Os primeiros efeitos da paralisação de atividades econômicas em razão da pandemia do novo coronavírus estão começando a aparecer. O índice de evolução da produção nacional da indústria registrou 26 pontos em uma escala de 0 a 100. Nessa metodologia, os valores abaixo de 50 pontos mostram queda.

No Paraná, a atividade econômica recuou 28,8%  entre 7 de março e 19 de abril, segundo o boletim conjuntural elaborado pelas secretarias de Planejamento e Projetos Estruturantes e da Fazenda. Comércio e alimentação tiveram queda de 24% e a indústria de 35,3%.

Indústria está voltando a operar – Foto: Fiep

E como enfrentar e sobreviver diante desta crise mundial? No Dia Nacional da Indústria, a Banda B ouviu o presidente da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), Carlos Valter Martins Pedro. Ele assumiu em outubro quando as perspectivas de crescimento da economia eram as melhores possíveis. Em março veio o baque com o coronavírus e Carlos disse aos amigos “não é possível que eu seja tão pé-frio assim”.

Em entrevista a Paulo Sérgio Debski e Denise Mello, no Jornal da Banda B 1ª edição desta segunda-feira (25), o presidente da Fiep disse que se por um lado esta crise nos coloca em um momento totalmente novo, com incertezas em relação à atividade econômica do que vem depois, por outro, gera oportunidades e faz o brasileiro lutar para sempre se renovar.

Carlos valter Martins Pedro – presidente da Fiep – Foto: Divulgação

 

Acompanhe a entrevista de Carlos Valter Martins Pedro à Banda B no Dia Nacional da Indústria:

Banda B: Qual o tamanho do impacto da pandemia do coronavírus para a indústria paranaense?

Carlos Pedro: Sem dúvida, há um grande impacto. Muitos dizem que ainda nem chegamos ao pico da pandemia. Há muitas projeções e expectativas sobre como será o pós-pandemia, qual o tamanho que a economia terá depois. Hoje é o Dia da Indústria e garanto que nunca tivemos um Dia da Indústria com tão pouca movimentação industrial como agora, mas a expectativa é de que isso tudo passe, e em breve.

Banda B: Presidente, ainda sobre este impacto, hoje, dois meses depois do começo da pandemia, quais números a indústria pode apresentar, em termos de produtividade e desemprego?

Carlos Pedro: Na segunda quinzena de março, praticamente fechamos as indústrias, exceto, é claro, as de atividades essenciais, como alimentos. Então, num primeiro momento, o objetivo era proteger a saúde do trabalhador e do industriário, e seguir as normas de segurança dadas pelas autoridades de Saúde.

Depois disso, começamos a trabalhar com banco de horas, retendo ainda funcionários em casa, adiantando férias e assim por diante.

Depois veio a Medida Provisória 936, como uma ajuda para a decisão do industriário sobre o que fazer, dada a situação de incerteza absoluta em relação ao que virá pós-pandemia, qual o tamanho que a economia vai ter.
Então, temos uma situação de insegurança em que vamos precisar melhorar processos, melhorar produtividade, diminuir custos.

Aliás, não dizem que os brasileiros têm memória curta? Tivemos, ao meu ver, a maior crise econômica deste país entre 2014 e 2018, com anos de retração brutal. Ano passado (2019), estávamos com uma esperança gradual e constante de retomada da atividade econômica. Os números estavam começando a ficar mais estáveis, juros e patamares mais honestos, inflação controlada, então havia uma boa expectativa.

Lamentavelmente, ninguém esperava esse fenômeno do vírus, que com essa abrangência mundial nos coloca em um momento totalmente novo, com incertezas em relação à atividade econômica que vem depois.

Mas a crise gera oportunidade, e nós brasileiros estamos acostumados com essa luta por sempre renovar. É para isso que estamos nos preparando.

Banda B:  Presidente, para uma indústria ligar uma máquina, precisa de alguém na outra ponta, nos comércios, supermercados, para comprar seus produtos. Será que vai haver essa demanda? No momento, toda a indústria está funcionando, ou ainda não?

Carlos Pedro: O círculo precisa fechar. Estamos voltando ao trabalho no Paraná. Temos restrições em muitos municípios, mas estamos fazendo isso de forma gradual, com toda segurança aos nossos funcionários, com a recomendação do distanciamento, uso de outras recomendações sanitárias e assim por diante.

