Um médico é treinado para tratar e curar pacientes. Mas e quando esse profissional acaba descobrindo uma doença grave como uma leucemia? No caso do médico Leandro Carvalho Ribeiro, oncologista do Erasto Gaertner, o conhecimento foi ao mesmo tempo a salvação e o desespero. Ele descobriu o câncer através de uma aula que um amigo fez a convite dele, e foi o próprio amigo que o ajudou a encontrar a cura.

Leandro convidou o amigo Eduardo para uma aula, e lá descobriu que estava com câncer
Leandro convidou o amigo Eduardo para uma aula, e lá descobriu que estava com câncer. Foto: Arquivo Pessoal.

Em 1994, quando entrou para a equipe de medicina do Hospital Erasto Gaertner ainda como um estagiário, ele não imaginava que 30 anos depois sua história praticamente se fundiria com a da instituição. Depois de muito tratar pacientes, o médico oncologista se viu pela primeira vez sem chão e de um lado do balcão que nunca esteve: o de enfermo.

Atuando desde 2004 no hospital, Leandro convidou o médico Eduardo Cilião para uma aula na universidade onde leciona. O tema era princípios em quimioterapia. Mas o que parece é que o destino estava mostrando alguma coisa.

“Nos últimos 30 dias que antecederam o diagnóstico, eu não estava me sentindo bem. Quando ele deu essa aula de princípio de quimioterapia, ele acabou falando de linfoma. E como eu estava assistindo a aula também, eu acabei identificando alguns sintomas e pensei: será que é possível? Depois que ele acabou essa aula, fui conversar com ele e ele até duvidou. Mas aí fomos atrás, pedimos os exames e foi aí que eu acabei descobrindo que realmente eu estava com leucemia”

contou Leandro Carvalho Ribeiro, médico do Hospital Erasto Gaertner.

O médico Eduardo Cilião, hematologista que trabalha no Erasto Gaertner, contou que inicialmente até chegou a dizer que não era nada. Mas quando viu os exames, entendeu que havia sim motivos para preocupação.

“Ele fez um exame de imagem e esse exame deu sugestivo de algum problema. Quando a gente analisou junto, a gente achou melhor fazer um exame de medula e ele foi diagnosticado com leucemia linfoblástica aguda, que é um tipo de leucemia aguda. A gente começou o tratamento, ele fez quimioterapia, ele não respondeu à primeira linha de quimioterapia”

disse o médico Eduardo Cilião.

Eduardo Cilião levou o caso para uma comissão de especialistas, pois Leandro tinha um tipo de câncer mais complexo, com muita alteração cromossômica, nos genes da medula óssea.

“A gente discutiu o caso dele e achou melhor que ele saísse da quimioterapia tradicional para uma imunoterapia, que é uma terapia mais moderna. Com essa quimioterapia mais moderna, ele respondeu”

detalhou Eduardo.

Medula estava em casa 

Leandro contou que o diagnóstico trouxe muito medo e apreensão. “O chão se abre, você perde o norte, você precisa reagir, mas você não sabe como. Mesmo eu sendo médico, cirurgião oncológico, atuando na área. Realmente é um baque muito grande o diagnóstico. E aí você junta a força e entra no modo de sobrevivência. Eu só pensava numa coisa: ‘vai dar certo, tudo que a gente fizer vai dar certo e é uma fase que vai passar’”, disse Leandro.

Ao mesmo tempo, Leandro se prendeu a tudo que sempre buscou dizer e levar, que desse forças para os próprios pacientes.

“Uma coisa que sempre falei também para todos os meus pacientes no consultório, isso sempre falei a vida inteira, para todos os pacientes no consultório, todos os pacientes no SUS, que é enquanto houver 1% de chance, nós vamos lutar. Não pense nos 99% que vai dar errado, pense no 1% que pode dar certo. Porque Deus é muito grande. Procuramos pensar nas porcentagens de sucesso”

reflete Leandro.

Como conseguiu descobrir o diagnóstico mais cedo, tudo foi muito rápido: em setembro veio a descoberta e em dezembro Leandro passou pelo transplante de medula. E a salvação estava dentro de casa.

“Assim que veio o diagnóstico, o doutor Eduardo começou a correr. Eu tenho mais quatro irmãos vivos, então a gente já começou a coletar os exames para ver se existia ou não um possível doador dentro da família. Eu tive a felicidade, a sorte, a bênção de Deus de ter no meu irmão mais velho a compatibilidade de 100% de medula, onde ele acabou sendo o meu doador”

contou Leandro.
Leandro passou pelo transplante de medula após descobrir que um de seus irmãos era compatível.
Leandro passou pelo transplante de medula após descobrir que um de seus irmãos era compatível. Foto: Marcelo Andrade/Divulgação/Erasto Gaertner.

