explodir durante a pandemia.

 

Foto: Reprodução EBC

 

Falamos, afinal, de um país em que 96% dos domicílios têm acesso à televisão, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, de 2018. A porcentagem já foi maior e a internet vem ampliando seu sinal nos rincões do Brasil, mas o número consolida os televisores como a principal fonte de entretenimento e também de informação do brasileiro.

É por isso que o telejornalismo, nesses 70 anos, teve papel fundamental para moldar a televisão como o brasileiro a conhece hoje. Relembre abaixo dez atrações do gênero que são parte indispensável dessa história.

IMAGENS DO DIA

Pai da televisão no Brasil, Assis Chateaubriand era jornalista e controlou os Diários Associados, que em seu auge foi o maior conglomerado de mídia da América Latina. Nada mais natural do que ter programas noticiosos na grade da TV Tupi já em seus primeiros momentos de vida. Lançado em 1950, o Imagens do Dia foi o primeiro telejornal diário do país e morreu logo após alcançar a maioridade, em 1968. Com apenas uma só câmera para produzir suas reportagens, o programa tinha forte influência da rádio.

O SEU REPÓRTER ESSO

Cria do rádio, o jornalístico O Seu Repórter Esso foi bem-sucedido em sua transição para a TV, ficando no ar na Tupi entre 1952 e 1970. De origem americana, tinha versões em vários países da América Latina. Por isso, servia também para propagar o “American way of life” e mais tudo aquilo que interessava aos Estados Unidos disseminar. Nos televisores brasileiros, o mais lembrado apresentador do programa foi Gontijo Teodoro, que entoava o clássico bordão “Repórter Esso, testemunha ocular da história”. Chegou ao fim após o corte de patrocínio da petrolífera Esso.

JORNAL DE VANGUARDA

O telejornalismo brasileiro sofreu um baque quando o Jornal de Vanguarda estreou, em 1963, revolucionando o gênero. A rigidez e o padrão engessado de antes foram substituídos por roteiros e um formato mais leves e criativos, aliando jornalismo ao bom humor. Criado por Fernando Barbosa Lima para a TV Excelsior, recebeu o prêmio espanhol Ondas, de melhor telejornal. Com a censura acentuada pelo AI-5, promulgado durante a ditadura militar, a atração foi tirada do ar, em 1968. Chegou a ganhar vida nova na Bandeirantes, 20 anos depois, mas não vingou.

JORNAL NACIONAL

Nos primórdios da televisão, cada região tinha sua própria programação. Quando chegaram à Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, e Walter Clark tinham como sonho pôr no ar o primeiro telejornal de alcance nacional do país. Foi assim que nasceu, em 1969, o Jornal Nacional, graças ao novo sistema de transmissão em micro-ondas da Embratel. Até então uma emissora pequena, a Globo começou, a partir daí, seu caminho rumo ao topo dos índices de audiência da TV. Hoje associado à imagem de William Bonner, o Jornal Nacional ainda tem em Cid Moreira seu âncora mais longevo – foram 27 anos na bancada.

GLOBO REPÓRTER

Outro filho bem-sucedido da dupla Boni e Walter Clark, o programa semanal apresentou um novo formato para o jornalismo que era feito na TV brasileira. Exibido pela primeira vez em 1973, substituindo o extinto Globo Shell Especial, o Globo Repórter é até hoje formado por reportagens que se assemelham a documentários. A fórmula é composta por uma grande ênfase nas imagens, narração em off e uma gama variada de temas abordados. Hoje, o comando é dividido por Glória Maria e Sandra Annenberg.

FANTÁSTICO

Lançado em 1973, o “show da vida” virou sinônimo de domingo para muitos brasileiros, com sua música de abertura icônica e facilmente reconhecível. O sucesso do programa se deve à mistura do jornalismo, com reportagens sérias, investigativas e de interesse nacional e internacional, com o entretenimento –de esquetes de humor a atrações musicais, passando ainda por esporte e vida animal. Até mesmo saúde é um tema recorrente na atração, normalmente ancorada à imagem do médico Drauzio Varella, colunista da Folha. Ao longo dos anos, o Fantástico foi se atualizando, o que incluiu diversas trocas de apresentadores. Já passaram por lá nomes como Sérgio Chapelin, Sandra Annenberg, William Bonner, Fátima Bernardes, Glória Maria, Pedro Bial e Zeca Camargo. Atualmente, está sob o comando de Poliana Abritta e Tadeu Schmidt.

RODA VIVA

É difícil pensar em uma grande personalidade brasileira que não tenha sido sabatinada pelo apresentador e o time de jornalistas convidados do programa da TV Cultura, no ar desde 1986. Ayrton Senna, Hebe Camargo e Ruth Escobar foram alguns dos participantes que geraram maior furor pelas declarações feitas ao programa. O nome da atração já denuncia seu cenário icônico -bancadas formando um círculo e, no centro, o entrevistado. Atualmente, o Roda Viva é comandado por Vera Magalhães.

DOCUMENTO ESPECIAL

Criado por Nelson Hoineff para a TV Manchete em 1989, o programa passou por outras duas casas, SBT e Bandeirantes, até ser cancelado, em 1998. Seu formato se aproxima ao do Globo Repórter, com reportagens especiais ocupando todos os 30 minutos de duração do jornalístico. Foi um marco por não economizar em cenas fortes -na abertura um letreiro desaconselhava “crianças e pessoas sensíveis” a assistir- e por abordar temas pouco presentes na televisão brasileira até então, como homossexualidade, ufologia, prostituição e suicídio. Um dos episódios mais lembrados investigava, com certo ineditismo, a Igreja Universal do Reino de Deus.

AQUI AGORA

Exibido pelo SBT originalmente entre 1991 e 1997 -em 2008 ganhou uma nova versão-, o telejornal abriu caminho para as atrações policialescas tão presentes na televisão atual. Com câmera na mão e manchetes escandalosas, o programa dava preferência a coberturas de sequestros, tiroteios, assassinatos e toda sorte de crimes. Atual candidato à Prefeitura de São Paulo, Celso Russomanno ganhou popularidade com um quadro sobre defesa do consumidor no Aqui Agora.

TV FECHADA

Primeiro canal brasileiro dedicado exclusivamente ao jornalismo, o GloboNews estreou em 1996 e deu origem a vários semelhantes. Alguns anos mais tarde, Bandeirantes e RecordTV também decidiram investir em programações 100% noticiosas, nas emissoras BandNews e Record News. Em março, desembarcou no Brasil uma filial da americana CNN, que engrossou a disputa por audiência na TV fechada.