Mas ligando as máquinas aos poucos, porque ainda não fecha esse ciclo que você cita na sua pergunta. Estamos produzindo. A indústria produz. O comércio ainda está fechado em muita parte, não funciona em sua totalidade, mas de fato, o ciclo só se fecha com o consumidor tendo confiança em comprar. E, nesse momento, a segurança do consumidor – principalmente para comprar bens duráveis – está mais baixa. Ainda não temos essa segurança quanto a isso, precisamos recompor este círculo o mais breve possível. É essa capacidade e confiança de consumir que vai ajudar a fechar este ciclo novamente. Máquinas ligadas, produzindo, mas ainda em quantidades mais baixas.

Banda B: E com relação ao isolamento social, presidente, qual é o posicionamento da FIEP?

Carlos Pedro: Acima de tudo, a vida e a saúde. Hoje temos uma população consciente, todos sabem da absoluta necessidade dessa forma de proteção. Mas a atividade econômica trata da saúde financeira, da dignidade do trabalho, do salário, do sustento da família – isso é a dignidade da pessoa, que pode prover as necessidades básicas da sua família. Isso é vital. Por isso, nós da FIEP somos favoráveis à reabertura da indústria e do comércio de forma gradual, com regras pré-estabelecidas, com controle, com informações circulando de forma adequada. Somos sim pela reabertura constante e gradual da economia.

Banda B: Muitos comerciantes infelizmente têm declarado falência, fechado portas, nesse momento difícil. A indústria tem mais força que seus parceiros do outro lado da linha, mas, entre os industriais, essa dificuldade também está sendo encontrada?

Carlos Pedro:  A indústria é diferente, mais complexa, e por isso é mais difícil tomar uma decisão de fechamento, por exemplo. O processo é mais lento na área de indústria, depende de muitas situações, até burocráticas. Ainda não tenho, no entanto, informações seguras sobre fechamentos nesse período, números precisos sobre isso.

O comércio e a área de serviços têm sofrido muito. Imagine que uma cidade como Maringá tem passado algumas semanas sem receber nenhum voo em seu aeroporto. As pessoas não estão viajando. Então, há setores mais afetados que o nosso da indústria. A decisão de fechamento acaba sendo mais difícil pra gente. Mas é lamentável que a baixa atividade econômica esteja gerando isso, porque são empregos que se perdem. E são muitos.

Banda B:  Presidente, o senhor assumiu seu cargo em outubro de 2019, quando havia perspectivas muito boas para a economia, um certo ânimo no ar, e cinco meses depois se vê à frente da Federação das Indústrias com uma pandemia que parou o mundo. Como o senhor encara isso e como está sua rotina hoje?

Carlos Pedro: Até tenho amigos com quem brinco que “não é possível que eu seja tão pé-frio assim”. Mas de fato, havia muitas boas expectativas em relação à economia. Essa crise do coronavírus, que ninguém no mundo esperava, afeta demais.

No comando de uma entidade como a FIEP, ou mais que isso, o Sistema FIEP, que defende os interesses, o SENAI na qualificação e tecnologia, o SESI na saúde e segurança, o IEL na educação executiva, e assim por diante, temos toda uma estrutura em prol da indústria. Um grande aparato de pessoal e equipamento para prestar esse serviço, e de repente temos hoje a imensa maioria dos nossos funcionários trabalhando remotamente, cursos suspensos e tal, realmente é difícil.

Só que isso também traz oportunidade. O que precisamos valorizar é essa chance de reindustrializar o nosso país. Não podemos ter essa dependência tão latente de componentes importados até nas coisas mais simples.

Por exemplo, no começo da crise vimos o governo brasileiro enviando aviões para buscar máscaras na China, e hoje a indústria do setor vestuário brasileiro já se qualificou e já virou a sua produção, está empregando tudo que for necessário para suprir nossa demanda. É nossa oportunidade de não sermos tão dependentes do processo de importação.

Precisamos defender a indústria, tirar os custos que compõem o produto comprado, que é mais caro do que o oferecido lá fora por causa da tributação, que é injusta com o produto fabricado no Brasil. É caro fabricar no Brasil, Precisamos mudar essa composição.

Nosso problema não é a capacidade produtiva, temos grande capacidade, um grande mercado, um grande parque industrial, maquinário moderno, isso não é problema. O que precisamos é de uma formação de preço mais justa para o produto brasileiro. É uma oportunidade, e confio muito nessa possibilidade.

E acho que é obrigação de um sistema como o FIEP é defender essa causa da proteção e da valoração da indústria do Brasil, da indústria do Paraná.