As desigualdades no mercado de trabalho evidenciam que as empresas têm um grande desafio pela frente relacionado à equidade de gênero. Um estudo recente da McKinsey & Company destaca alguns problemas que precisam ser superados. Além da diferença salarial, que será refletida em uma menor aposentadoria no futuro, as mulheres sofrem mais microagressões no ambiente de trabalho.

“Nos últimos anos, vimos ganhos significativos na representação de mulheres em lideranças sênior, o que é um passo importante na direção certa, e mostra o que as empresas podem alcançar quando compreendem bem um problema e se concentram em resolvê-lo. No entanto, o progresso tem sido lento e vemos uma sub-representação persistente de mulheres negras -a verdadeira igualdade ainda parece distante”, cita Fernanda Mayol, sócia da McKinsey & Company.

Neste contexto, a economista e pesquisadora Marilane Teixeira, da Unicamp, ressalta a importância de debates, sensibilização e iniciativas para criar ambientes de trabalho mais saudáveis e equitativos.

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As mulheres negras estão em maior número na taxa de desemprego, diz a economista e pesquisadora Marilane Teixeira – Foto: Adobe Stock

“Os dados do quarto trimestre de 2023, do IBGE, mostram um número muito expressivo de mulheres fora da força de trabalho, em torno de 43 milhões. O número de mulheres nessa condição é o dobro dos homens [sendo 24 milhões de homens desempregados], o que chama muita atenção”, analisa Teixeira.

Apesar das políticas de ampliação do mercado e estímulo à formalização, o levantamento mostra que as disparidades de gênero e raça persistem com mulheres, especialmente negras, enfrentando condições desfavoráveis e jornadas extensas de trabalho não remunerado.

Desigualdade salarial se reflete na aposentadoria

Quando citamos disparidade salarial, entramos também no mérito da previdência. Em geral, as mulheres tendem a receber benefícios previdenciários menores do que os homens devido a uma combinação de salários mais baixos ao longo da vida, maior incidência de trabalho informal, além de interrupções na carreira para cuidar da família, explica Priscila Arraes Reino.

A advogada cita que, como resultado, as mulheres contribuem menos para a previdência e, consequentemente, recebem aposentadorias menores do que os homens. Com a reforma da Previdência de 2019, o aumento da idade mínima para mulheres, agora em 62 anos, aproximou os critérios previdenciários dos homens, mas ainda há desafios significativos a serem superados para garantir uma aposentadoria justa para as mulheres.

“É preciso tratar diferente as mulheres que cuidam dos filhos, isso deveria ser considerado um trabalho, ainda que não seja remunerado, mas contando para fins de aposentadoria. A criação de filhos importa para a sociedade como um todo, a sociedade não dá conta de receber todas as crianças em creches e assim por diante”, completa Priscila Arraes Reino.

Microagressões no ambiente de trabalho

Para além de números e falta de equidade, um outro ponto delicado do ambiente de trabalho é a salubridade. A pesquisa da McKinsey & Company ressalta também como as microagressões têm um impacto significativo nas mulheres, escrachando o desrespeito e causando estresse, afetando negativamente suas carreiras e saúde. Em relação aos homens, essas agressões têm uma incidência muito maior, o que só aumenta com mulheres LGBT, não brancas e com alguma deficiência física.

As microagressões configuram comentários, atitudes ou ações sutis e frequentemente não intencionais que denotam preconceito, discriminação ou estereótipos em relação a características de uma pessoa, como gênero, raça, orientação sexual, idade, deficiência, entre outros.

“A complexidade é muito maior, porque as pessoas, no geral, têm que esconder uma deficiência ou a orientação sexual para poder ser aceita”, diz Fernanda Mayol, sócia da McKinsey & Company.

Cerca de 78% das mulheres que enfrentam microagressões no ambiente de trabalho optam por se proteger, ajustando sua aparência ou comportamento para evitar confrontos. O estudo cita que muitas delas escolhem não expressar suas opiniões ou compartilhar suas preocupações para evitar serem percebidas como difíceis ou agressivas pelos colegas.

Mulheres que lidam com esse tipo de comportamento têm três vezes mais chances de considerar deixar seus empregos e quatro vezes mais chances de se sentirem frequentemente exaustas.

Neste ponto, Marilane Teixeira cita que para melhorar o ambiente para as mulheres, é preciso alterar a cultura organizacional para promover um ambiente mais equitativo e saudável.

“É necessário promover e estimular esse tipo de discussão, organizar debates, seminários, simpósios e cursos. Além de tentar sensibilizar acerca desse fatores sociais para, visando a importância da temática da igualdade do trabalho para criar um ambiente mais salubre e equitativo. Um ambiente de maior equilíbrio e equidade, além de organizar mais iniciativas para debater os sistemas e criar canais de denúncia é muito importante, o que traz visibilidade para essas práticas”.

Em geral, Teixeira ainda ressalta que esse tipo de cultura melhoraria a empresa em si no sentido das funcionárias se sentirem mais motivadas. Um outro lado que ela também cita, é da importância de uma educação sexual nas escolas, para que desde cedo as crianças e adolescentes tenham noção dos limites, para que as futuras gerações possam nutrir ambiente de trabalho ainda melhor e igualitários.

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Mulheres sofrem mais microagressões no ambiente de trabalho e têm aposentadorias menores

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