Nascido em Indaial, no estado de Santa Catarina, em 1945, desde muito cedo o comerciante Ingomar Heidorn demonstrava o grande interesse que tinha em viver a vida e correr atrás dos sonhos.

Fotos: Arquivo da família.
Ouça abaixo o depoimento emocionado da filha de Ingomar Heidorn:
Aos 14 anos, já trabalhava. Aos 16, trabalhava no porto. Ele vendia produtos como perfumes importados e charutos aos turistas que desembarcavam dos navios. Quando a irmã, Lia, casou e mudou para Curitiba, Ingomar aproveitou a oportunidade e foi atrás dela na capital paranaense.
Em Curitiba, depois de muito correr atrás de vários tipos de trabalho, Ingomar assumiu o comando de uma oficina mecânica. Certo dia, um taxista, que recém havia aberto as portas de uma banca de jornais e revistas no bairro Batel, porém já desistido do negócio, fez uma proposta de venda ao jovem empresário. Ofereceu a banca em troca de serviços para o táxi dele.
Assim começou a trajetória visionária de Ingomar com a sua banca na Pracinha do Batel, em paralelo à transformação do bairro em um point de Curitiba.
“Meu pai pegou a banca, abriu já no dia seguinte. Demorou quase um dia inteiro, ele vendeu um ping-pong. Também penou. Ele dizia: ‘Nossa, pior coisa eu eu fiz, mas vou ser insistente’. E continuou”,
conta Liliangela Mendonça Heidorn, uma das filhas do comerciante e que hoje toca a banca junto com a cunhada e um funcionário.
Novidades de fora
Para fazer crescer o negócio, apostava em novidades para os curitibanos. Quando ia visitar a irmã em Santa Catarina, aproveitava para buscar produtos para vender. Ingomar tinha muitas ocupações, mas a banca era a menina dos olhos. Dela, ele cuidava como se fosse uma filha.
“Como a banca era frágil, era de lata, ele dormia no chão da banca, pra ninguém abrir. Foi durante muitos anos”, revela Liliangela. Para ele, conta a filha, o bairro tinha tudo para se transformar em um grande centro de compras e de lazer dos curitibanos e turistas.
E profetizou:
“Isso aqui vai ser o futuro. A Batel vai ser um point de Curitiba, uma avenida muito grande”, diz Ingomar para a família. “E, assim, foi persistindo, e a banca é o que é hoje, a Batel é o que é hoje”,
comemora a proprietária da Banca do Batel.
Ele comprou outras bancas, revistaria em shopping, mas nada tomava tanta atenção dele como a banca do Batel. Fosse natal, ano novo, feriado e mesmo no dia do falecimento dos pais dele, ela nunca fechou as portas enquanto ele trabalhou lá.
Primeiro shopping e primeiro delivery de pizzas
Anos depois, Ingomar visualizou do outro lado da rua, uma casa abandonada, que seria um bom lugar para montar o primeiro shopping de Curitiba. Ele reformou o imóvel, onde hoje funciona uma agência bancária e nele foram instalados oito estabelecimentos. O comércio tinha uma joalheria, lojas de roupas e de calçados, um café e uma barbearia.
Na sequência, o comerciante construiu uma pizzaria. Ele começou a perceber, na época, que as pessoas tinham preguiça de sair para comprar pizza. Para fazer o negócio girar, Ingomar inovou e ali começou o serviço de entregas de pizzas em casa, que até então não existia em Curitiba. Além de um empreendedor nato, Ingomar lutava muito pelo seu comércio e de toda sua classe.
Pelo engajamento, foi chamado por inúmeras vezes para ser presidente de sindicato e vereador também. Uma de suas vitórias foi em prol do acesso à leitura e à cultura, na luta pela redução de impostos e sistema de consignação.
Já cansado da correria na banca, em meados dos anos 1990 Ingormar decidiu passar o bastão para os filhos e levar uma vida mais tranquila. Ele comprou um pesque-pague em Araucária, na região metropolitana, e passou a dedicar seu tempo ao trabalho – que era mais um hobby – no local, até os últimos dias de vida.
Pai enérgico e avô carinhoso
Ingomar foi um pai enérgico e que gostava muito das coisas em seu devido lugar. Honestidade e dedicação ao trabalho eram características muito importante para ele, não somente para os filhos, mas o ser humano em geral.
Sempre foi muito presente, apesar de gostar muito da boemia e de tomar uma cervejinha nos botequins.
“Não importava o que ele passou na noite ou no dia de trabalho, ele chegava em casa e ia olhar todos os filhos. Cobrir todos eles. Não era de dar beijo, mas era a demonstração de carinho dele”,
recorda Liliangela.

Foto: Arquivo da família.
Uma das memórias mais marcantes para a família Heidorn é de uma longa viagem pelo Brasil a bordo de um motorhome, que aconteceu há 20 anos. Na ocasião, Ingomar levou a esposa e a maioria dos filhos (outros ainda viriam) até a Bahia, margeando o litoral, em 1993.
Dias inesquecíveis, rememora Liliangela. “Foram quase dois meses incríveis com meu pai, conhecendo o Brasil todo. Ele dizia que antes de conhecer o mundo afora, a gente tinha que conhecer nosso país. Foi a maioria dos filhos, mais uma prima e um tio.”
Ingomar, é verdade, foi mais amável com os netos. “Estava com um pouco mais de idade e deixou de ser o pai ranzinza, passou a ser um velhinho, carente de amor, atenção. Ele gostava muito de abraçar e beijar os netos. Acho que passou da fase de ‘já eduquei, já fui rígido’, e aí com eles foi o oposto.”
O comerciante morreu dormindo, após 20 dias internado em um hospital de Curitiba. Estava com uma série de complicações, por conta de um tumor nos rins. Ele morreu no dia 20 de fevereiro de 2023, aos 77 anos, de insuficiência respiratória. Divorciado, deixou oito filhos e oito netos.
Falecimentos do dia
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