Universidades tradicionais do Brasil, como a Insper e a Fundação Getúlio Vargas (FGV), passaram a proibir o uso de celulares em salas de aula. A medida gerou debate entre estudantes, professores e outros profissionais a respeito de liberdade e autonomia. A Banda B conversou com especialistas de diferentes áreas para entender mais acerca dessa discussão que ocorre nas instituições de ensino.

É comum nas universidades ouvir queixas de professores a respeito do uso de celular em sala de aula. Parte dos estudantes dá mais atenção às telas do que ao conteúdo que está sendo repassado, e a tendência de proibir o celular e até mesmo outros aparelhos eletrônicos, tem se popularizado em todo o mundo.
Em uma faculdade da Índia, por exemplo, é obrigatório deixar o celular em um ambiente separado da sala de aula, uma espécie de armário. Uma pesquisa realizada com 17 mil estudantes, mostra um aumento nas notas após essa medida ter sido adotada.
Vício em telas afeta funcionamento do cérebro, diz psicóloga
A Banda B conversou com a psicóloga e conselheira do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) Carla Slongo, para entender de que forma o uso do celular afeta no rendimento em sala de aula. Para a profissional, o vício em telas afeta não só o rendimento acadêmico, como também em outras áreas da vida, além de prejudicar a formação de profissionais no mercado de trabalho.
“O vício atrapalha no trânsito, dentro de casa… as pessoas esquecem a panela no fogo e normalizam esses comportamentos. O vício em telas altera o funcionamento do cérebro, altera comportamento e humor, que evolui para compulsão e dá aquela sensação incontrolável de usar o telefone”
explica.
“Quando eu estou vendo o telefone, fatalmente eu não estou prestando atenção no que está sendo dito. Nós estamos na universidade preparando profissionais para o mercado de trabalho, é o momento que a nossa atenção deve estar voltado para a formação, e aqui a gente passa a ter prejuízo, porque os processos de memorização passam a ser comprometidos quando nossa concentração não está plena”, completa.
Professora da UFPR discorda da proibição
Para a Professora Dra. Clecí Körbes, do Setor de Educação Profissional e Tecnológica e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a tendência não é proibir o uso de celular em sala de aula, mas adaptá-lo e adotar um uso consciente.
“A iniciativa de algumas instituições privadas de ensino superior de proibir o uso do celular nos espaços de ensino me parece uma estratégia para chamar a atenção sobre um problema recorrente em sala de aula (…) Apesar disso, acredito que a tendência não seja de proibição do uso do celular no ensino superior, mas de continuidade, tanto no sentido de que já fazemos isso, quanto de um processo que se iniciou na educação básica, de um trabalho educativo para sua utilização consciente e pedagógica”, explicou a Dra à Banda B.
“O propósito é que o jovem adulto aprenda a se autorregular diante das excessivas demandas da era digital, estabelecendo voluntariamente algumas restrições para alcançar os seus objetivos acadêmicos da mesma forma que nas suas atividades profissionais”, completou.
Celulares são proibidos em escolas desde o ano passado
A proibição ao uso de celular e outros dispositivos eletrônicos móveis (como tablets e relógios conectados à Internet) por parte dos alunos vale em todo o ambiente escolar, tanto nas aulas quanto nos recreios, intervalos e em atividades extracurriculares.
A medida é válida em todo o território nacional e foi sancionada pelo presidente Lula no ano passado. O uso de aparelhos eletrônicos no ambiente escolar é proibido tanto em escolas públicas quanto escolas privadas do ensino básico em todo o país.
*Felipe Valente é estagiário de jornalismo, e produz com supervisão de Lucas Sarzi, editor-chefe do portal Banda B.