O bolso do brasileiro está ficando mais leve para ingressar no ensino superior. Nos últimos dez anos, o valor mediano das mensalidades dos cursos de graduação desacelerou 33% na modalidade presencial e 55% no ensino a distância (considerando os formatos on-line e híbrido), já com a inflação medida pelo IPCA descontada do período. Os dados são da consultoria Hoper Educação. A tendência deve continuar em 2026, com projeção de queda de 4,3% nas mensalidades dos cursos presenciais e de 1,8% nos cursos EAD.

Por trás dessa redução está uma grande transformação no setor educacional. Com mais opções disponíveis, as instituições privadas passaram a disputar os alunos, enquanto os estudantes se tornaram mais criteriosos na hora de avaliar o custo-benefício da graduação. Nesse cenário, o ensino a distância ganhou força e mudou o perfil do mercado.
Enquanto as matrículas presenciais acumulam queda ao longo da última década, o EAD registrou crescimento expressivo e, em 2024, ultrapassou pela primeira vez o número de estudantes da modalidade presencial. Dos 10,2 milhões de universitários do país naquele ano, 50,7% estavam matriculados em cursos online. A diferença de preço também ajuda a explicar essa mudança, enquanto a mensalidade mediana do EAD é de R$ 214, a dos cursos presenciais o valor chega a R$ 835.
As projeções para os próximos anos indicam um mercado em constante adaptação. Embora as mensalidades possam alternar entre períodos de alta e baixa, a expectativa é de crescimento nas matrículas dos cursos presenciais e híbridos, enquanto o ensino totalmente on-line deve apresentar estabilidade. Segundo a Hoper Educação, as instituições privadas podem alcançar 9,54 milhões de estudantes até 2030, o que representa aproximadamente um milhão de matrículas a mais em comparação com a base registrada em 2026.
Mensalidades em queda! Mas desafios financeiros continuam
Mesmo com a redução dos preços, o acesso ao ensino superior ainda esbarra na realidade financeira de milhões de brasileiros. Além das recentes mudanças regulatórias que limitam a expansão de alguns cursos online, modalidade que custa, em média, três vezes menos que a presencial, o alto nível de endividamento da população continua sendo um obstáculo.
Dados do Banco Central apontam que quase um terço da renda das famílias brasileiras está comprometida com dívidas. Entre os universitários, a situação também acende um alerta. Um levantamento da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), realizado com 3,2 mil estudantes de instituições públicas e privadas do estado de São Paulo, revelou que 68,4% possuem dívidas ativas, enquanto 41,7% atrasaram pagamentos nos últimos 12 meses. Além disso, 37,2% acumulam duas ou mais dívidas simultaneamente e 74,1% não possuem reserva financeira para emergências.
A estudante de jornalismo, Fernanda Oliveira, conhece de perto os impactos que as dificuldades financeiras podem causar na trajetória acadêmica.
“Quando cursava Psicologia, tive que trancar o curso duas vezes por causa do valor da mensalidade e dos custos da vida acadêmica, que estavam fora do meu orçamento na época. É uma experiência amarga, porque o trancamento não acontece por uma escolha consciente, mas por uma condição social que dificulta muito a permanência na graduação”
afirma Fernanda.
A estudante também destaca que, mesmo quando a instituição oferece estrutura adequada, bons professores, equipamentos e acervo de livros completo, o custo ainda pesa no orçamento de grande parte dos estudantes.
“Tendo em vista que o salário mínimo atual é de R$ 1.621,00, muitas mensalidades se aproximam ou até ultrapassam a renda mensal de boa parte da população”
conclui Fernanda.
Bolsas existem, mas nem sempre chegam aos estudantes
Embora o Prouni tenha beneficiado quase 3,5 milhões de estudantes ao longo de duas décadas, o programa enfrenta um cenário contraditório. Ao mesmo tempo em que a oferta de bolsas bate recordes, a ocupação dessas vagas vem diminuindo ao longo dos anos. Em 2024, das cerca de 620 mil bolsas disponibilizadas, menos de 30% foram utilizadas. Como consequência, o percentual de vagas ociosas saltou de aproximadamente 18% há dez anos para 72% no último levantamento. No mesmo período, as matrículas realizadas por meio do programa registraram queda de 32%.
Parte dessa situação está relacionada ao próprio funcionamento do programa. As instituições privadas oferecem bolsas em troca de benefícios fiscais concedidos pelo governo federal, em um sistema diretamente ligado à arrecadação e ao faturamento das universidades. Com a redução das receitas do setor, reflexo tanto da perda do poder de compra da população quanto da diminuição de programas de financiamento estudantil, como o Fies, o modelo passou a enfrentar dificuldades. Mesmo assim, a quantidade de bolsas continua elevada porque muitas delas acabam sendo acumuladas e permanecem sem ocupação.
Mas a principal barreira está do lado dos estudantes. Mesmo quando conseguem bolsas integrais, muitos não conseguem assumir os custos indiretos envolvidos na graduação, como: Transporte, alimentação, materiais acadêmicos e outras despesas do dia a dia. Dessa forma, esses custos pesam no orçamento do estudante, e em muitos casos, ele também precisa abrir mão de horas de trabalho para frequentar as aulas, o que torna a permanência na universidade um desafio que vai muito além do valor da mensalidade.
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