“As pessoas têm a crença de que o negro não pode virar branco, que o deficiente não pode mudar, mas que o gordo pode emagrecer”, afirmou a blogueira e modelo plus size Renata Poskus, 38, em debate após a pré-estreia do filme “Cem Quilos de Estrelas”. O evento foi realizado pela Folha de S.Paulo na quarta-feira (4) no Espaço Itaú de Cinema, no shopping Frei Caneca, em São Paulo.

No longa, a protagonista Lois (Laure Duchene) é uma garota de 16 anos que quer vencer um concurso do Centro Nacional de Estudos Espaciais da França e realizar o sonho de ser astronauta, mas um professor e um cientista fazem Lois acreditar que seu peso a impedirá de seguir essa carreira.

Ela então para de comer e acaba internada. Na clínica psiquiátrica, conhece quatro adolescentes que também compartilham problemas com seus corpos: anorexia, dificuldade de locomoção e transtorno obsessivo-compulsivo. O grupo foge da clínica para levar Lois à cidade de Toulouse, onde acontece a competição.

A modelo Renata Poskus disse ter se identificado com a protagonista do filme em vários momentos. Hoje a modelo tem um blog direcionado para mulheres gordas, mas já trabalhou com jornalismo. De um antigo chefe, ouviu que precisava modificar seu corpo para ser uma profissional bem-sucedida. “Ele dizia que eu tinha que ‘me cuidar mais’. Esse ‘me cuidar mais’ dele era ser magra.”

Em outra ocasião, sua professora de balé disse que não podia formar uma bailarina gorda. Renata disse que suas leitoras compartilham histórias parecidas. Esses episódios, em sua opinião, acontecem porque a pessoa gorda, entre as categorias sociais que sofrem opressão, ainda é vista como aquela que pode modificar sua condição.
“As pessoas dizem: ‘Tá difícil ser gordo? Então emagrece’, mas isso não é verdade.”

A colunista da Folha Laura Mattos, que também participou do debate, disse que embora a Base Nacional Comum Curricular determine que as escolas tratem de temas sociais, uma abordagem específica sobre gordofobia ainda é rara.

 

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“Com adolescentes cada vez mais cedo utilizando redes sociais, onde há ataques gordofóbicos, essa educação também precisa ser voltada para a mídia, para a tecnologia”, afirmou.

Se, na escola ou em outros espaços, adolescentes conseguem encontrar um grupo, lidar com a gordofobia pode ficar mais fácil, disse a psicanalista Luciana Saddi, outra debatedora do evento.

“As meninas do filme eram sozinhas antes de se encontrarem. Juntas, elas se empoderaram e conseguiram transgredir as regras da clínica psiquiátrica, um símbolo de controle sobre seus corpos”, disse Luciana.

Essa transgressão, afirma a psicanalista, faz com que as personagens consigam desenvolver sua própria maneira de lidar com o mundo. “No final do filme, não se deseja mais não existir, não pesar, não ser um peso. Surge o desejo de ter o próprio peso, poder caber no seu próprio corpo.”

Em “Cem Quilos de Estrelas”, a visão da protagonista sobre o próprio corpo muda quando o pai da garota demonstra afeto pela mãe, que também é gorda e sofre de baixa autoestima.

As debatedoras enfatizaram o papel da família na cabeça do adolescente. “Os filhos precisam ser amados, ser objeto de interesse dos pais para que eles possam desenvolver seus recursos”, disse Luciana. Laura Mattos sugeriu que pais trabalhem como mediadores dos canais midiáticos que seus filhos usam.

Um espectador contou como lida com a questão em casa. “Tenho uma filha gorda. Coloquei ela em uma escola que promove a diversidade. Há crianças negras, crianças com deficiência, de todos os tipos. E todos se aceitam”, disse.