Depois de meses de paralisação em diversos países, o cinema e a TV têm, lentamente, retomado as suas atividades, seguindo protocolos de segurança para barrar o coronavírus dos sets de filmagem.

Mas ainda não há vacina para a nova doença e, por melhores que sejam as normas adotadas, o risco de contaminação nos sets ainda é significativo -prova disso é Robert Pattinson, que contraiu a doença enquanto filmava “The Batman” no início deste mês.

Por isso, as normas adotadas não se limitaram a medidas de higiene. Elas contaminaram os roteiros e forçaram a indústria a repensar seu modo de produção. Na tentativa de minimizar os impactos nas tramas, o setor descobriu na tecnologia uma saída para a nova era de restrições.

 

 

“A pandemia acelerou um processo que já estava em curso em relação às tecnologias visuais. Mesmo antes da Covid-19 a gente já via um crescimento na demanda por engenheiros dessa área, mas, com ela, as pessoas começaram a se conectar e a buscar soluções para o distanciamento”, diz Matteo Moriconi, presidente da Associação Brasileira de Tecnologia Visual.

Em junho, ele promoveu a VFXRio, feira de efeitos visuais que, neste ano, centrou seus esforços na discussão das possibilidades trazidas pela tecnologia em meio à pandemia.

“Nós falamos bastante sobre essa desordem no nosso dia a dia, que fez com que as pessoas, no nosso setor, dedicassem mais tempo a desenvolver tecnologias e a pensar em novos caminhos.”

Um desses caminhos viralizou nas redes sociais no semestre passado, na forma de uma imagem de bastidor de uma novela portuguesa. Na foto, a atriz Mariana Monteiro aparece inclinada em direção a uma maca de hospital, beijando uma bolinha de tênis. Mais tarde, o departamento de efeitos visuais da trama inseriu digitalmente seu par romântico no lugar do objeto.

Na Globo, o que chamou a atenção dos espectadores de “Amor de Mãe” e “Salve-se Quem Puder”, quando os folhetins voltaram aos estúdios, não foi uma inserção, mas a remoção de um elemento presente na hora da filmagem.

Os elencos das novelas têm contracenado usando divisórias de acrílico para evitar qualquer tipo de contato físico entre os atores. Na pós-produção, essas barreiras são eliminadas e os capítulos chegam à TV como se tivessem sido gravados normalmente.

“Para fazer as novelas, considerando o nosso protocolo, as equipes artísticas estudaram formas variadas de realização. Desde o uso de uma placa de acrílico que separa os atores, mas possibilita que eles fiquem mais próximos, em segurança, ao uso de lentes de câmera que sugerem que eles estão mais próximos do que na realidade”, diz a emissora em nota.

“As placas de acrílico são usadas nas cenas que pedem mais proximidade e a tecnologia atua na pós-produção, retirando os reflexos das placas.”

No segundo plano, os figurantes não podem simplesmente ser separados por dezenas de barreiras transparentes.

Mas há vários truques para aproximar pessoas digitalmente –e que já eram usados antes do isolamento social.

Há técnicas, usando o famoso fundo verde -ou chroma key-, que permitem que figurantes sejam filmados isoladamente, em diferentes posições, para que, na edição, essas várias gravações sejam sobrepostas, juntando os atores num único ambiente.

Mas as novas medidas não significam necessariamente um tempo maior na pós-produção. Há quem queira atacar o problema já durante as gravações. Foi nisso que pensou a produtora Oger Sepol, que investiu numa nova tecnologia que substitui a tela verde por painéis de LED.

A técnica já é usada em Hollywood, mas de forma pontual. Recentemente, no entanto, foi adotada para uso em larga escala, na série “The Mandalorian”, da Disney+, que venceu o Emmy de efeitos visuais na semana passada.

Os painéis de LED servem para simular diferentes tipos de cenário -de um quarto a um planeta fictício de “Star Wars”- dentro de um estúdio. Gigantes, eles cobrem todo o fundo atrás dos atores e se adaptam à posição e aos ângulos das câmeras por meio de uma tecnologia de realidade virtual e um mecanismo próprio de jogos de videogame.

“Quando você soma essas técnicas, você consegue fazer com que o fundo dos atores se ajuste ao movimento da câmera, dando uma noção de profundidade e tendo um retorno da iluminação o tempo todo”, conta Diego Lopes, diretor da Oger Sepol. “Diferente dos fundos verdes, aqui você tem uma resposta imediata, então no set você já consegue ver o resultado, reduzindo o tempo de pós-produção.”

Lopes espera abrir nas próximas semanas um estúdio em São Paulo, com a tecnologia de LED importada dos Estados Unidos. Ele pretende alugar o espaço para produtoras de cinema e televisão e para agências de publicidade.

Em vez de expor toda uma equipe aos perigos das ruas ou de uma loja, por exemplo, onde é difícil manter um controle rigoroso de limpeza e limitar a circulação de pessoas, a tecnologia vai recriar esses cenários por meio do LED, na segurança de um estúdio devidamente higienizado.

“Eu acredito na tecnologia como caminho para o futuro. Ela não substitui, mas complementa. Mas, nesse momento de pandemia, ela permite criar uma infinidade de cenários num ambiente de estúdio, e com equipe reduzida”, diz.
As soluções tecnológica no audiovisual, aliás, têm extrapolado os estúdios e salas de edição e já chegaram aos festivais de cinema. Muitos foram impedidos de acontecer, enquanto outros recorreram ao streaming. Mas há quem tente migrar a experiência física desses eventos para o ambiente digital por completo.

Amir Admoni e Fabito Rycher frequentaram eventos do gênero nos últimos meses, com seu curta “Gravidade VR”, contemplado pelo programa de fomento Rumos Itaú Cultural. Em Hamburgo, onde a dupla ganhou um prêmio no VRHam, eles interagiram com outros cineastas por meio de avatares, num ambiente de realidade virtual que simulava o de um festival presencial.

“Já existia um museu em VR antes da pandemia, o Museum of Other Realities, com um monte de obras. Para o festival, eles construíram digitalmente um anexo, com um palco para palestras, salas para assistir a cada filme, encontro de artistas e até uma área para show”, diz Admoni. “Cada frequentador tinha um avatar para circular por aquele local, que tinha uma ambientação muito parecida com a de um festival.”