© Camila Cara/Divulgação Em seu primeiro show da nova turnê, Roger Waters dividiu o estádio

Em segundo dia de show de Roger Waters no Brasil, público se divide entre #elenão, críticas à Lula e vaias. Músico britânico faz crítica velada a Jair Bolsonaro no intervalo.

Às 21 h, uma projeção de um homem sentado na praia olhando o mar tomou o telão. Nesse momento, houve aplausos, mas duraram pouco – e logo mais gritos de #elenão. “Gente que não entende essa música nem deveria estar aqui”, diziam algumas pessoas na pista.E mais vaias da cadeira e arquibancada.

1h09, o som começou, uma música calma, com vozes femininas, que mais pareciam entoar um mantra. 21h15 as luzes se apagaram e a imagem da praia deu lugar a uma imagem da terra, em vermelho, com gritos nos alto falantes. Depois, uma batida mais lenta e a terra em azul. O público aplaudiu. Waters começou a cantar às 21h17, a música Breathe. Foi aplaudido. A pista cantou junto. Quando a imagem de Waters apareceu no telão, o músico foi ovacionado.

Na quarta música, Time, divergências políticas ficaram de lado e pista, arquibancada e cadeiras cantaram, todos juntos. E foi assim grande parte do tempo. O coro tomou conta do estádio em Wish You Were Here. Mas em Another Brick In the Wall, a pista gritou #elenão de novo, misturado à letra. “Vocês, crianças, são fantásticas. Vou fazer um intervalo e continuar com a resistência!”, ele disse.

No intervalo, a arquibancada puxou um grito de “ei, Lula, vai tomar no c…”. Neste momento, foram exibidos no telão novamente nomes de presidentes como Putin, da Rússia, da líder da extrema-direita francesa, Marine Le Pen, de um dos líderes nas negociações do Brexit, Nigel Farage. Mas, ao contrário do primeiro dia, em que o nome de Jair Bolsonaro fechava a lista, podia-se ler: “Ponto de vista político censurado”. Só depois apareceu o nome do candidato do PSL Jair Bolsonaro. Depois, apareceram frases que pediam resistência às forças policiais.

Antes do intervalo, ao cantar um dos maiores sucessos do Pink Floyd, Another Brick in the Wall, Waters foi acompanhando por um grupo de crianças vestidas com uniformes laranjas, numa clara alusão às roupas que vestem os prisioneiros norte-americanos. Por baixo do macacão, os jovens vestiam camisetas pretas com a palavra ‘resist’. Foram aplaudidos.

O clima no estádio era tranquilo no começo da noite. Do lado de fora, por volta de 20h, o clima era de show de rock, com inúmeras pessoas vestindo camisetas pretas, do Pink Floyd ou de outras bandas, como Ramones, AC/DC. Camelôs vendiam camisetas não-oficiais, faixas. Mas faziam sucesso aqueles que vendiam a capa de chuva a R$ 5, dada a garoa fina. Alguns, como acontece em dias de show, também vendiam e compravam ingressos.No trajeto até a pista, apenas uma jovem vestia uma camiseta #elenão. Não havia camisetas de Bolsonaro à vista.

Por volta de 20h50, um coro na pista começou a gritar #elenão. E a arquibancada reagiu com vaias. Algumas pessoas reclamavam de ir ao show, para ver e ouvir música, e ter que ouvir manifestações políticas. E reagiram gritando “hoje não”. Muita gente conversava sobre o que o cantor iria dizer, se ia discursar. “A gente vem pra relaxar a cabeça e tem que ouvir isso”, reclamava um.

O polêmico primeiro show de Roger Waters

O primeiro show, na terça, 9, transcorria bem até o final do primeiro ato. Roger Waters tinha o público de cerca de 45 mil pessoas nas mãos. Eram todos seus, entregues ao espetáculo cênico musical que de clima tenso desde a abertura de Breathe, passando pela nova Picture That e por Wish You Were Here. Já perto do final, depois de uma encenação assustadora de Another Brick in the Wall Part 2, os ruídos começaram.

O grande telão ao fundo do palco trazia uma lista de líderes mundiais considerados pelo músico como neofascistas. Estavam ali nomes como Ciktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria; Marine Le Pen, liderança de extrema-direita da França; Lech Kaczynski, ex-presidente da Polônia; Vladimir Putin, presidente da Rússia e, por último, o candidato Jair Bolsonaro.

Houve uma espécie de susto coletivo no início para que logo uma guerra de gritos de ordem começasse. Os primeiros foram “ele não”, vindos sobretudo das arquibancadas. Logo depois, o “fora PT” veio nas mesmas dimensões. As provocações de Waters seguiriam na segunda parte do show, depois do intervalo de 20 minutos. Seu telão mostrava agora um visível “ele não” em fundo negro, como se despejasse gasolina nas chamas. Os bolsonaristas passaram a vaiar estrondosamente em vários momentos do show e entre as músicas. Alguns chegaram a deixar o estádio.

O momento tenso foi ao final, quando Roger Waters se preparava para cantar Comfortably Numb, a última do show. A mistura de vaias e aplausos pareciam deixá-lo desconcertado. Ele, no entanto, não amarelou. Falou em tom ainda contundente contra o fascismo e disse não acreditar em regimes ditatoriais. As vaias voltaram enquanto Waters e sua banda se despediam da plateia. A turnê segue agora para Brasília, dia 13; Salvador, 17; Belo Horizonte, 21; Rio de Janeiro, 24; Curitiba, 27 (véspera de eleições) e Porto Alegre, 30.