“Tenho que lutar por mim ou desistir de vez”. Foi isso que a curitibana Cilmara, que terá o sobrenome preservado nesta reportagem, pensou quando decidiu sair de um casamento após 21 anos de agressões físicas e psicológicas. Sendo financeiramente dependente do marido, ela encontrou no empreendedorismo feminino o “socorro” que precisava para deixar a relação. 

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O Paraná tem 32% dos empreendimentos conduzidos por mulheres (Foto: Divulgação Sebrae)

“Eu prestei vestibular, passei e fazia faculdade escondida. Foi quando ele descobriu e eu não consegui fazer mais nada, tive que trancar o curso. Eu queria levantar um dinheiro porque eu coloquei no meu coração que queria fazer pedagogia. Então, comecei a fazer em casa macarrão caseiro, bolachinha de Natal, bolachinha de polvilho, bolos caseiros. Quando eu fugi de casa, foi isso que me ajudou a conseguir dinheiro para poder me virar”, contou à Banda B.

O primeiro passo para longe da violência estava dado. A venda de alimentos caseiros cresceu e, aos poucos, a Cilmara garantiu uma independência, que nunca tinha imaginado antes. 

“Eu não reconheço mais a Cilmara do passado. Eu olho para trás e às vezes eu choro, porque nas fotos há muita mudança. Esses dias minha filha pegou meu celular e falou ‘Mamãe, nem parece você’. E não parece mesmo. Eu era uma pessoa que permitiu que apagasse a vida que existia dentro de mim. Eu tinha desistido de mim”, disse emocionada.

“Empreender salvou a minha vida”

Mãe de quatro filhos (5, 9, 16 e 18 anos), a Gabrielle Fagundes de Oliveira tem certeza que empreender salvou a vida dela. A mulher estava em um relacionamento em que era totalmente dependente do marido. Aguentou todos os tipos de violência e abuso.

“Foi um período bem complicado e difícil da minha vida. Quando eu me dei conta de tudo o que acontecia e que eu precisava sair, eu me vi com quatro filhos e com uma condição financeira amarrada porque a gente tinha a empresa juntos e o nosso dinheiro vinha do mesmo lugar. Foi quando eu comecei a pensar de que forma eu conseguiria me desvencilhar da questão financeira“, lembrou. 

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Gabrielle criou o brechó em 2019 e hoje sustenta os quatro filhos com a renda dele (Foto: Acervo Pessoal)

A curitibana planejou o projeto do brechó durante um ano. Para juntar dinheiro para abrir o negócio, trabalhou como faxineira e repositora de mercado.

“Eu não tinha reserva, eu não tinha nada. Fiquei com dívidas no cartão, comprometi meu nome. Eu precisei acreditar e criar coragem. Costumo falar que: dá o passo, que Deus lhe dá o chão[…] Todo começo de empreender não é fácil. O meu brechó não me dava uma condição suficiente para me manter. Eu tinha muito medo porque eu pensava: preciso dar conta dos meus filhos”, detalhou. 

Apesar das dificuldades no início, hoje o “Brechó da Maravilhosa” é um sucesso e toda a renda da Gabrielle vem dele. A empresária faz vendas online e físicas, montando malas com roupas seguindo o gosto do cliente. 

“Empreender salvou a minha vida. Às vezes dentro de um relacionamento abusivo a gente fica imaginando o quão ruim será se a gente sair, mas o que eu posso dizer é que nada é pior do aquilo que você está vivendo, porque toda dificuldade que eu passo hoje é uma dificuldade com paz, com tranquilidade. Para mulheres que estão como eu estava, digo que empreender é uma excelente forma de conquistar a liberdade”, destacou. 

“Quando uma mulher junta forças, ela consegue”

Jaqueline Wroblewski, conhecida como Jaque do Morango, é mais uma mulher que viu a esperança no empreendedorismo. Há dez anos, ela deu o primeiro passo: resolveu vender ovos, pães e morangos em semáforos de Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba. Era a oportunidade que tinha para não depender mais do marido, que sempre foi bastante controlador e agressivo. 

“O casamento foi me fechando as portas, porque fui me dedicando ao marido, a casa, aos filhos, e eu me esqueci. Isso foi muito difícil para mim, confesso que muitas vezes pensei em tirar minha vida, porque a pressão era muito grande. Eu não suportava a violência psicológica. Ele só me colocava para baixo, dizia que eu não era capaz”, lamentou. 

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A Jaque, que agora é conhecida na cidade, dá palestras para ajudar outras mulheres (Foto: Acervo Pessoal)

As vendas no semáforo ganharam uma proporção maior e logo a empreendedora viu a necessidade de formalizar o negócio. 

“Eu comecei a conquistar muitos clientes e a coisa começou a ter um tamanho bem maior. Passei a produzir mais, a levar morango, geleia e ovo. E assim eu fui fazendo a minha clientela. Tentaram me enfraquecer, mas quando uma mulher junta forças ela consegue”, ressaltou.

A Jaque, que agora é conhecida na cidade, dá palestras outras mulheres que vivem situação semelhante.

“Empreender para mim foi uma fuga. Eu precisava fazer algo diferente por mim e pela minha família. Nessa minha busca, eu fui conversando com muitas pessoas, eu fui sendo valorizada, eu fui sendo querida. Isso resgatou, inclusive, a minha autoestima. Além do dinheiro, eu consegui me encontrar novamente”, concluiu. 

“Todas as mulheres têm capacidade para o empreendedorismo”

Para sair de um relacionamento abusivo, a Patrícia Baudy começou a vender joias de porta em porta. Ela tinha vontade de deixar o casamento, mas não encontrava uma forma de se manter sozinha financeiramente.

