Receber um pedido via delivery parece algo normal no dia a dia, mas nas comunidades periféricas a realidade é bem diferente. A classificação como “região de risco”, feita pelas empresas, faz com que moradores das chamadas favelas não tenham acesso a um serviço considerado comum.

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A Papoom começou a operar em fevereiro do ano passado e até o fim do mês deve estar em outras comunidades do país (Foto: Hully Paiva – SMCS)

Foi a dificuldade em conseguir entregas na região da Vila Torres, em Curitiba, que motivou o morador Jean Pierre da Silva a criar a startup Papoom, um aplicativo que funciona como um marketplace exclusivo para comunidades.

“Eu precisei comprar algo para comer e eu entrei em um aplicativo. Neste aplicativo eu coloquei o meu endereço e a resposta foi ‘a gente não atende na sua região’. Eu fiquei incomodado com isso, entrei no site e coloquei o meu endereço. Eles haviam retirado a Vila Torres da área de atendimento deles”, disse à Banda B.

Naquele momento, Jean pensou em unir os moradores que queriam comprar com os empreendedores da própria Vila Torres.

“Aí me veio a ideia: por que não existir uma plataforma que conectasse consumidores como eu, que estão dentro da comunidade, com pessoas que também são da comunidade e estão vendendo alguma coisa?”, lembrou.

De olho nas oportunidades

A ideia deu tão certo que, em dez meses de operação na Vila Torres, a Papoom soma mais de 5,6 mil pedidos e 230 vendedores cadastrados. Juntos, eles oferecem alimentação, produtos, serviços e imóveis.

O comerciante Diego Souza é dono de uma distribuidora de água e gás na comunidade. Antes do aplicativo, ele recebia os pedidos direto no balcão e a clientela não era tão grande.

“É bem mais fácil pra pessoa fazer o pedido sem sair de casa e pra gente aceitar e ver todos os dados com endereço e forma de pagamento. Acabou ajudando bastante nas vendas, com um aumento de 20% a 30%, aproximadamente. O pessoal da Papoom tem feito uma divulgação bem boa, o que acaba alcançando um número maior de moradores aqui da região”, citou em entrevista à Banda B.

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Diego Souza é dono de uma distribuidora e viu as vendas aumentarem em 30% após a Papoom (Fotos Acervo Pessoal)

Além de fornecer serviço, Souza passou a usar a Papoom para fazer pedidos, porque sempre encontrou dificuldades quando queria utilizar uma ferramenta de delivery.

“Só quem mora na comunidade sabe o problema que tem com relação a aplicativos, seja pra alimentos ou outro tipo de serviço. Normalmente, quando você faz pedido por aplicativo dentro da comunidade é cancelado, o pessoal não vem, não traz. Isso acabava prejudicando e a comunidade de certa forma acabava ficando excluída desse tipo de serviço”, lamentou.

O Pedro Augusto Pereira tem uma hamburgueria na Vila Torres desde 2019. Por um motivo pessoal, ficou afastado dos negócios e reassumiu no início do ano passado, pouco depois que a Papoom foi lançada. Ele, que já era usuário do aplicativo, aderiu também nos negócios.

“De agosto a dezembro, a Papoom foi responsável por 70% dos meus pedidos. Foi um ganho bem expressivo, eu saltei de um entregador que fazia tudo de bicicleta, para três entregadores com moto em seis meses. O aplicativo auxilia que a gente possa vender mais e faz com que a gente faça a comunidade prosperar. Eu saí de um comércio que era eu, minha esposa e uma tia, para uma empresa com dez funcionários”, comemorou.

Para Pereira é crucial enxergar as coisas boas da Vila.

“É olhar para dentro da comunidade e ver que aqui a gente tem um espaço de crescimento muito grande. Que a gente pode sim servir para fora da comunidade, mas a gente não precisa virar as costas e achar que dentro da comunidade não iremos ter clientela”, analisou.

Os lanches do Pedro Augusto Pereira fazem sucesso da Vila Torres e são campeões de vendas no aplicativo (Foto Acervo Pessoal)

Reforço no comércio local

A população da Vila Torres é estimada em 8 mil habitantes, mais da metade deles (4,5 mil) usa o aplicativo. Ao todo, foram movimentados cerca de R$ 130 mil dentro da comunidade.

“A gente trouxe uma nova forma de conexão entre essas pessoas e através dessa conexão a gente gerou negócios. Esse era um dinheiro que poderia ter saído da comunidade e através da Papoom a gente fortalece a economia interna e o comércio local”, reforçou Jean.

Com a parceria do Sebrae-PR (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), a startup oferece consultoria gratuita para os empreendedores da região.

“A gente também dá para esses empreendedores um processo de capacitação e formação através do Sebrae, que é um parceiro. Mensalmente a gente leva um especialista para falar de pontos e temas que são dificuldades desses empreendedores para que eles possam crescer”, afirmou.  

Em entrevista à Banda B, o coordenador de TIC e Startups do Sebrae, Rafael Tortato, citou que entre as orientações dadas está justamente a identificação de problemas reais, como o Jean fez.

“É muito importante para o empreendedor identificar problemas reais. Então, quando um empreendedor identifica que tem algo que ainda não está sendo bem solucionado e ele propõe uma nova solução, a gente pode chamar isso de inovação. Isso permite que se torne uma oportunidade para o mercado. Muitos empreendedores passam por uma situação de um problema que não é resolvido e acabam propondo uma solução que se torna um negócio muito bem-sucedido”, explicou.

Da Vila Torres para outras comunidades do país

Segundo o Censo Demográfico 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país possui 11.403 favelas. A vida nas comunidades é a realidade de mais de 16 milhões de brasileiros.

Para melhorar a rotina dessas pessoas, a Papoom tem projetos de ampliação para estados como Rio de Janeiro e São Paulo. Até o fim de junho, de acordo com Jean, o aplicativo deve começar a funcionar no Complexo da Maré, que reúne 15 comunidades e cerca 150 mil habitantes na capital carioca.

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Jean está em negociação para expandir a Papoom para outras comunidades do país (Foto: Hully Paiva – SMCS)

Também há negociações no Complexo da Penha e Alemão, ambos no Rio; Paraisópolis, em São Paulo, e nas comunidades da região do CIC, Parolin e Tatuquara, em Curitiba.

“Nós identificamos que as dores dessas comunidades eram as mesmas da Vila Torres. Havia uma grande necessidade de geração de renda dentro das comunidades, havia uma grande necessidade de conexão de consumidores e vendedores e aí o Papoom aumentou a sua forma de atuação”, finalizou