Dois policiais militares suspeitos de envolvimento na confusão que terminou com um jovem baleado na saída de uma casa noturna no bairro Água Verde, em Curitiba, na última sexta-feira (7), se apresentaram à polícia na manhã desta quinta-feira (13), acompanhadas de um advogado. Um deles já havia sido identificado como o autor dos disparos contra a vítima, que ficou gravemente ferida. Ele foi encaminhado a um hospital.

Um jovem acabou baleado na confusão, na saída da casa noturna.
Foto: Reprodução.

Um inquérito foi instaurado por tentativa de homicídio pela Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). O outro policial teria entrado em briga corporal com a vítima e também é investigado. Ao serem interrogados nesta quinta, ambos se mantiveram em silêncio, de acordo com a delegada Camila Cecconello, chefe da DHPP.

“Eles podem ser indiciados, em princípio, um deles, pela tentativa de homicídio, porque efetuou os disparos, e o outro por ter entrado em briga corporal e lesões em uma outra vítima. Estamos avaliando, terminando de analisar todas as imagens, ouvindo todas as testemunhas, pessoas que estavam na casa noturna, amigos da vítima e outros seguranças. Durante a semana, ainda vamos fazer várias oitivas e, depois, concluir o inquérito”,

explica Camila.

O advogado Nilton Ribeiro, que representa os dois policiais militares, afirma que os clientes não prestaram interrogatório porque ainda não tiveram acesso aos depoimentos que já foram colhidos. “Inclusive, não tivemos acesso a imagens internas da casa, onde fiquei sabendo que aconteceu uma briga com outra pessoa dentro da casa, uma mulher. Parece que esta suposta vítima bateu em uma mulher que estava dentro da casa. Me parece que isso teria sido o estopim e tudo isso que desaguou aqui na DHPP, em Curitiba”, afirma o defensor.

Ele negou que os PMs estivessem trabalhando como seguranças da casa noturna na hora dos fatos, como levantado por algumas testemunhas. “Inclusive, eles pagaram a comanda, estavam ali frequentando como clientes”, garante Ribeiro.

A delegada Camila confirma as duas versões, portanto, uma inconsistência nos depoimentos. “Testemunhas informaram que eles seriam seguranças. Eles se mantiveram em silêncio quando questionados à respeito desse fato e sobre a tentativa de homicídio. Algumas testemunhas afirmam que eles eram apenas frequentadores e outras afirmam que apenas seguranças. Elas divergem nesse contexto. Mas, independente de estarem como seguranças ou frequentadores, o fato a ser apurado é que houve disparo de arma de fogo e é nisso que a DHPP vai apurar as investigações.”

Segundo a delegada, as comandas que teriam sido usadas pelos policiais foi solicitada ao advogado dos suspeitos, para analisar se houve algum consumo no local.

Advogado alega legítima defesa

O advogado dos PMs pretende defender a tese de legítima defesa e também da população, neste caso, mesmo eles não estando em serviço, como afirma Ribeiro. “Policial é policial 24 horas. Ele tem que defender o cidadão. Estavam na função, não de policiais, mas são policiais 24 horas. Então, como clientes, estavam ali, se depararam com uma situação que necessitava intervenção. O policial sacou a arma para se defender e defender terceiros”, alega.

E complementa: “Um dos grandes medos de todo policial, seja militar, civil, federal, é morrer com a própria arma. Quando o policial está armado e se depara com uma situação, como aconteceu agora, a primeira coisa tem que proteger o armamento. Naquela briga, o grande receio é perder a arma, morrer com a própria arma e que a arma acabe ferindo outras pessoas. Me parece que é uma livre defesa clássica.”

Conforme o advogado, a arma já teria sido entregue ao Batalhão de Polícia Militar e os policiais não teriam problemas anteriores com a Justiça.

Flagrante da briga

Imagens de câmeras de segurança analisadas pela DHPP mostram, como relata a delegada da DHPP, que a vítima discute com uma segurança no interior da casa noturna. Ela informou para a polícia que, nesse momento, pediu a comanda e o nome da vítima. “Ela não quis passar o nome, então eles começaram uma troca de agressão verbal. Em determinado momento, a segurança se afasta, meio que empurra levemente a vítima, e a vítima dá um soco nessa segurança feminina”, descreve Camila.

Assista a um dos vídeos:

Alguns seguranças e outras pessoas que se envolveram na discussão e colocaram a vítima para fora do estabelecimento estão sendo ouvidas nesta quinta-feira na DHPP. “Lá fora, inicia-se uma discussão entre a segurança, essas pessoas que são interrogadas e a vítima, e amigos da vítima.”

Conduta de outros PMs

Um detalhe que chamou a atenção da polícia é de uma viatura da PM, que vai até o local da confusão. A delegada-chefe da DHPP afirma que apesar da presença no local, não há uma ação de interferência no fato. “Isso está sendo conversado com a Polícia Militar. Estamos remetendo esses dados, essas imagens, esses fatos para a Corregedoria da Polícia Militar, para apurar uma eventual responsabilidade dos policiais, que acabaram não atuando ali, nesse momento”, revela Camila.

Inquérito na PM

A Polícia Militar do Paraná (PMPR) informou por meio de nota oficial, no início da semana, que os policiais militares que se apresentaram respondem a um processo administrativo instaurado pela corporação. A arma usada no momento do fato já estaria em poder do Batalhão da PM, como conta o advogado dos PMs. Os policiais estariam de folga, conforme a nota da PMPR, e inicialmente eles estariam afastados da atividade operacional, enquanto o caso é apurado.

“… assim que a PMPR for demandada pela polícia judiciária, os militares estaduais serão apresentados para que possam prestar os devidos esclarecimentos. A Polícia Militar do Paraná reforça que não compactua com qualquer desvio de conduta de seus integrantes, e se coloca à disposição para auxiliar no que for preciso, na busca da elucidação dos fatos”.