O angolano Jacob Cachinga recebeu o convite mais inusitado da vida dele, no último fim de semana, em Curitiba. Ele foi um dos participantes da visita guiada noturna ao Cemitério Municipal São Francisco de Paula, no bairro São Francisco, atividade promovida pela prefeitura.

Visita guiada de cemitério tem inclusão de cegos: 'Desconstruiu meu olhar; sem palavras'
Jacob Cachinga e Clarissa Grassi no Cemitério Municipal São Francisco de Paula.
Foto: Arquivo Pessoal.

Jacob mora na capital há 21 anos, desde que chegou ao Brasil com um grupo de outros 23 africanos, em 2001. Os imigrantes vieram fugidos de décadas de confrontos em Angola e que causou a morte de muita gente. A inesperada visitação ao cemitério proporcionou a Jacob, entre tantos outros sentimentos, a superação de um trauma.

“A experiência foi ótima, descontruí o meu olhar com relação ao cemitério. Eu tinha muito medo. Vim da África, do país de Angola, e, quando vim ao Brasil, Angola estava sofrendo uma guerra civil, que perdurava durante mais de 30 décadas. Então, esse medo de fantasma, de morto, tínhamos bastante. Esse convite foi muito bom, porque descontruiu realmente meu olhar. Fiquei realmente diferente”,

revela o angolano.

Assim como muitos curitibanos, Jacob só conhecia personagens da história, como Doutor Muricy, Comendador Araújo e Vicente Machado, por exemplo, como nomes de ruas do centro da capital. No Cemitério Municipal, o imigrante pode conhecer e entender melhor quem foram e o que representam.

“A mim agregou bastante. O amor à cidade acaba sendo aflorado, acaba criando uma identidade. Quando a gente não sabe da história, não tem cultura, a gente se torna uma pessoa perdida e sem identidade, sem personalidade. Automaticamente, aquele amor pela cidade, pelo zelo, acaba, por vezes, sendo negligenciado sem querer. O afeto que tinha pelo povo curitibano já era enorme, pelo que fizeram por mim e meus colegas. Ao saber a história de Curitiba, esse afeto acaba sendo maior ainda. Essa identidade acaba sendo mais inerente.”

Arte que fala

Como diz Jacob, “as artes falam muito”. Na última visita, além de ouvir as histórias e os seus personagens, com o auxílio da audiodescrição voluntária de Raquela Carissimi, os cegos puderam conhecer cada construção por meio do toque com as mãos.

A visita teve supervisão e orientação da diretora de Serviços Especiais da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Clarissa Grassi e da especialista em educação especial e inclusiva Diele Pedrozo Santo, professora de Arte/Inclusão e idealizadora do projeto Ver Com As Mãos, que viabilizou a visita.

“Elas nos faziam pegar nas esculturas, falavam dos tipos de túmulos, como funciona, de onde vieram, como foi arquitetado, quem arquitetou. Então, cada detalhe daquela escultura fala muita coisa que passa despercebida. E, a nós, que somos deficientes visuais, mais ainda”,

explica Jacob.

Na avaliação de Diele, os cegos têm a oportunidade de transformar o olhar, como qualquer outra pessoa. “Se, pra gente que enxerga, a visita é uma ressignificação do olhar sobre esse espaço, pra eles isso não é diferente. Mas essa oportunidade vem acompanhada de um conhecimento sobre essa leitura das imagens, que, para eles, só seria possível se soubessem a descrição, o toque mediado e elementos que são possíveis de serem vistos pelo relevo”, diz.

Jacob Cachinga é auxiliado por Clarissa Grassi durante a visita ao cemitério,
Foto: Arquivo Pessoal.

A professora acredita que a visita também é uma forma de desconstruir o olhar dos outros visitantes para a importância das ações inclusivas. “Elas mostram que as pessoas com deficiência visual também são público e que a informação e o acesso à cultura deve ser para todos.”

Inclusão de verdade

Esta não foi a primeira vez que aconteceu uma visita guiada pelo público com deficiência ao Cemitério Municipal. Porém, foi de um jeito diferente, bem mais inclusivo. A última visitação foi em dezembro de 2019.

Ela foi fechada, somente para quem tinha alguma deficiência, como pessoas no Transtorno do Espectro Autista (TEA), cadeirantes, cegos e surdos, com audiodescrição e intérprete de libras. Desta vez, ela foi verdadeiramente inclusiva, com todos os públicos juntos.

“Foi muito interessante trazer esse passado de Curitiba a um público muito curioso e afim de conhecer a história da cidade e tentar lançar um novo olhar sobre o cemitério. Dessa vez, mesclamos o público usual da visita com pessoas com deficiência, porque a intenção é não ter que fazer algo especial, mas tornar o usual acessível, ainda que a gente dependa de vários profissionais para nos darem suporte, e tornar cada vez mais frequente esse tipo de visitação e tirar também um pouco desse tabu em relação à morte”,

esclarece a diretora da Secretaria.

Próximas visitas

O Cemitério Municipal São Francisco de Paula ficou dois anos sem visitação, por conta da pandemia de covid-19. Desde que foi retomada, a procura para se inscrever é extremamente concorrida. As vagas acabam em um minutos.

Em princípio, a próxima visita será no dia 27 de agosto e será especial, com a temática Artistas Visuais. “É a oportunidade de conhecer a trajetória de artistas como Alfredo Andersen, Guido Viaro e Miguel Bakun, que estão sepultados ali. Sempre levo reproduções de suas obras, porque a grande proposta é um olhar sobre a nossa memória”, destaca Clarissa.

As inscrições abrem alguns dias antes da visita no guia.curitiba.pr.gov.br 

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