A ‘curitibana de coração’ Rosa Maria Matioski está acusando a Clinipam, operadora de saúde do Paraná, de dificultar o seu tratamento médico. Desde o início de 2024, a paciente move ações judiciais contra o plano de saúde. Ela busca as melhores condições para cuidar, no Hospital Erasto Gaertner, da doença amiloidose AL, que é rara, não tem cura e afeta seus rins.

Nessa última semana, a Banda B teve acesso a liminares concedidas em favor de Rosa e também tomou conhecimento de movimentos judiciais movidos pela paciente contra a empresa, gerida pela Hapvida NotreDame Intermédica.

O grupo, que tenta a mudança do local de tratamento para o Centro Oncológico Cabral, conforme apontam as queixas, foi procurado pela reportagem para comentar o caso. Confira a nota na íntegra ao fim da matéria.

paciente rosa clinipam
Rosa trata a doença amiloidose AL, que é rara, não tem cura e afeta seus rins (Acervo Pessoal)

A síntese do caso

Rosa é de Papanduva (SC), mas vive em Curitiba desde os 4 anos. Atualmente, são dois processos movidos contra a Clinipam: o primeiro, em busca de um remédio chamado daratumumab, que possui alto valor de custo. Em 1º grau, a Justiça concedeu à Rosa o direito de usufruir da medicação com a cobertura do plano. A ação, porém, foi alvo de recurso em tramitação. Enquanto isto, o valor do custo do medicamento foi bloqueado e transferido à gestão do Erasto para a execução do tratamento de Rosa.

A segunda ação, cuja Rosa possui apenas a liminar em seu favor, concede momentaneamente dois medicamentos necessários, conforme aponta a avaliação dos médicos do Erasto, em um protocolo clínico voltado ao tratamento da doença rara. Conforme o representante legal da paciente, a medida foi necessária porque a Clinipam teria parado de fornecer os medicamentos ao hospital, que era atendido pelo plano de saúde.

Ainda, a defesa da paciente questiona sobre a alteração do local do tratamento da doença rara que está sendo proposta pela Clinipam. O grupo vinculado à Hapvida NotreDame Intermédica também recorre da liminar judicial, uma vez que valores foram bloqueados com o intuito de garantir o fornecimento dos medicamentos à Rosa.

Os representantes entendem que, se houver a alteração do local do tratamento da paciente, o protocolo clínico pode ser alterado ao ponto de colocar a vida dela em perigo.

O diagnóstico da amiloidose AL

Da descoberta dos sintomas ao diagnóstico da doença, passou-se o intervalo de um ano. Em setembro de 2022, durante a execução de exames de rotina, Rosa ficou ciente de que estava perdendo proteínas por meio do exame de urina. Ela foi orientada a procurar um nefrologista.

Três meses depois, com o plano da Clinipam, a paciente fez uma biópsia de rim. O exame foi encaminhado para Belo Horizonte e retornou com o diagnóstico da amiloidose. No entanto, qual era o subtipo?

Essa situação ficou pendente. Para verificar qual o tipo da amiloidose, o exame foi feito pela Janssen. Só que no primeiro exame faltou material para isso (identificação). Já estava sendo tratada pela médica da Clinipam, que não pedia uma biópsia de medula. Nesse momento, eu já estava indo em médicos particulares. Todos falavam sobre a biópsia de medula. Então, eu busquei o exame particular.

Rosa Maria Matioski, contratante da Clinipam.

A segunda biópsia de rim, feita pela paciente por dentro do Hospital Erasto Gaertner, foi encaminhada ao programa da Janssen, novamente. Em novembro de 2023, o diagnóstico confirmou o subtipo da doença: AL.

O tratamento começou fevereiro de 2024. Segundo Rosa, a Cliniplam negou o início do tratamento em dezembro de 2023.

Porém, a Clinipam negou o medicamento que o médico do Erasto Gaertner pediu. Passei o mês de dezembro de 2023 verificando a situação junto ao advogado. Em janeiro de 2024, nós entramos com uma liminar onde a juíza concedeu o tratamento/medicamento, sendo de alto custo. Mesmo assim, eles negaram, com a juíza dando a sentença. Foi quando a juíza pediu a transferência de valor (bloqueio de bens) para o hospital Erasto Gaertner. A partir disso, eu comecei minhas quimioterapias em 1º de fevereiro de 2024.

Rosa Maria Matioski, contratante da Clinipam.

Desconfiança? Plano de saúde descumpre liminar, diz paciente e advogado

Dos três medicamentos indicados pelo médico do Erasto, um é caro — conforme já mencionou a reportagem — e foi ganho na Justiça. Os outros dois passaram de ser fornecidos em abril, momento em que Rosa buscou a ação judicial pela segunda vez.

A partir do quarto ciclo, o plano de saúde passou a se posicionar sobre a necessidade da mudança para o Centro Oncológico Cabral, que não possui a estrutura e empatia necessárias para o cuidado da doença, segundo a denunciante.

