Base da recuperação econômica após a recessão iniciada em 2014, o consumo das famílias brasileiras caiu 12,5% no segundo trimestre de 2020 em relação aos três meses anteriores. O dado foi divulgado nesta terça-feira (1º) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e explica parte da queda de 9,7% do PIB (Produto Interno Bruto) no período.

O consumo das famílias é o principal componente do PIB sob a ótica da demanda, respondendo por quase 70% do cálculo do indicador, e vinha sustentando a lenta retomada da economia nos últimos anos, enquanto investimentos e mercado externo oscilavam.

Segundo o IBGE, o consumo teve contração de 13,5% em relação ao mesmo período de 2019, índice que representa a maior queda registrada na série histórica, de 1996. Este foi o segundo resultado negativo desta comparação após 11 trimestres de avanço.

“O índice pode ser explicado pelo isolamento social no país, proibição de funcionamento de algumas atividades especialmente de serviços prestados às famílias, além queda da massa de salarial no país”, diz o IBGE.

Os números do PIB mostram que os investimentos públicos e privados na economia brasileira recuaram 15,4%. A chamada Formação Bruta de Capital Fixo recuou 15,2% em relação ao mesmo período de 2019.

“A queda é justificada pelos resultados negativos registrados tanto na produção interna de bens de capital quanto na construção”, diz o IBGE.

O consumo do governo caiu 8,8% em relação ao primeiro trimestre, segundo o IBGE. O resultado é influenciado por fatores como números de matrículas nas escolas públicas, internações no SUS (Sistema Único de Saúde) e gastos com salários do funcionalismo.

Outros dois componentes da demanda são as exportações e as importações. As importações caíram 13,2% e as vendas de bens e serviços para o exterior subiram 1,8%.

Comércio também registrou queda – Foto: Geraldo Bubniak/AEN

Serviços e Comércio

Principal motor da atividade econômica brasileira e maior empregador do país, o setor de serviços amargou queda de 9,7% no segundo trimestre. Foi o maior recuo desde o início da série histórica, iniciada em 1996, segundo o IBGE.

O impacto foi maior nos segmentos que mais necessitam de atendimento presencial, como alimentação, hospedagem e lazer, por exemplo. O subsetor Outras atividades de serviços, onde elas se encaixam, teve queda de 19,8% no trimestre.

Já o subsetor Transporte, armazenagem e correio -que inclui desde motoristas por aplicativo a companhias aéreas- recuou 19,3%, o segundo pior desempenho do setor de serviços no trimestre.

O comércio, que no cálculo do PIB é incluído dentro do setor de serviços, fechou o trimestre em queda de 13%, também sob impacto do fechamento das lojas em todo o país.

O setor de serviços é responsável por cerca de 70% da composição do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro, que despencou 9,7% no segundo trimestre. Segundo o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), concentra 47% dos trabalhadores formais do país.

Por isso, economistas relacionam a recuperação do emprego à retomada mais vigorosa das atividades desse setor. “A recuperação mais lenta do setor preocupa principalmente por seu peso no mercado de trabalho”, escreveram, no mês passado, analistas do banco UBS.

Entre os três grandes setores da economia, é o que tem apresentado menor dinamismo com o relaxamento das medida de isolamento. Enquanto indústria e comércio começaram já em maio a se recuperar dos tombos recordes de abril, os serviços tiveram a primeira taxa positiva em junho, mas permaneceram perto do piso histórico.

A retomada enfrenta como obstáculos as restrições ao funcionamento de parte dos estabelecimentos -restaurantes com capacidade reduzida e cinemas e teatros fechados- o elevado desemprego que reduz o poder de compra da população e o próprio temor de contaminação, que leva muitas pessoas a evitarem o risco de aglomeração.

Mudanças de hábitos provocados pela pandemia devem dificultar ainda mais para setores específicos, como o de turismo corporativo, cujas vendas caíram quase 90% e continuarão sofrendo efeitos do maior uso de reuniões online e das dificuldades financeiras das empresas para bancar viagens.

Ou dos serviços profissionais e administrativos, que incluem limpeza e segurança predial e devem sofrer com o uso mais disseminado de trabalho remoto após o fim da pandemia.

Por outro lado, sofreram menos no segundo trimestre atividades como intermediação financeira ou imobiliárias, que tiveram alta de 0,8% e 0,5%, respectivamente.