Bater de casa em casa foi o início de um sonho. Em pouco tempo, a mulher – que antes não tinha controle da própria vida – se viu dona de um CNPJ. 

“O meu problema maior era a parte financeira para conseguir me desligar desse relacionamento. Foi quando resolvi me separar e abrir uma empresa. O negócio cresceu e hoje a minha empresa é focada em ajudar mulheres a ter uma renda extra”, celebrou. 

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Patricia abriu um CNPJ e hoje emprega outras mulheres (Foto: Acervo Pessoal) 

Atualmente, a microempresa tem revendedoras em Curitiba, Litoral do Paraná, Ponta Grossa e Joinville, em Santa Catarina. Parte delas também foi vítima de violência. 

“Todas as mulheres têm capacidade para o empreendedorismo, seja ele qual for. Existem vários estilos de empreendedorismo. É muito importante essa parte da economia para quebrar o ciclo de violência […] Não se cale, não pare, continue voando. Às vezes temos momentos que precisamos entender o que realmente a gente precisa na vida, para prosperar e ajudar umas às outras. Nós somos força”, finalizou. 

Dependência financeira e o medo de denunciar

Uma pesquisa do Observatório da Mulher, em parceria com o DataSenado, aponta que 46% das vítimas de violência doméstica não denunciam os agressores porque dependem financeiramente deles. O motivo é o segundo que faz com que as mulheres fiquem caladas, perdendo apenas para o “medo do agressor”, que representa 75% das respostas. 

“A violência maior começa pela violência psicológica, passando pela violência patrimonial, ao qual ele diz que ela vai perder tudo, que ela não tem direito a nada, que não pode trabalhar. Elas se sentem muito amedrontadas”, citou Mari Piancor, mentora do projeto Ressignificando Histórias de Rosas, que atende mulheres em situação de violência doméstica. 

Desde 2018, a Larissa Hack coordena o Instituto Batom que faz o acolhimento de mulheres em situação de vulnerabilidade. O trabalho é focado especialmente na questão da pós-violência e como essa vítima poderá continuar a vida. 

“A renda, a independência econômica, é um fator decisivo para que essa mulher se mantenha distante do ciclo de violência, porque a violência não se rompe só uma vez e acabou. Para que a mulher consiga manter essa autonomia a gente entende que se ela for protagonista da sua renda é muito mais fácil que ela consiga se manter distante de abusos”, pontuou. 

Daniela Vitorino, coordenadora do programa Empreendedora Curitibana, acredita que as conexões entre as empreendedoras são fundamentais para fortalecer quem enfrenta uma dificuldade, porque na maioria das vezes essas mulheres foram desencorajadas pelo ex-companheiro. 

“O empreendedorismo é uma porta libertadora no sentido de reafirmação e reposicionamento de identidade enquanto mulher. A gente busca afirmar a constância de autoafirmação e quebra de filtros negativos que culturalmente nós mulheres crescemos achando que não podemos lidar e atuar em determinados segmentos de mercado, que somos incapazes de abrir o próprio negócio”, considerou. 

“Elas não estão sozinhas”

O Paraná tem 32% dos empreendimentos conduzidos por mulheres, ou seja, um em cada três negócios são comandados por elas. Os dados fazem parte da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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Divulgação Sebrae Paraná

A consultora do Sebrae Paraná, Janaina Dib, citou que as empreendedoras enfrentam vários desafios, porque além de estarem à frente de um negócio, têm as jornadas como mães ou chefes de seus lares. Por isso, uma forma de auxiliar nesse processo é o projeto Sebrae Delas. 

“O Sebrae Delas vem para capacitar e auxiliar em todas essas dificuldades que a empreendedora enfrenta: em relação a dupla, e às vezes até tripla, jornada de trabalho; e o apoio comportamental, porque muitas mulheres sofrem com a síndrome da impostora achando que não é capaz. Com esse núcleo, com várias mulheres juntas, elas veem que uma apoia a outra, que a dificuldade de uma também é a dificuldade da outra”, explicou em entrevista à Banda B. 

Janaina destacou que não existe um perfil de mulher empreendedora, o importante é querer empreender. 

“A mulher tem várias faces, vários jeitos. Aquela mulher que tem vontade, que quer empreender, esse é o perfil. Ela tem que ter força de vontade e desejo, o resto a gente apoia [….] A primeira coisa é buscar um escritório, um ponto de atendimento ou uma sala do empreendedor do Sebrae Paraná. Onde ela encontra a orientação que ela precisa. É totalmente gratuito”, afirmou. 

A consultora ressaltou que o Sebrae Paraná também ajuda essas mulheres a enfrentarem o medo, seja no âmbito profissional ou pessoal. 

“A gente fala muito no encontro do Sebrae Delas: ‘Não importa, vai com medo mesmo’. Às vezes o medo ele instiga, ele te fortalece para seguir em frente. Todo mundo tem medo, mas tendo uma boa rede de apoio, estando bem capacitada, tendo bastante conhecimento na área, o medo você supera […] O Sebrae está aqui para apoiá-las em qualquer situação, seja pessoal ou profissional. Então, venha até o escritório, venha conversar conosco, que vamos resolver juntas. Elas não estão sozinhas”, finalizou. 

O telefone do Sebrae para mais informações é o 0800-570-0800. O atendimento funciona 24 horas e durante todos os dias (inclusive aos domingos). 

Denúncia

Se você é vítima de violência doméstica ou conhece alguém passando por isso, denuncie por meio da Central de Atendimento à Mulher no telefone 180. A ligação é gratuita e o serviço funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana.

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Empreendedorismo feminino salva mulheres do ciclo de violência doméstica: “Elas não estão sozinhas”, garante consultora do Sebrae

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