Cura do corpo e da alma

Leandro comentou que o processo de tratamento mexeu não só com ele e com o amigo Eduardo, mas com todos que estavam muito próximos dos dois.

“O diagnóstico para a família foi a parte mais difícil. Não é um paciente doente, é uma família doente, a família adoece junto. Você tem que ter calma, você tem que ter serenidade, tranquilidade e é uma parte muito difícil mesmo porque não só para mim como para todos os meus irmãos, meus familiares, foi muito difícil. Todos ficaram muito abalados. Mas eu sempre procurei falar ‘gente, olha aqui, ó, tem tantos por cento de chance de sucesso, vamos focar nisso e vamos para frente, vamos seguir o tratamento que é o que precisa ser feito nesse momento’”

lembrou Leandro.

Eduardo contou que o tratamento de Leandro teve bastante intercorrência. Mas foi justamente na determinação que veio ainda mais força para lutar. Inclusive para o próprio amigo, agora na “função médico”, poder atuar.

“Já tratei colegas. Mas não tratei amigo. Ele é meu colega e também é meu amigo pessoal. Isso foi um desafio, porque você se cobra mais para entregar um resultado positivo. A pressão é bem maior. Não tem como deixar o lado emocional de lado, eu acho que é impossível”

comentou Eduardo Cilião.

Como todo diagnóstico de doença grave, Leandro contou que teve medo da morte. Ainda assim, entendeu exatamente o que os pacientes sentiam.

“Quando você tem um diagnóstico, principalmente um diagnóstico de um câncer agressivo, é inevitável. Passa na tua cabeça uma possibilidade de uma brevidade, de uma interrupção na tua vida. E o medo aparece. O importante, e hoje eu consigo entender com mais clareza, até para explicar para os meus pacientes, é que o medo vai existir, mas você não pode deixar o medo dominar. Lute com medo, mas não deixe de lutar”

disse Leandro.

Mesmo sendo cirurgião e oncológico, mesmo trabalhando com isso, Leandro comentou que não tinha noção de como era o tratamento na prática, pois só quem passa sabe. “Quem passa pelo tratamento são os pacientes. Eu não sabia como era e realmente é um tratamento muito pesado. Você recebe drogas muito fortes. É um tratamento muito difícil. E ao mesmo tempo que eu estava fazendo meu tratamento internado, o meu irmão fazia todos os exames para testar todas as compatibilidades possíveis, foi uma sequência de eventos”.

Leandro e Eduardo se tornaram ainda mais próximos após o tratamento
Leandro e Eduardo se tornaram ainda mais próximos após o tratamento. Foto: Arquivo Pessoal.

Médicos também sentem

Depois de receber o transplante e entender que o pior momento já tinha passado, Eduardo, o amigo que precisou ser tão forte quanto o paciente para conseguir tratar Leandro da melhor forma possível, tirou uma das lições mais importantes da vida dele.

“O médico está sujeito a ficar doente, também é uma população vulnerável. O médico tem uma tendência de trabalhar demais, então levo a lição de a gente se permitir também aproveitar um pouco mais a vida, estar mais com a família, com os amigos, praticar esporte, cuidar da saúde, para ter uma vida mais equilibrada”

concluiu Eduardo.

Leandro compreendeu também a importância de se enxergar como pessoa. Apesar disso, tudo mudou, em todos os sentidos.

“Posterior a tudo isso, o meu entendimento como médico hoje em relação ao paciente é uma empatia maior em todos os sentidos. Hoje eu consigo entender com mais clareza”

avaliou Leandro.

Com relação à vida, Leandro ressalta que muitas coisas que antes acabavam sendo importantes, deixaram de ser.

“Eu me aproximei muito mais da minha família. Receber amor é muito importante e deixar que as pessoas te deem amor é muito importante durante todo o tratamento”

refletiu Leandro.

A lição que ambos tiraram, além de ver a amizade ainda mais forte e os laços familiares mais resistentes, é a de que tudo passa.

“Acreditem, acreditem em Deus. E tenho certeza que, da mesma maneira que existe uma data de início, existe uma data de fim e tudo vai passar. É só uma fase da vida, a fase tortuosa, uma fase difícil, mas ela vai acabar e tem que pensar positivo, que vai dar certo no final”

concluiu o médico e paciente.