Com 40 anos de carreira, a atriz Lilia Cabral está mais do que acostumada às câmeras. Só que, dessa vez, quando três delas miram tudo que acontece no palco em que Cabral estreia uma nova peça, a sensação, ela diz, é diferente: “A gente não pode esquecer que o que está fazendo é teatro.”

“A Lista” iniciou nesta quinta-feira (3) sua temporada no carioca Teatro Petra Gold, no sistema que agora, com o isolamento social, se mostra como a opção mais próxima da experiência que se tinha antes, de presencialmente visitar uma casa de espetáculos e assistir a uma peça.

Uma transmissão ao vivo online aproxima o público do elenco no máximo possível em tempos de pandemia sem vacina. As sessões serão sempre às quintas e sextas, às 17h, até o fim de setembro, e o ingresso custa R$ 10.

 

 

“A história do teatro é tão bonita. Daqui a alguns anos vamos poder dizer que na pandemia se fazia teatro online. Como falamos do teatro ao vivo, da Tupi, pensamos como tudo mudou muito. Estamos felizes por estar na profissão, contribuir ajudando pessoas da equipe a se manter e por levar arte para o público”, resume Cabral.

Com texto de Gustavo Pinheiro, e direção de Guilherme Piva, “A Lista” traz a atriz e sua filha, Giulia Bertolli, na condução da história sobre duas vizinhas que desenvolvem uma relação durante o isolamento, sendo uma delas uma jovem cantora de ópera, e outra uma professora aposentada.

Para Cabral, mesmo com a presença das câmeras, é preciso ter em mente o tempo todo que não se trata de uma produção de TV ou cinema. “Não existe corte. Temos que deduzir o que é melhor para o público, entender que às vezes a luz pode estar boa no palco, mas não vai funcionar na tela. Tem o som também, que depende muito da internet.”

“São detalhes técnicos com que fomos aprendendo a conviver. Mas em nenhum momento, a gente se estressou. Porque nós todos estamos imbuídos do comportamento, não de aceitação, mas de não deixar a arte morrer. Faremos o que for preciso para que tudo funcione”, diz.

“Estamos em uma volta às origens do teatro, a simplicidade dele. É um resgate do teatro original de texto e ator”, entende o diretor Guilherme Piva. “Os móveis, por exemplo, são da casa da Lilia, alguns meus, outros do Renato Machado, iluminador. Os figurinos são delas próprias. Tem essa forma caseira, tendo que usar bastante a criatividade”.

A atriz conta que ela e a filha sempre tiveram vontade de trabalhar juntas, fosse em uma novela ou em um filme, e que o convite do autor para “A Lista” acabou antecipando a realização do desejo. Há cinco anos sem pisar o palco, Cabral diz que estava “sedenta de teatro”.

“Eu tinha um projeto para este ano, mas a pandemia entrou e não deu certo. E a Giulia e eu moramos juntas, então era inevitável. A pandemia interrompeu muitas coisas dos planos dela, da vida dela, então ela também achou que era a hora.”

Cabral vive Laurita, uma mulher de cerca de 60 anos, cuja existência parece parada no tempo. “Ela é extremamente mal-humorada, implicante, e acha que a vida foi injusta com ela. A filha não a visita, ela não tem um marido. Até sonha, mas fica dentro do apartamento, sem muita perspectiva”, completa a atriz.

Amanda, a personagem de Giulia, perdeu a mãe, é ignorada pelo pai, e tem que sobreviver por seus próprios recursos. “Ela também está completamente sem perspectiva. São duas pessoas extremamente solitárias, que se identificam no sentimento de rejeição, por exemplo”, diz.

Para Cabral, a arte tem o papel de uma vitamina em períodos de medo e incerteza. “Às vezes a gente ouve coisas que não precisa ouvir sobre nossa profissão. Porque nós temos compromisso, sim, com o público, com as nossas vidas e as vidas de muita gente. Lutamos todos os dias para sobreviver e mostrar nossa arte”, avalia.

“Dessa vez não tem mais ninguém no palco, mas isso não significa que estejamos sozinhos. Sentimos o calor de uma forma que sabemos que as pessoas estão lá. E a gente sabe que isso tudo vai passar, o público vai voltar. Temos que tomar essa vitamina de manhã para podermos não só sonhar, mas sentir que estamos vivos. É preciso mais do que nunca provar que estamos vivos.”