As duas frutas falantes criadas por inteligência artificial, que viraram “estrelas” de novelas no TikTok, saíram das telinhas para arriscar um novo papel: o de personagens em uma questão de ciências sobre reprodução humana em uma prova de 9º ano, aplicada em uma escola pública de Viamão, no Rio Grande do Sul.

Na questão, Bananildo conta a Moranguete que produziria milhões de “minibananildos” todos os dias, gerados em um determinado local e enviados por um canal até outro destino. A conversa entre as frutas segue nesse tom, com analogias ao processo de produção de espermatozoides e à fecundação do óvulo. E é justamente aí que mora o problema: a tentativa de tornar o tema mais acessível para pré-adolescentes acaba levando a explicações erradas.
O primeiro erro, segundo professor-doutor de agronomia Ruy Inacio Neiva de Carvalho, ouvido pelo Portal Banda B, está na escolha do “elenco” para encenar a conversa. As bananas consumidas atualmente são frutos partenocárpicos, ou seja, desenvolvem-se a partir do ovário da flor sem a formação de sementes.
Colocar as frutas como atores deixa a abordagem mais divertida, mas afasta o aprendiz do mundo real da biologia dos seres vivos, fazendo-o imaginar que os processos reprodutivos são semelhantes ou até mesmo integrados
complementa o professor
A abordagem teve a intenção de proporcionar um raciocínio de forma lúdica sobre a reprodução humana, porém acaba por confundir o entendimento uma vez que mistura, num mesmo tema específico, seres vivos muitos diversos em sua reprodução.
Mesmo que a fruta escolhida não fosse partenocárpica, como o Abacatudo (outro personagem das novelas do TikTok), a estratégia ainda seria didaticamente arriscada. Nas plantas, os gametas masculinos são chamados de células espermáticas, e os femininos, oosferas. Usar termos como “espermatozoides” e “óvulos” no universo das frutas pode confundir os alunos.

Casca de banana: questão com personagens de ‘novela das frutas’ do TikTok
Ao utilizar o termo “minibananildos”, a questão reforça uma ideia equivocada de que o espermatozoide seria uma versão em miniatura do ser humano.
Pode haver um entendimento equivocado que todos os seres vivos se reproduzem de forma semelhante aos humanos e que os fatos descritos no texto, como a produção de “minibananildos”, ocorrem de fato nas bananeiras. A reprodução humana poderia ser abordada com a nomenclatura técnica do sistema reprodutor humano sem nenhum problema
afirma professor Ruy Carvalho
Para os especialistas, a tentativa de tornar o conteúdo mais leve para alunos do 9º ano acabou comprometendo a precisão científica.
O método pode causar confusão nos raciocínios futuros sobre a reprodução de outros seres vivos. Se pensarmos de forma inversa, percebemos a estranheza da abordagem, ou seja, se colocarmos pessoas como personagens na reprodução vegetal pode haver mesmo uma confusão na compreensão científica dos fatos.
diz o docente
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