Procurei o Centro Oncológico Cabral. A médica que me atendeu não foi nada empática. A pessoa que me atendeu falou que minha doença era ‘rara da rara’. Se tivesse uma no planeta, seria muito. Eu saí de lá transtornada, abalada. Tive ansiedade, tive pânico. Fiquei muito mal. No Erasto, eu fui acolhida. (…). Lá tem um pronto atendimento; se precisar, é um hospital que tem uma UTI, tem uma ambulância, algo que não acontece no Centro Oncológico Cabral.

Rosa Maria Matioski, contratante da Clinipam.

O advogado Giovanni Klettenberg, especialista em direito médico, explica o porquê é importante que Rosa permaneça com seu tratamento no Erasto. Segundo ele, apesar de a doença não ser um câncer, o protocolo de rosa é quimioterápico.

O representante da paciente mencionou ainda que, com a possível alteração do local, a Clinipam não irá permitir que o tratamento com os três medicamentos receitados no Erasto continue.

Esse é o maior receio da Clinipam. Por que, a princípio, o tratamento é de seis meses, mas ele pode ser prorrogado por algum outro período. Então, uma vez que o plano de saúde consegue transferir o paciente de médico, que é isso que eles estão tentando fazer, eles vão mudar o tratamento dela. Eles não vão mais receitar o daratumumab, por quê? Porque é um medicamento de alto custo. Então, eles vão colocar, de repente, um tratamento similar ou parecido que não tenha o efeito que tem esse medicamento comprovado através de estudo científico, etc., né? (…) A Clinipam está tentando, de todas as formas, literalmente, barrar a continuidade do tratamento dela.

Giovanni Klettenberg, advogado.

Levantamento aponta que Hapvida NotreDame Intermédica descumpre decisões judiciais favoráveis aos seus beneficiários de forma sistemática

Reportagem do jornal O Estado de S. Paulo trouxe informações sobre o descumprimento sistemático de decisões judiciais favoráveis aos seus beneficiários. Atualmente, a maior empresa de planos de saúde do Brasil conta com cerca de 9 milhões de clientes, distribuídos entre diferentes grupos locais do país.

O Estadão fez um levantamento dos processos somente no Foro Central Cível, o maior da cidade de São Paulo, e encontrou mais de cem casos de descumprimento judicial entre abril e dezembro de 2023. A reportagem completa pode ser lida aqui.

Paciente cita desgaste com plano de saúde, pago há mais de uma década

Além do processo técnico envolvendo o protocolo clínico quimioterápico, Rosa ressalta outro importante detalhe no que diz respeito ao tratamento de uma doença rara: o humano.

Ela destaca que não tem como saber como será sua saúde no futuro, mas tem certeza que um tratamento adequado a permitirá viver sem grandes complicações. Nesse sentido, o Erasto, para a paciente, virou uma nova casa.

Lá fui acolhida pelo meu médico. Ele me atendeu e falou assim: ‘Vamos cuidar de você. Aqui temos um centro de referência de doenças raras’. Eles atendem doenças raras, eles fazem reuniões semanais para discutir os problemas de pacientes com doenças raras. Então, lá eu me sinto amparada, lá eu me sinto assistida. Lá tem um pronto atendimento.

Ao descobrir uma doença rara, como eu descobri em 2022, você fica sem chão. Você vai até uma médica, que te deixa pior, te desorienta. Além de não ter um amparo do plano porque, toda vez que eu liberava uma guia, dava um problema em uma senha. Eu liberava uma guia, era um problema e me mandavam lá para o oncológico. Hoje, simplesmente, querem me transferir. Mas falei que eu não vou. O Erasto é referência no Brasil para sair do Centro Oncológico do Cabral.

Rosa Maria Matioski, contratante da Clinipam.

O que diz a Clinipam?

A Banda B procurou a Clinipam Curitiba, plano de sáude que faz parte da Hapvida NotreDame Intermédica, para comentar os pontos trazidos pela paciente e seu advogado nesta reportagem.

Confira a reposta na íntegra:

A empresa reitera seu compromisso de proporcionar a melhor assistência e cuidado aos seus clientes. Destaca-se que a medicação da cliente Rosa Maria Matioski está disponível para realização dentro da rede própria, em conformidade com a decisão judicial. A operadora salienta que seus pacientes são submetidos a avaliações regulares para acompanhar a evolução de seu quadro clínico, garantindo assim que a liberação dos medicamentos seja realizada de forma segura conforme cada caso.

Em relação ao hospital citado, a Companhia esclarece que o prestador permanece ativo e credenciado à Operadora, apenas houve readequação de alguns serviços para outros prestadores da rede, conforme previsto nas condições contratuais e legislação vigente. A empresa mantém contato com a cliente e está à disposição para quaisquer esclarecimentos necessários.

Comunicar erro

Comunique a redação sobre erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página.

‘Curitibana de coração’ revela dificuldades com doença rara e acusa plano de saúde de dificultar tratamento no Erasto Gaertner

OBS: o título e link da página são enviados diretamente para a nossa equipe.