Em um longo texto publicado no Instagram, Lázaro Ramos, 41, disse que teve de recusar o convite da Mangueira para ser um dos intérpretes de Jesus Cristo no desfile da escola no Carnaval carioca de 2020.

 

 

Ver essa foto no Instagram

 

Há uma semana, recebi um dos convites mais emocionantes da minha vida. Que NÃO poderei aceitar. Primeiro, escutei da rainha maior @alcioneamarrom um samba cantado ao telefone e me arrepiei. Depois, respeitando o chamado, fui ao encontro do grande artista @_leandrovieirarj para saber melhor sobre o convite para o carnaval que a @mangueira_oficial fará este ano. Fiquei todo arrepiado. Sua benção, Estação Primeira de Mangueira. Ao me pensar como um dos Jesus, imediatamente comecei a refletir sobre qual o sentido da mensagem de Cristo para mim e, inevitavelmente, o amor vinha como protagonista. Os rostos de quem me deu amor e que davam sentido à mensagem de respeito, acolhimento e afeto que a historia de Cristo deixou pra nós, realmente tinham várias formas: É o rosto da minha tia-avó que me criou e também mais 19 crianças numa mesma casa, é o rosto dos meus mestres, que me abraçaram nos momentos de dúvida, é o rosto de um desconhecido que tocou no meu ombro e perguntou se estava tudo bem e são tantos rostos que espalham amor por aí fazendo jus à mensagem. Pensar na possibilidade do mensageiro do amor vir de forma múltipla ganhou um sentido pra mim. A partir daí, vieram as reações. Pedidos na internet para que eu aceitasse, parabenização de amigos, família excitada e alguns poucos questionando. Mas foi uma onda de amor gigante. Olha a mensagem dEle aí de novo. Mas a vida do artista é trabalhar em momentos em que a maioria das pessoas estão se divertindo. E esse é o meu trabalho, estarei trabalhando enquanto o público estará em folia. Infelizmente não poderei desfilar. Mas deixo aqui a imagem que simboliza este momento, feita por Marcondes Rocco (@marcondes_rocco). Obrigado por fazer com que eu me visse assim. Obrigado por me oferecer a oportunidade de me ver como a face do amor. Obrigado #EstaçãoPrimeiradeMangueira Todo meu respeito, gratidão e torcida estão com vocês. Tenho certeza de que será mais um carnaval poderoso. E hoje, todos os meus stories são para vocês. #mangueira2020 #averdadevosfaralivre #alcione #leandrovieira

Uma publicação compartilhada por Lázaro Ramos (@olazaroramos) em

O ator afirmou que ficou muito feliz e honrado e que recebeu muitas mensagens de apoio para que aceitasse a proposta, “e alguns poucos questionando” a escolha. “Mas foi uma onda de amor gigante”, escreveu. Apesar disso, ele revelou que vai trabalhar e, por isso, teve de negar o convite.

“Mas a vida do artista é trabalhar em momentos em que a maioria das pessoas estão se divertindo. E esse é o meu trabalho, estarei trabalhando enquanto o público estará em folia. Infelizmente não poderei desfilar.”

Ramos também contou que ficou muito sensibilizado ao refletir sobre o convite. “Ao me pensar como um dos Jesus, imediatamente comecei a refletir sobre qual o sentido da mensagem de Cristo para mim e, inevitavelmente, o amor vinha como protagonista. Os rostos de quem me deu amor e que davam sentido à mensagem de respeito, acolhimento e afeto que a historia de Cristo deixou para nós, realmente tinham várias formas: É o rosto da minha tia-avó que me criou e também mais 19 crianças numa mesma casa, é o rosto dos meus mestres, que me abraçaram nos momentos de dúvida, é o rosto de um desconhecido que tocou no meu ombro e perguntou se estava tudo bem e são tantos rostos que espalham amor por aí fazendo jus à mensagem.”

Atual campeã, a Mangueira escolheu o enredo “A Verdade vos Fará Livre”, guiado pela voz de um Jesus carioca -“Eu sou da Estação Primeira de Nazaré/ Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher/ Moleque pelintra do Buraco Quente/ Meu nome é Jesus da Gente/ (…) Favela, pega a visão/ Não tem futuro sem partilha/ Nem Messias de arma na mão”. O desfile da verde-e-rosa, que será o terceiro do dia 23 de fevereiro, será conduzido mais uma vez pelo carnavalesco Leandro Vieira.

“A história de Jesus foi várias vezes desvirtuada para dar conta de projetos de poder. O enredo resgata a história de Jesus e quer pensar quem seria esse Jesus hoje”, diz a sambista Manuela Oiticica, a Manu da Cuíca, que divide a autoria da composição com Luiz Carlos Máximo.

A dupla integrou o grupo de oito compositores de “História para Ninar Gente Grande”, o já clássico samba-enredo do ano passado, vitorioso ao celebrar o “país que não está no retrato”, lembrando a vereadora Marielle Franco, assassinada em março de 2018. Dessa vez, a crítica ao Brasil oficial assume a perspectiva de um Cristo do morro.

“Fizemos uma releitura com esse Jesus nascendo no morro da Mangueira e também sendo torturado e assassinado pelo Estado, como é a realidade de muitos da juventude brasileira. Também assassinado pelos intolerantes, pelos mercadores da fé. Acaba sendo um bom diálogo entre o Jesus histórico e a história atual”, afirma Manu da Cuíca.