Nos intervalos de suas apresentações no Carnaval deste ano, Jup do Bairro ouviu muito rock -Rage Against the Machine, Korn e Slipknot bombaram nos seus fones de ouvido.

O resgate da sonoridade que marcou a adolescência da cantora -por influência do pai, que integrou o movimento punk da periferia de São Paulo – era parte do processo de composição de seu primeiro disco, recém-lançado.

O resultado dessa volta ao passado musical pode ser ouvido em “Pelo Amor de Deize”, terceira faixa do EP “Corpo sem Juízo”, um heavy metal de guitarras rasgadas com participação da funkeira Deize Tigrona. A letra fala de um personagem que se remói de angústia. “Levanta dessa cama pelo amor de Deize/ Quantas vezes a solidão foi o seu lugar?/ E a inquietação parecia nunca acabar/ A única preocupação era em se culpar?”

É curioso que a parceira musical de Linn da Quebrada, conhecida por seus funks sobre sexualidades marginais, resolva cantar a respeito de depressão usando o instrumental característico do rock pesado. “Eu não faço música LGBT, eu faço música. Quando faço algum rock, quero estar na playlist de rock junto com Sepultura, com as bandas de rock alternativo”, diz Jup, em entrevista por Zoom de sua casa no Capão Redondo, na periferia de São Paulo.

Sexualidade, gênero, racismo e as dificuldades da vida na periferia paulistana também estão presentes em algumas das letras das cinco faixas de “Corpo Sem Juízo”, assim como as influências musicais do rap, do hip hop, de Elza Soares e de Cartola -estas, vindas da mãe de Jup.

O disco foi gravado este ano, em São Paulo, com R$ 40 mil levantados no ano passado via financiamento coletivo. Jup terminou de registrar os vocais uma semana antes do anúncio do isolamento social, mas a mixagem e a masterização foram feitas a distância, assim como os videoclipes.

“De alguma forma eu não consegui pensar em não lançar esse disco nesse momento, porque acho que ele faz muito sentido. Tem pessoas falando que parece que escrevi o disco na semana passada, por falar de coisas tão pertinentes, mas na verdade o racismo já está aí há muito tempo, a transfobia já está aí há muito tempo. Mas com o passar do tempo, essas características vão se sofisticando a ponto de a gente não as enxergar com tanta evidência”, afirma.

Jup, hoje com 27 anos, conta que começou a escrever aos 13, na época em que perdeu seu pai e passou a explorar sua sexualidade e seu corpo. Ela não tinha pretensões de ser artista, e, por ser tímida, também não pensava em publicar seus escritos.

O jogo mudou quando, no início do ensino médio, se envolveu com o movimento punk do Capão Redondo e descobriu os fanzines, um canal onde daria vazão a seus pensamentos. Ela recortava páginas das Playboys do irmão e closes de pênis de revistas gays e colava as imagens junto com seus textos, que já exploravam pautas de gênero.

“Quando eu ia entregar [o fanzine], eu sentia que a galera abria um sorriso, porque eu era uma criança muito cativante, fofinha, na época eu ainda frequentava a igreja e a galera esperava que fosse um folhetinho de igreja. Daí quando a galera abria, ficava meio assustada. De alguma forma meio maliciosa, fui gostando de criar essa sensação nas pessoas, esse atrito.”

Mais tarde, Jup passou a comandar um sarau em que sua figura exótica, como diz, ajudava a atrair e a criar um diálogo com a comunidade LGBT da periferia. Numa das edições do evento, começou a recitar um de seus textos quando o DJ soltou uma base. Uma amiga gravou o vídeo da apresentação e postou no Facebook -a repercussão do post rendeu um convite para que Jup se apresentasse na Ocupação 63, no centro de São Paulo.

 

Foto: John Halles/Divulgação

 

No dia do show, recitou a letra de “Corpo sem Juízo” -sua primeira composição, que está no EP-, cantou uma música de Alcione e outra do Roupa Nova. O espetáculo teve só três faixas porque ela não tinha repertório próprio para uma apresentação mais longa. Como estava nervosa por se apresentar em público, conta ter usado uma balaclava para esconder o rosto. Mas, mesmo com a recepção positiva, ela afirma ter ido embora envergonhada.

Duas semanas mais tarde, no entanto, uma produtora da Virada Cultural que estava no show na Ocupação 63 a convidou para ser mestre de cerimônias e se apresentar em um palco do evento, oferecendo uma ajuda de custo de R$ 600. Jup conta ter achado que era trote, mas acabou aceitando o convite.

No dia, chegou bem cedo à Virada e se deparou com o palco lotado, para o que considera sua primeira grande apresentação. Sua timidez não deixou que tirasse a balaclava, mas, desta vez, ela relata ter tido segurança e acreditado no que estava fazendo.

Foi a partir daquele momento em 2009 e pelos anos seguintes que Jup caiu nas graças dos produtores das festas independentes de São Paulo, em que passou a se apresentar e a cantar junto com a produtora Bad Sista. Sua ascensão aconteceu junto à expansão das baladas para as ruas da cidade e, depois, para galpões abandonados. As duas estão ativas até hoje com o projeto Bad do Bairro, e Bad Sista foi uma das produtoras do EP de Jup.

O encontro que marcaria a sua carreira aconteceu dois anos mais tarde, na primeira edição do festival SP na Rua -Jup conheceu Linn da Quebrada numa troca de palcos, já que ambas se apresentaram no evento.

Como elas já tinham amigos em comum e frequentavam as mesmas baladas, a aproximação foi natural. No decorrer dos meses, ficaram amigas enquanto conversavam esperando o metrô abrir para poder voltar para casa depois das festas.

Juntas, criaram “Pajubá”, de 2017, primeiro disco de Linn da Quebrada e um dos trabalhos musicais mais importantes do pop brasileiro contemporâneo. O álbum, com letras que misturam humor gay e crítica social, ajudou travestis e transexuais negras a serem reconhecidas e incluídas no mainstream artístico, integrando um movimento maior, do qual fazem parte também o rapper homossexual Rico Dalasam -que está na faixa “All You Need Is Love”, do disco de Jup-, o grupo As Bahias e a Cozinha Mineira e as cantoras Liniker e Pablo Vittar.

O sucesso do disco levou a dupla a excursionar pela Europa e inspirou o premiado documentário “Bixa Travesty”, lançado há dois anos por Claudia Priscila e Kiko Goifman, centrado ao redor dos shows da turnê de “Pajubá”.

Também rendeu o talk show “TransMissão”, no Canal Brasil, que estreou no início de junho sua segunda temporada.

Apresentado por Linn e Jup, chama personalidades para conversarem sobre gênero, raça e sexualidade de forma bem humorada -aos poucos, a dupla se firmou como referência sobre esses assuntos num contexto político conservador.

O EP recém-lançado de Jup é a linha de chegada de tudo isso, mas também um novo ponto de partida, já que põe uma lente de aumento sobre seu trabalho, desta vez descolado de Linn da Quebrada –mesmo que Linn participe da faixa “All You Need Is Love”. Nas imagens de divulgação, Jup está de rosto limpo, sem balaclava, como quem se sente segura.

O disco é “extremamente pessoal e biográfico, mas não só”, ela diz. “Eu devolvo a responsabilidade dele, sabe? Como se eu estivesse mexendo em feridas frescas, que ainda me doem, mas gerando um desconforto para quem está ouvindo, um desconforto necessário. É o que acredito que as pessoas precisam ouvir.”