A queda do agora ex-ministro da Justiça Sergio Moro faz o mercado financeiro traçar, nesta sexta-feira (24), cenários de total instabilidade política e econômica. O contexto é agravado pela crise econômica causada pela pandemia do novo coronavírus.

Analistas e economistas apontam desde o risco de que Paulo Guedes seja o próximo a cair até chances de que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), decida abrir um processo de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

O retrato dessa incerteza é a alta do dólar, que superou os R$ 5,70. A Bolsa brasileira recua e chegou a flertar com um novo circuit breaker -mecanismo de proteção a investidores acionado quando o Ibovespa cai mais de 10%.

“O cenário é nebuloso, é complicado. Acho que a tendência é que isso se escale, é difícil encontrar alguma maneira de o Bolsonaro reverter esse quadro. Ele está sem apoio tanto político quanto popular e temos alguns pontos-chave, que é como vai ser a reação do Rodrigo Maia, que pode abrir um pedido de impeachment e isso pode acelerar”, afirma Luis Sales, analista da Guide.

“A gente pode ter abertura de investigações com relação ao Bolsonaro”, disse ele, em referência a afirmações feitas por Moro na entrevista em que anunciou sua demissão.

O ex-juiz da Lava Jato afirmou que Bolsonaro pretendia fazer uso político da Polícia Federal e queria acesso direto ao chefe do órgão.

A retirada de Mauricio Valeixo do comando da PF foi o estopim para a queda de Moro.

Moro afirmou ainda que o presidente estava incomodado com investigações do STF (Supremo Tribunal Federal).
“É um cenário já de crise. Por conta da pandemia, [Bolsonaro] já vinha perdendo bastante apoio popular e também credibilidade mesmo no âmbito político”, acrescentou Sales.

“É uma crise que pode ser uma crise de saúde que se caminha para uma crise política e econômica por perda de credibilidade também”, completou.

Cassiano Leme, presidente da Constância Investimentos, afirmou que a queda da Bolsa não reflete apenas a saída de Moro, mas os riscos que as afirmações feitas trazem ao país.

“O que faz preço na Bolsa não é propriamente o combate à corrupção [associado a Moro], mas talvez em um sentido de mais longo prazo da instabilidade geral do país”, afirmou.

Ele pontuou que será difícil prever o próximo movimento do governo.

 

Rovena Rosa/Agência Brasil

 

Consenso entre analistas é que a permanência de Guedes, o fiador econômico de Bolsonaro desde a campanha eleitoral, está sob questionamento.

“Poderá haver outra instabilidade nos outros ministros, importantes para a própria caminhada econômica”, disse Leme.

“O desafio do presidente de rearticular e criar uma nova base política se renova. É algo que vem desde a saída do [do presidente] do PSL. Justiça e Economia eram os baluartes do governo. Essa saída levanta rumores sobre a saída de Guedes e isso é muito negativo”, afirma Ilan Arbetman, analista da corretora Ativa.

A leitura de André Perfeito, economista-chefe da Necton, é que a queda de Moro facilita a aproximação de Bolsonaro com o centrão. Nas últimas semanas, o presidente vinha articulando uma coalizão para tentar isolar Rodrigo Maia.
Isso colocaria sob risco a agenda econômica, ainda mais em um cenário já complicado pelos efeitos econômicos causados pela pandemia do novo coronavírus.

“Guedes não está disposto a fazer isso porque ele é um cara coerente. O problema é que o que o presidente vai exigir dele é muito mais do que talvez ele esteja disposto porque ele acredita que existem questões fiscais de longo prazo que ele precisa controlar”, afirmou.

“A pressão política que culminou [na demissão de] Valeixo e Moro são as mesmas que vão para cima do ministro Paulo Guedes.”

Sales, da Guide, tem avaliação semelhante.

“Fica também a dúvida com relação ao Paulo Guedes, porque a principal causa dele são as reformas. Não temos nenhum tipo de ambiente para isso e o que sobra são estímulos fiscais, que é contra a política e visão do ministro e também contribuiu para uma deterioração das contas públicas”, completa.