*Ana nunca tinha estado longe de seu bebê de dez meses por um dia sequer. Mas, desde sábado (11), a mãe não recebe notícias sobre o filho. Ela protagonizou um caso policial no último sábado (11), ao ser detida pela Polícia Militar (PM) e levada ao Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes (Nucria) por abandono de incapaz. Ana foi liberada no domingo (15), sem pagamento de fiança ou protetiva que impedisse a aproximação do filho. O bebê está com o pai.

 

 

Para ela, o episódio envolvendo viaturas e delegacias é apenas uma fatia injusta da rotina que o bebê tem com ela. Ana tem 30 anos, é graduada, atua na área de vendas e mora com o bebê em um apartamento no bairro Capão Raso, em Curitiba. O casamento com o pai da criança durou dois anos e, desde a separação, há quatro meses, ele se recusava a ter contato com o filho, segundo ela.

“Desde o nascimento, ele sempre foi muito ausente, nunca foi um bom pai, nem bom marido. Nunca me ajudou com o bebê. Quem cuida da criança sou eu e minha família, ele e a família dele nunca se interessaram em fazer isso. Mesmo juntos, tive pouco contato com a família dele”, conta ela, em entrevista à Banda B, na manhã desta quinta-feira (16).

*João no berço, em vídeo caseiro feito pela mãe. Foto: Banda B/Arquivo familiar

Carga de cuidados

Todos os recursos necessários para a educação da criança são investidos pela mãe, segundo Ana. “Eu pago escola bilíngue, plano de saúde, odontológico, roupas, lazer, alimentos. Ele tem um quarto só para ele, brinquedos. Ele (o pai) dá um valor de R$ 300 desde fevereiro por causa da Justiça e se exime da responsabilidade de compartilhar os cuidados”, alega a mãe.

Desde a suspensão das aulas devido à pandemia, Ana assumiu toda a carga de cuidados com o filho, segundo sua versão. “Está comigo direto, todos os dias, desde dezembro o pai se recusa a ficar com ele”, criticou. A mãe dela mora em Londrina e o pai é falecido. “Às vezes conto com a ajuda de amigas”, completou.

Agressão

O início da ausência do pai, segundo Ana, aconteceu de forma mais drástica no início de dezembro, quando uma agressão aconteceu na família. “Ele me agrediu, foi preso, saiu e desde então ele usa meu filho para me atingir. Eu tenho uma medida protetiva contra ele, mas não contra meu filho. Por causa disso, nem ele, nem a família queriam chegar perto da criança”, diz ela.

O relacionamento do casal durou cerca de dois anos, entre idas e vindas. Para Ana, a agressão que sofreu foi o fim definitivo do casamento. “Depois disso, ele passou a se recusar a ficar com a criança”, expôs.

Abandono

O dia fatídico na vida de Ana, envolvendo o filho, começou na tarde do último sábado. “Eu tentei deixar o nosso filho com o pai, mas a família simplesmente se recusou. Eu fui nesse bar esperar minha amiga, perto da casa dela. Deixei meu filho dormindo, carro aberto, com as janelas abaixadas, por trinta minutos, não duas horas como disseram. Ele estava bem e eu já tinha ido ver ele três vezes”.

Segundo ela, quando a polícia chegou no bar a primeira reação foi tentar entender o que estava acontecendo. “Eu pedi uma cerveja porque eu estava nervosa, deixei ele dormindo, eu não queria acordá-lo, eu deixei ele com uma cobertinha. Quando a polícia chegou, eu ‘não, o que está acontecendo’, não neguei, só quis entender o que estava acontecendo”, descreve ela.

Arrependimento

A mãe enxerga com arrependimento ter deixado o bebê dentro do carro e fala em ‘hora errada, no lugar errado’. “Se eu pudesse, teria voltado e ficado com ele dentro do carro, pra me acalmar lá e esperar a minha amiga lá dentro. Estava no lugar errado, na hora errada. Ele estava bem, eu estava lá pra ver, só não quis acordá-lo”, ressalta.

Ausência do pai

Ana contou que essa não tinha sido a primeira vez que ela tentava deixar o filho sob os cuidados do pai. “Eu já tinha tentado levar o *João outras vezes na casa dele e nada, sempre se recusam, dizem que eu tenho que cuidar. Eu só queria um fim de semana, uma tarde, umas horas para mim, apenas isso. Tenho testemunhas de que eu cuido muito bem do meu filho, nada falta a ele graças a mim e a minha família”, diz.

Após o episódio, o pai o bebê mencionou que, a partir de agora, quer a guarda da criança, segundo Ana. “Meu filho está com pessoas desconhecidas. Ele nunca ficou cinco dias sem me ver, eles não querem que eu vá até lá, mas não tem nenhuma medida protetiva que peça distância. Ele nunca conviveu com essa família, nem com o pai direito. Nunca trouxe uma fralda, está há cinco meses sem olhar pra ele direito, nunca custeou nada, quer o que com ele, agora?”, questiona Ana.

Para ela, o pedido oficial na justiça sobre a guarda da criança é mais uma forma de atingir a ela. “Estou desesperada, nunca fiquei um dia longe do meu filho, é como se tivessem arrancado ele de mim. Depois de tudo que ele fez, de toda a ausência, ele agora quer cuidar? Ele quer usar meu filho para me atingir. Nunca se preocupou com nada das coisas dele. Ele não sabe fazer mamadeira, não sabe o leite que meu filho toma”, denuncia à Banda B.

Por fim, ela rechaçou a versão de que seria usuária de drogas. “Não sei de onde saiu isso”, finaliza. O caso continua sendo investigado pelo Nucria, com auxílio da Vara da Família, já que há um processo em andamento de guarda compartilhada e auxílio alimento (pensão).

Outro lado

A reportagem não conseguiu contato com o pai do bebê e deixa o espaço aberto para que ele se manifeste, caso queira.

 

*Ana é um nome fictício. Os nomes foram mantidos em sigilo pela proteção e preservação da família, conforme Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

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Mãe garante que não abandonou filho em carro e denuncia ausência de pai

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