“Estamos brincando de fazer cinema dentro da loucura que é uma novela”. É assim que Flávia Alessandra, 46, resume a sua nova rotina de gravações “quase artesanal” de “Salve-se quem Puder”. Por causa de todos os protocolos adotados pela Globo para minimizar os riscos de contágio do coronavírus, o ritmo de trabalho, conta ela, ficou bem mais lento.

Se antes, a atriz gravava em torno de 30 a 35 cenas por dia, agora, são 20, e isso nos momentos mais produtivos.

“Está dando certo, a gente está conseguindo rodar e está sendo muito satisfatório”, diz. Na trama de Daniel Ortiz, que teve a sua produção retomada em agosto após cinco meses de pausa pela pandemia, Flávia interpreta Helena.

 

 

Ela afirma se sentir muito segura em voltar ao trabalho com as medidas de segurança, que incluem número reduzido de pessoas nos sets, isolamento nos camarins, distanciamento, roupas especiais e máscaras. “Eu posso até pegar [a Covid-19], mas não vai ser na Globo.”

Para Flávia, as cenas mais desafiadoras são as que exigem contato entre o elenco. Isso porque, com as novas regras, é necessário que o momento seja gravado de vários ângulos diferentes: primeiro com a câmera mais fechada em um ator, e com o outro usando máscara; depois, isso se inverte. “E quando tira a máscara, bota o acrílico no meio”, relata.

Como o coronavírus não será incluído na história da novela, os atores não podem aparecer de máscaras, o que demanda o uso de efeitos especiais e a necessidade de filmagens de uma mesma cena de perspectivas variadas.

Repetir várias vezes e sustentar a emoção do que está acontecendo é o fator complicador, afirma a atriz. Flávia conta que recentemente teve de gravar uma cena longa, com contato e muita emoção ao lado de Leopoldo Pacheco, que faz o papel de Hugo, o seu marido na trama. “Eu voltei exausta. Cheguei em casa e nem jantei. Falei: ‘vou tomar um banho e deitar'”, comenta.

“Salve-se Quem Puder” volta ao ar só em 2021. A novela, que teria ainda mais 101 capítulos, será encurtada pela metade. Serão 53 novos episódios. Segundo Flávia, o público pode esperar por um enredo bem agitado. “Você terá muitos acontecimentos, revelações, será eletrizante”, conta.

REINVENÇÃO DA ARTE E SOLIDARIEDADE

Para Flávia Alessandra, o momento é muito difícil para a cultura, mas ela se diz otimista. A atriz contou que sua filha mais velha, Giulia Costa, 20, está fazendo cinema na PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica), e elas conversaram sobre uma aula recente que a estudante teve que abordar o cinema neorrealista italiano, movimento nascido no final da Segunda Guerra Mundial.

“Eu acredito no ser humano, acredito na força criativa que a arte tem. Vai ser isso, vamos fazer outros ‘Roma, Cidade Aberta’ [longa de Roberto Rossellini, de 1945], outros ‘Ladrões de Bicicleta’ [Vittorio De Sica, 1948]. Nós vamos recriar esse mundo. E eu estou aqui disponível para o cinema também”, afirmou.

Embaixadora da Brazil Foundantion e ligada a outras entidades de caráter social, durante a quarentena, Flávia contou que se envolveu muito em projetos de arrecadação de recursos para pessoas carentes. No início da pandemia, lembra ela, as doações cresceram muito. “Todo o mundo se envolvendo, foi um momento lindo”.

De dois meses para cá, porém, ocorreu uma retração, diz. “As empresas se fecharam de novo, e eu não as culpo, porque a gente não sabe o dia de amanhã, a gente não tem uma data concreta de quando vai acabar tudo isso.”

Como forma de driblar essa situação, Flávia Alessandra tirou do papel o projeto de fazer um bazar com suas roupas, sapatos e acessórios. Como não dá para ser algo presencial, a atriz criou uma plataforma online, chamada fa.forpeople, que foi lançada no dia 16 de setembro.

No site, o preço das peças varia de R$ 5 a R$ 1.800 (itens de grifes, por exemplo). De acordo com ela, 100% dos lucros da venda do bazar é destinado para a IKMR, ONG responsável por acolher e defender os direitos das crianças refugiadas e que tem a atriz como conselheira.

VIDA EM FAMÍLIA

Na quarentena, Flávia conta que ela pôde ficar mais perto das filhas -além de Giulia, fruto da sua união com o diretor Marcos Paulo (1951-2012), ela é mãe de Olívia, 9, do casamento com o apresentador Otaviano Costa, 47.

Mas nem tudo foi fácil, relata. Com os funcionários da casa dispensados, ela e o marido tiveram de se organizar para a realização das tarefas domésticas e os cuidados com as meninas. Fazer tudo isso, ao mesmo tempo, em que ambos tinham muito trabalho foi o grande desafio, comenta a atriz.

“A gente começou a combinar a nossa vida para funcionar dentro de um mesmo espaço, e essa divisão de tarefas que foi uma loucura”, afirma.

Flávia também diz que passou por ciclos durante o período de confinamento geral. Começou fazendo muitos exercícios físicos, mas depois “chutou o balde”. “Se o mundo acabar quero ser feliz, sabe…comi de tudo”.

Com o tempo, porém, ela diz que não se sentiu bem. “Comecei a entrar num processo ruim, de acordar mais tarde, e falei não, não, vou voltar com a minha vidinha, minha ioga, alimentação mais controlada para a cabeça ficar boa.”

No período, a atriz também aproveitou para ver “Êta Mundo Bom!”, trama de 2016 que foi reprisada no Vale a Pena Ver de Novo, na Globo. Na história, que bateu recorde de audiência, ela fez a vilã Sandra. Para ela, a experiência de acompanhar a novela e as repercussões nas redes sociais foi deliciosa.

“Eu não lembro de rever um trabalho meu que fosse tão gostoso, com essa possibilidade de poder acompanhar as pessoas comentando. Foi único na minha vida.”